You're not the big fish in the pond no more || Kratos x Marte || POV
“Você não tem o direito de fazer isso.”
O maxilar de Kratos pulsava com a raiva mal contida enquanto pressionava o rosto de Marte contra o cascalho. Seu joelho estava bem posicionado sobre a coluna do enlouquecido, invalidando qualquer movimento daquele ponto para baixo. Quebrar o osso que ligava os movimentos das pernas para com o cérebro não mudava muito coisa à longo prazo, mas causava uma grande impressão naquele que pensava ser invencível. Kratos praticamente tinha o corpo paralelo ao caído de Marte, o cabelo molhado pingando pela franja meio comprida. Um filete meio dourado meio vermelho escorria pelo braço volumoso, duplicado pelo poder e pelo esforço que a mantinha dominado. Kratos fechou um punhado de cabelos do dominado e puxou a cabeça para trás, a socando de volta na terra com força. O braço de Marte que se esticava para o martelo congelou no ar e voltou para a posição inicial, a mão espalmada no chão numa tentativa de fuga. O golpe poderia colocá-lo em maus lençóis, mas era eficaz no impedimento das tentativas de revidar o golpe. Ele se ajeitou acima do homem e chutou a arma para longe, onde uma das espadas gêmeas jazia quebrada e sem as inerentes chamas incandescentes. As costas do deus da força e poder ardiam, contudo, não tanto quanto antes. Podia sentir a dor se esvair bem mais do que o acostumado. A dor de sempre, que o acompanhara por todo o tempo que permaneceu no acampamento sumindo com a provocada por seu plano contra Marte. O sangue vermelho dava lugar ao icor dourado marco de sua natureza não-mortal. Kratos podia sentir os músculos pinicarem e remexerem como se acordassem. Libertassem de amarras que sabia existir e que não eram visíveis ao olhar.
“Nem por ser filho de Júpiter!”
O tom era de reprimenda por entre os dentes pressionada uns contra os outros. Kratos esticou a mão para as correntes, os dedos tocando o metal que já esfriara do contato com seu corpo a tempos. Tempos. A sensação de liberdade carnal e óssea só não era maior que a culpa por se ver livre delas. Aquelas correntes eram um castigo – que ele não acreditava merecer – e impostas por seu chefe, seu superior, logo, dignas de serem tratadas com respeito. Passou a primeira delas por baixo da cabeça de Marte, deu uma volta em seu pescoço e contornou a circunferência larga de seus ombros. A mágica contida nelas, quando estavam no hospedeiro verdadeiro, deixava-na com um tamanho contido. Contudo, como se Vulcano estivesse o olhando de cima, o metal criava novos elos para agüentar todo o corpo do derrotado. Kratos se virou e enrolou as pernas e os braços com as outras duas correntes transformando-o numa múmia metálica e furiosa.
O olhar de ódio quando a vitória tornou-se sua mais amarga derrota.
Kratos o manipulou desde o início, quando a maneira de derrotá-lo era tão clara e irônica quanto a luz do sol ao amanhecer. E contando com o fato de que ele ia amar participar do processo deixava-o com uma alegria dolorida. Teria que se comprometer a fazê-lo, rebaixar-se a tal nível que a derrota eminente deveria se tornar uma coisa só em seu campo de visão e a urgência de transformar numa tortura e humilhação ao inimigo, maior ainda. Marte não suspeitaria do jeito que Kratos desviava dos golpes expondo as correntes e as desprotegendo. Pequenos brilhos longe de seu corpo, o espaço entre eles tão largo que um martelo podia passar e prender-se na sua extensão. A espada quebrada foi uma surpresa agradável. Não tinha apego às armas como todo mundo pensava, afinal, a força era medida pela alma e pelos punhos, e pela capacidade de usar toda e qualquer coisa a seu favor. E disso, Kratos tinha de sobra.
A primeira queda ao chão e o primeiro puxão foram traumáticos. Foi como se a coluna tivesse sido arrancada das costas. A dor fora tanta, e o susto, que Kratos empurrou Marte para o outro lado do recinto. As costas se arqueando em agonia enquanto o corpo se recompunha dessa vez sem as dolorosas partes metálicas. Sangue vermelho empapou a camisa por baixo da armadura desenhada e a boca bem fechada. Mordera a língua sem perceber, e a evidência de sua condição humana explodiu no chão com o cuspe. Uma parte brilhava mais do que as outras, um fraco brilho metálico que não era comum do sangue. Kratos tornou a se levantar e se jogar no combate pesado com o Deus da guerra, sempre caindo e sempre perdendo uma parte da punição consigo. Marte gritava insultos, se vangloriava pelo sofrimento do outro e, o pior, o menospreza miseravelmente. Quando a última corrente se foi Marte cantava a vitória. O deus da força e poder estava esparramado de bruços no chão, o corpo tremendo com o esforço de se recuperar e o sangue brilhando, e brilhando, e brilhando com o icor dos divinos. Um chute no estômago o fez perder o fôlego, mas os braços que envolveram a perna de Marte e o derrubaram no chão não sofreram em nada com o golpe.
Sem as correntes, Kratos não estava mais preso a si mesmo. Não estava presa a única forma que restringia seu poder ao máximo como uma mangueira de jardim enrolada. Por mais que aumentasse a vazão de água, por mais que a esticasse, não poderia romper os nós que a prendia. Desenrolada, libertada, a situação era outra. E Marte sentia na pele o fim da abstinência. Não foi uma luta injusta, até porque um já vira o outro lutar em suas formas normais. Alguns diriam que, de fato, houve uma luta. Kratos, por outro lado, estava mais do que determinado a terminar tudo com o mínimo de golpes possíveis.
Foi rápido. Quase rápido demais.
Marte estava subjugado, praguejando em todas as línguas que uma vez aprendera tempos atrás. Seu corpo se recuperava do estrago feito pelo Chefe da Guarda Alada do Olimpo e ele lutava contra as correntes que se apertavam ao redor de seu corpo.
“Elas reagem à desobediência. Se eu fosse você, permanecia calmo e as aceitava como uma realidade.”
O icor parou de escorrer, os cortes estavam vermelhos e evidentes em seu rosto, e não passavam de ilusões. Imagens para os mortais verem e se afastarem, um aviso de que aquele corpo assumiria a forma real e esta causaria problemas. Kratos agarrou as correntes e jogou o Deus sobre o ombro sob intenso protesto. Marte não pesava mais do que o bebê que um dia carregara nos braços, não pesava mais do que sua pequena e gentil filha, Alicia. Pensar no que ela tinha feito, na contribuição para o feitiço que se desfazia ao redor e dentro de todo romano o enchia de orgulho. E deixava a partida infinitamente pior. Quem saberia dizer com certeza que Kratos, filho de Palas e Estige, voltaria a pisar em solo terrestre depois do que tinha feito? Se não fosse condenado à existência despedaçada do pai no mais fundo poço do Tártaro seria um grande milagre. Sua fé de que não compartilharia do mesmo cárcere de Cronos era tão grande quanto a certeza da decisão sólida e firme do Rei dos céus.















