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KATSUSHIKA HOKUSAI 葛飾 北斎 // A WOMAN GHOST APPEARED FROM A WELL
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Acho que nunca dormi tão colado em ti.
Quando o cinza entrou no quarto parecia
que a simbiose tinha se concretizado,
que as nossas fronteiras
eram tão imaginárias quanto o tempo, e
que tudo era tão simples quanto
cantar Céline Dion e beber uma ceva
no caminho.
Quando o cinza entrou no quarto
O frio entrou pela janela
e tu saiu da cama, com medo
de cruzar com alguém da minha família,
e com medo de que a água do chuveiro
queimado te despertasse demais.
Quando o cinza entrou no quarto
eu te puxei pra perto: não vai.
não vai, fica.
fica.
Ou me dobra dentro da tua mala,
me coloca enrolado na tua roupa suja,
que nem a maconha que a gente trouxe
do Rio, lembra? Eu prometo que
não faço nenhum barulho.
É só deixar um buraco pra que eu possa respirar.
Se no aeroporto alguém perguntar, diz
que é um projeto artístico!
Fala alguma coisa em francês, interpreta alguém.
Mente bem na cara deles. Mas me
deixa ir contigo. Não me deixa ficar
aqui nessa espera, não me deixa viver cada
tempo de limbo transformando pixel em afeto,
criando cada representação pífia de uma interação
que antes era viva, mas que agora
vive dos passados projetados
através das ondas.
Não quero que as nossas mediações se tornem apenas
um fluxo de caracteres vazios,
representações das
representações dos nossos desejos.
Não quero passar meus dias rolando páginas,
buscando frames de atenção quando é
o teu toque que me falta.
Não é tua luz ou tua cara,
é a tua pele. Teu cheiro.
É acordar e desligar o despertador mesmo
sabendo que a depressão não desperta.
Qual sentido teria tudo isso?
Sou péssimo com fins.
Também sou péssimo com começos,
mas isso não vêm ao caso. Não são as bordas que
fazem o percurso mas sim a geografia que se deposita nele.
O que importa aqui é que o dia amanheceu cinza,
os nossos planos se arruinaram e mesmo assim
eu ainda quero andar na chuva
Eu fico aqui, soterrado nessa realidade,
pensando que não é só o céu que despenca lá fora,
mas tudo o que há em mim.
Te puxei pra perto na tentativa de calçar
aquele tempo em espaço.
Como que não tenho nenhum filme?
Já basta, de abstrato, o amor.
Já basta todo o líquido de nós mesmos:
eu te quero inteiro, quebradiço.
Te quero no nosso tempo.
A água que jorrava lá fora arrastava a cidade às cinzas.
O cinza entrava pela janela e o frio lembrava a Europa.
A porta bateu com o vento e com ele
me esvaziei.
Blam.
Como o band-aid que se puxa inteiro,
arranca a pele, mas dói uma vez,
só.
Não se prolonga como a gente vem prolongando esse adeus.
Sabe, o problema não é a despedida, mas os dias
de espera. O tempo.
Quando te vi pela primeira vez naquela praia
eu não fazia ideia de quanto tempo
aquele tempo seria.
Era como uma película, furada em cada
rachadura de nossas vidas, transpassada
por cada pedacinho teu. Eu não lembro da
primeira vez que eu te olhei porque naquele momento
eu não era nem meu corpo.
Mas eu lembro do primeiro momento em que te vi.
A água batendo nas pedras e tu tirando a calça.
A areia que entrava no ouvido.
Tentei te fotografar mas o filme tinha acabado na máquina.
Só sobrou o momento, etéreo como o suor
do Reveillon que se desmancha na água do mar.
Bati uma foto com a mente.
Te guardei comigo pra sempre dentro da minha
carteira simbólica, afastado de todas as
memórias confusas
que a gente insiste em misturar com
o que sonha.
Adiantaram teu vôo em meia hora,
querem roer o que há em
nós.
O avião pode decolar até 15 minutos antes
do horário marcado.
Querem roer o que será de
nós.
Quando o cinza entrou no quarto
eu sabia que seria um fim.
E mesmo sabendo que os fins são começos
e que nada é mais pedra do que o tempo,
o olho jorra em mar, mas não despende nas
barreiras do que posso ver.
Tu entrou no portão e eu te abanei. 8 meses
é o mínimo, dizem os melhores videntes.
O aeroporto vazio. A sala de embarque que
me sugava com uma potência dementadora.
O beijo, que pisca na memória.
A lágrima, seca, que escorre pra dentro.
O clichê da chuva vinha só pra deixar Porto Alegre detestável.