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by maurizio nannucci (+)
Carta (Esboço)
Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo, num sítio em que ambos nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir no que temos para nos dizer. Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser, até, um lugar sem nada de especial, como um canto de café, em frente de um espelho que poderia servir de pretexto para reflectir a alma, a impressão da tarde, o último estertor do dia antes de nos despedirmos, quando é preciso encontrar uma fórmula que disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É que o amor nem sempre é uma palavra de uso, aquela que permite a passagem à comunicação mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio ser, como se uma troca de almas fosse possível neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que é também a mais absurda, de um sentimento; e, por trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros. Nuno Júdice
é apenas a forma que tens de me olhar, sem que eu dê por isso, como se entre mim e ti o espaço não contasse; ou é o risco no cabelo, antes de chegar à trança, indicando o caminho para o sonho em que nos abraçamos; ou é o teu sorriso, num esboço de algo que se perdeu entre um e outro café, por entre perguntas e conversas; ou é o fundo dos teus olhos em que adivinho a noite, e tu me dizes que o dia está para nascer; ou são as tuas pálpebras, em que me escondes a inquietação com que fechas os olhos, quando as certezas do coração te ferem; ou és tu, no puro instante em que te vejo, e só tu existes.
Nuno Júdice
Aqui ficam as coisas. Amar é a mais alta constelação. Os sapatos sem dono tripulando na correnteza-espaço em que deitamos. As minhas mãos telhado no teu rosto de pombas. Os corpos circulando na varanda dos braços. É a mais alta constelação. Carlos Nejar
Se as mãos pudessem (as tuas, as minhas) rasgar o nevoeiro, entrar na luz a prumo. Se a voz viesse. Não uma qualquer: a tua, e na manhã voasse. E de júbilo cantasse. Com as tuas mãos, e as minhas, pudesse entrar no azul, qualquer azul: o do mar, o do céu, o da rasteirinha canção de água corrente. E com elas subisse. (A ave, as mãos, a voz.) E fossem chama. Quase.
Eugénio de Andrade
Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.
Eugénio de Andrade
Devias estar aqui rente aos meus lábios para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um. - Eu vi a terra limpa no teu rosto, Só no teu rosto e nunca em mais nenhum.
Eugénio de Andrade
Procura a maravilha. Onde um beijo sabe a barcos e bruma.
No brilho redondo e jovem dos joelhos. Na noite inclinada de melancolia. Procura. Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade
When you are old (1893)
When you are old and grey and full of sleep, And nodding by the fire, take down this book, And slowly read, and dream of the soft look Your eyes had once, and of their shadows deep; How many loved your moments of glad grace, And loved your beauty with love false or true, But one man loved the pilgrim soul in you, And loved the sorrows of your changing face; And bending down beside the glowing bars, Murmur, a little sadly, how Love fled And paced upon the mountains overhead And hid his face amid a crowd of stars.
W. B. Yeats
~**~
Quando fores velha
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono, Dormitando junto à lareira, toma este livro, Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas; Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto, Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor, Mas apenas um homem amou tua alma peregrina, E amou as mágoas do teu rosto que mudava; Inclinada sobre o ferro incandescente, Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou E em largos passos galgou as montanhas Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.
(trad. José Agostinho Baptista)
É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós.
Jorge Sousa Braga
Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos E quero cair em desuso Fundir-me completamente. Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo Os focos celestes que a candeia humana não iguala Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer. Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te Voltado para mim Inclinado como a criança que quer voltar ao chão. Daniel Faria
Atei uma ligadura ao mundo.
às vezes, afastando-nos, do cume
dos nossos corações sentíamos
o mar estalar a toda a nossa volta
Luís Miguel Nava
Céu
Quando um dia tudo for imóvel, sem frémito ou inquietação demorada,
sem movimento ou luz que arrepie a superfície de cada coisa, quando tudo
assim estiver entregue a um silêncio de pedra, e tu não fores senão
a memória gasta, delida dessa pedra, um fogo apagado há mil anos,
quando a quieta forma da tua vida for a sombra mais interior desse oco,
um despertar de flor surgirá no amplo céu do nada.
Luís Quintais
O solitário
Não: uma torre se erguerá do fundo do coração e eu estarei à borda: onde não há mais nada, ainda acorda o indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar das coisas, e uma luz depois do escuro, um rosto extremo do desejo obscuro exilado em um nunca-apaziguar,
ainda um rosto de pedra, que só sente a gravidade interna, de tão denso: as distâncias que o extinguem lentamente tornam seu júbilo ainda mais intenso.
Rainer Maria Rilke
(trad. Augusto de Campos)
estende a tua mão contra a minha boca,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
*~*~
sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sopro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
Herberto Helder
Onde quer que esteja, em qualquer lugar
na Terra, escondo dos outros a certeza de
que n ã o s o u d a q u i.
Como se tivesse sido enviado para absorver
o máximo das cores, sons, cheiros, sabores,
provar de tudo o que é
reservado ao Homem, converter o vivido
num registo mágico e levá-lo para lá, de onde
parti.
Czesław Miłosz
(trd. de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves)
Amei-te sem Saberes
No avesso das palavras na contrária face da minha solidão eu te amei e acariciei o teu imperceptível crescer como carne da lua nos nocturnos lábios entreabertos E amei-te sem saberes amei-te sem o saber amando de te procurar amando de te inventar No contorno do fogo desenhei o teu rosto e para te reconhecer mudei de corpo troquei de noites juntei crepúsculo e alvorada Para me acostumar à tua intermitente ausência ensinei às timbilas a espera do silêncio
Mia Couto