À medida que progredia nos estudos e que se lhe alargava a visão do mundo, Eugênio sentia que, como um balão, ia subindo cada vez mais rumo das coisas superiores, deixando lá embaixo a família presa às suas necessidades elementares, aos seus solecismos, à sua absoluta ignorância, a uma vida que às vezes lhe parecia puramente vegetativa. Fortalecia-se nele a consciência da sua superioridade. Sentia-se muito melhor que o ambiente em que vivia e isso lhe dava a impressão de que era vítima duma enorme injustiça: abria-lhe os olhos para as desigualdades do mundo, amargurava-lhe a existência e aumentava-lhe, por outro lado, o desejo de lutar para fugir à condição de pobreza e anonimato. Mas do mais profundo do ser às vezes lhe brotava uma misteriosa luz que, no fugitivo instante em que brilhava, lhe mostrava a outra face das coisas. Ele então compreendia num relance a enormidade do seu orgulho, o absurdo de sua vaidade, a fealdade de seu egoísmo. Um homem superior, ele? Como? Por quê? Que fizera de extraordinário? Tinha na cabeça meia dúzia de noções ainda confusas. Lera aferventadamente meia dúzia de livros famosos... Que era isso comparado com a luta silenciosa dos pais? Que era isso diante dos verdadeiros grandes homens da humanidade? Ele devia ser humilde, compassivo, tolerante...









