naturally {royller}
rainxmiller:
A aproximação de Desiree fez com que Rain virasse o rosto em sua direção, um tanto hesitante. Não conseguia imaginar o que ela lhe responderia e se de fato o faria, pois o sorriso que carregava o fazia lembrar de uma criança travessa que fugia das obrigações (mesmo que pequenas). Tudo que conseguiu fazer foi franzir as sobrancelhas levemente e repuxar os lábios em um sorriso mínimo e desentendido, esperando a sua resposta. Estava nitidamente tenso, ainda que o seu semblante descontraído tomasse conta de qualquer vestígio muito claro para uma pessoa levemente embriagada que nem Desiree. Apoiando os braços nos joelhos, inclinou mais o rosto na direção dela, observando seu rosto com o olhar veloz. Já tinha se arrependido da pergunta em forma de desafio. Quando estava prestes a impedi-la de dizer uma coisa tão íntima, as primeiras palavras dela saíram e ele congelou com o resto que veio.
Estupefato, mas sem desviar o olhar; o rosto demonstrando nada além da imparcialidade, mas com boca semi aberta que estragava toda a sua seriedade. Sentia um formigamento tomar conta de seu estômago e as pontas de seus dedos ficarem geladas, fazendo-o seguir cada passo de Desiree com os olhos surpresos. Ele não esperava que algo assim fosse sair da boca dela, algo tão sinceramente profundo e com uma certeza insana. Engoliu em seco com ela se aproximando ainda mais, tornando o seu olhar ainda mais confuso. Estaria ela brincando com ele? Momentos antes esvaziara todo seu ego da sua relação para com ela, e agora inflava com tanta ferocidade que ele se via sem reação. Como teria descoberto por si só que Desiree sentia isso tudo? Como teria descoberto que ela pensava nele tanto quanto ele o fazia? Nunca passaria por sua cabeça.
E agora também havia descoberto que ela o amava, mesmo que ele não soubesse o que era o amor. Não sabia ao certo o que podia concluir a partir de tamanha revelação. Ele também a amava? Amar era o desejo contínuo de querer ficar perto de uma pessoa? Amar era nunca se cansar de admirar uma pessoa e suas atitudes? Admirar uma risada e querer sempre ouvi-la? Querer mover o céu e a terra apenas para ver a outra pessoa feliz? Era a incapacidade de se ver com uma pessoa qualquer que não a amada? Rain não sabia, mas era tudo isso que sentia em relação à Desiree. Da última vez que parara para pensar sobre seus sentimentos, tinha certeza que estava apaixonado. Agora… Tinha sido apresentado a um conceito novo e mais forte, amadurecido. Ele a amava? Com muita probabilidade, sim. Comprovara tal fato ao permanecer surpreso, a boca seca e com o coração acelerado. O que seria capaz de fazer ou respondê-la sem parecer um garoto de 12 anos? Se não tivesse ouvido o que acabara de ouvir e fosse qualquer outra pessoa que não Roy, Rain teria se levantado e ido embora. Mas a situação era bem diferente.
Os segundos que refletiu as palavras dela fizeram-no acreditar que ele se sentia do mesmo modo. Que ela o deixava louco e que pensar sobre eles dois o fazia quase perder o juízo. O tanto de loucuras que havia feito por ela até agora era mais do que evidente; e faria de novo se pudesse ter a certeza de que seria levado ao exato momento que se encontrava. Observou o olhar arrependido de Desiree já mais estabilizado, puxando o ar com calma e relaxando os seus ombros. Uma vez que pensar sobre suas atitudes antes de toma-las não era um hábito seu, Rain, alternando rapidamente os olhos sobre as orbes escuras e a boca avermelhado dela, deixou escapar em um sussurro: — Então eu acho que nós dois vamos acabar num hospício — respirando fundo, umedeceu os lábios e a beijou. Ele queria ter falado algo mais, porém as palavras não eram seu forte. Por isso, tentou demonstrar toda a reciprocidade no ato e pela forma como segurava o rosto dela contra o seu como se fosse a oitava maravilha do mundo. E, também, em como seu outro braço serpenteou a cintura dela, trazendo-a para mais perto. E em como poderia ficar ali por horas que nunca se cansaria. As carícias na pele, a respiração ofegante, a apreciação do gosto amargo de vinho, os lábios levemente pousados sob os dela… Todas as pequenas coisas. Cada ato que fazia sem notar. Se apreciados, eram a prova de que Rain Miller, de fato, amava Desiree.
Se leva apenas um curioso segundo para descobrir um amor verdadeiro, e milhões de segundos no seu intervalo. Para uma pessoa tão sonhadora, positiva e apaixonada pela vida como Roy, o amor sempre foi uma verdade inexorável, e contos de fadas eram apenas adaptações fantasiosas da realidade já contagiante. Nunca duvidara que vivenciaria um sentimento avassalador, que aqueceria todo o corpo em arrepios deliciosos, faria suas bochechas avermelharem com a simples menção do nome que virava música para seus ouvidos e a impediria de passar qualquer momento que fosse do dia-a-dia sem um sorriso bobo plantado de orelha á orelha. No entanto, apostaria todas as suas fichas que este presente não viria com tão pouca idade e muito menos da maneira que veio.
