Vejo primeiro
as gotas rastejando lentamente, quase cansadas.
Elas descem em filas pelas curvas da minha cintura.
Uma para.
Mas a seguinte chega batendo
e a empurra para baixo
rapidamente.
Vejo gotas contornando as linhas das minhas banhinhas que me irritam tanto,
aquelas que tento esconder na praia.
Nas minhas banhinhas que já foram apertadas por amores brincalhões,
feitas de aparelho imitador de pum na minha infância,
odiadas por minha insegurança.
Vejo gotas contornando minha cintura;
minha cintura uma vez marcada por um corselete roubado de minha mãe.
Sigo as gotas mais a frente.
Elas descem pela minha perna, pelo meu joelho.
Paro novamente.
Meu joelho de marcas,
de cicatrizes,
de momentos.
Quantos tombos,
quantas rezas,
quantos choques esse joelho aguentou?
Sigo em frente, sem responder a pergunta.
A deixo no ar.
Meu pé.
Aqui paro e dou-lhe mais da minha atenção.
Oras, mereceu não?
Me aguenta todo dia, o dia inteiro.
As gotas caem dele sem dar-lhe um segundo sequer de sua atenção.
Não o veem como vejo.
Meu pé já correu para alcançar muita coisa,
já pulou a muito som de Rock,
já chorou com muito salto desconfortável,
já chutou bolas (de futebol)
(e também não de futebol).
Meu pé já viveu, merece descansar.
Deixo-lhe em paz.
Passo minhas mãos pelos meus cabelos.
Estão pesados:
de agua,
de ideias,
de memorias.
Meus pensamentos parecem transbordar pelos meus fios, e com eles
agora molhados sinto o peso de cada sinapse já feita em minha cabeça.
Relembro alguns,
procuro esquecer outros.
Vamos a minhas mãos.
Aqui as gotas se prendem.
Aqui varias coisas se prendem.
Já agarrei com minhas mãos,
já fui agarrada por elas.
Já foram ásperas,
já acariciaram com toques suaves.
Já bateram,
já se arrependeram.
Minhas mãos tem linhas, muitas,
e cada uma conta uma historia.
Vejo as gotas passarem por cima delas
e imagino cada historia sendo recontada,
revivida.
Uma imensidão de linhas. Cada historia...
Subo minhas mãos pelos meus braços
em um abraço invisível.
Subo-as até meus ombros.
Ah, esses também já viveram.
Voltarei a eles depois,
agora sinto as gotas pesadas,
várias,
a caírem em minhas costas.
Caem com peso,
mas pouco sinto.
Minhas costas as seguram.
Assim como seguraram outros pesos que caíram sobre elas.
Elas batalharam todo dia para aguentar, para me manter seguindo em frente, para erguer minha cabeça.
“Vá, eu aguento por você”.
Esta é a frase das minhas costas.
Volto aos meus ombros.
Aqui as gotas batem e se vão para todos os lados.
Assim como meus ombros.
Ai como sofreu.
Estirado por um puxão,
desgastado por um esporte,
deslocado por uma queda.
Deslocado por uma queda...
Meu coração já foi deslocado por uma queda...
Mas aqui não sinto as gotas,
hei de não pensar nessa queda.
Penso então no meu peito, deste sim vejo as gotas pingarem de seu bico.
É, mas aqui a queda já esteve também,
um dia tocando-o com seus lábios...
Ora, por que fui pensar nessa queda,
que deixou sua marca em todo meu corpo?
Olho para cima e tento abrir os olhos na direção da vinda infinita de gotas.
Não consigo,
elas machucam meus olhos.
Engraçado não?
Estas gotas
que parecem acariciar
também podem causar dor...
Fecho os olhos
e sinto as gotas por cima de minhas pálpebras.
Agora hesitante,
já sabendo das dores que elas podem causar.
Será que conseguirei um dia voltar a sentir as gotas,
a confiar nelas?
Por Deus, nem passei shampoo ainda.