Já havia um tempo que guardava em si o seu maior segredo, pois sabia que não podia, e muito menos acreditava querer ter qualquer tipo de atração por Rain Miller, quiçá sentimentos fortes. Pouco lhe importava quem era a vítima escolhida no momento para enroscar os dedos no seu emaranhado topete de cabelos macios, ou quem tinha o prazer de morder seu lábio inferior, tão vermelho e carnudo, à medida que ele soprava o conhecido hálito mentolado na tentativa de recuperar o fôlego. Não era como se buscasse saber quem tateava todo o seu corpo curvilíneo e arranhava a tez sedosa que cobria seu ser, ou quem escutava ele clamar seu nome enquanto se desmanchava num prazer que deixava claro o quão importante aquela pessoa seria para ele durante o tempo em que estivessem juntos. Tampouco esperava ser essas garotas. Exceto que, depois de muito negar a si mesma, esperava ser “a” garota.
Por ter sido criada numa casa muito humilde, com família grande em número, simplicidade e carinho, Desiree condizia bem à tipologia de donzela indefesa que se derretia por qualquer príncipe que a salvasse do perigo. Qualquer, repito. Inclusive, durante seu crescimento tivera alguns breves exemplos disso - exemplos até mais respeitosos, era impossível negar, mas nada conseguia arrancar de sua mente o pensamento daquela fatídica noite de lua cheia que tanto se distanciava do conceito de grupo do “qualquer”, e se aproximava da singularidade que era Rain Miller. Se fechasse seus olhos conseguia ver o sangue quente dele escorrendo pelos punhos cerrados de seu pai, e caindo no chão ao passo que ele soltava grandes gemidos de dor sempre que era possível, mostrando que seu sacrifício não era salvar a donzela do perigo alheio, mas do seu próprio, que mal revidava os socos, por mais que se soubesse que a força para uma mínima resposta ele possuía. Deixou que tudo ocorresse da forma como o pai de Desiree preferia por não querer que ela o visse como perigo, e sim como salvação. Era ai que ele fugia da normalidade e provava pela milionésima vez que não era necessário um cavalo branco para que um príncipe fizesse sua entrada triunfal.
Qualquer um que escutasse aquela história diria que a dor havia sido mais forte para Rain, mas pouco sabiam que enquanto Roy o observava ser espancado, aos berros, as lágrimas que escorriam por seu rosto não eram provenientes apenas da violência que presenciava, mas sim da sensação devastadora de ter um coração despedaçado. O simples fato de sequer cogitar a morte daquele garoto a faziam perder o ar. Ele não poderia morrer antes que ela pudesse caçoa-lo mais, julga-lo mais, denegri-lo mais. Ama-lo mais. Sim, porque enquanto jazia sentada sobre o asfalto gelado de sua rua, com os ouvidos domados por um zumbido que não parecia ir embora a qualquer momento próximo, sem Rain, que já havia sido levado para o hospital, sentiu todo o ar escapar de seus pulmões, e todo o vocabulário que sempre aprendia avidamente escapar de sua mente. Mal sabia seu nome, ou onde estava, e enquanto se esforçava ao máximo para pensar em mais coisas desagradáveis que tanto adorava fazer com Rain, percebia que todas elas se tornavam prazeirosas pelo simples fato de serem ligadas à ele. Não queria maltrata-lo como vira naquela noite. Queria ama-lo, por mais doloroso que pudesse ser. E caso sua recuperação não tivesse sido tão demorada quanto fora, jamais teria tido tempo de digerir a informação.
Aquela não era a primeira, segunda, sequer terceira vez que Desiree se via aos beijos com Rain, mas talvez por encarar a sinceridade como algo extremamente sensual, sentia que não existia nenhum outro ser vivo no mundo, apenas eles dois. Finalmente deixara tudo escapar, e fora surpreendida não por um desvio ou uma escapatória criativa, mas sim uma curta concordância que a deixara dormente. Suas faculdades mentais estavam embriagadas sim, porém com a vontade que há tanto tempo tomava conta de seu corpo e agora finalmente fora posta em prática de uma vez. Despejava beijos por todo o pescoço de sua companhia, inalando seu cheiro como se fosse uma droga, e ela sua dependente. Foi sob o efeito desta que se pôs de pé, com a mais plena certeza do que estava fazendo e o puxou pela mão, com os dedos entrelaçados nos seus para o seu quarto no segundo andar. Pouco sabia o que resultaria daquela noite, apenas sabia que não podia viver mais um segundo sequer sem ter Rain dentro de si de uma vez por todas, fosse no sentido figurativo ou subjetivo.









