“E os namoradinhos?” pergunta aquela tia chata nos jantares de família. Surge então um silêncio e penso comigo, a mesma coisa de sempre, enquanto respondo sem exaltar “continuo sozinha”. Todos na mesa se entreolham e devem estar se perguntando nesse exato momento qual o meu problema, já que há muito tempo permaneço assim. O que eles não sabem é que é uma escolha, embora a solidão seja um mar calmo e agitado quase sempre, temos que saber equilibrar o barco para não acabar nos afundando. Eu escolhi ser assim, é um estado de espírito que na maioria das vezes me acalma mas me atormenta na mesma medida. Assim como é bom não ter alguém e se sentir livre como um pássaro, é atormentador sermos escravos da própria solidão. É aí que mora o perigo. Na acomodação. Estamos tão acomodados com nós mesmos que não procuramos mudar isso. “Você precisa de um psicólogo” diz meu pai, “ou você arruma alguém logo ou vai acabar uma velha solteirona” diz minha mãe. E assim acabamos sendo obrigados a sair dessa situação. A sociedade diz que você nasce, cresce, tem que constituir uma família e morrer. Será que a vida se resume à isso mesmo? Tanta coisa pra ser vivida, tantos lugares para serem conhecidos, não quero acabar numa poltrona numa tarde de domingo fazendo crochê. O que eu quero mesmo é colocar uma mochila nas costas e sair pelo mundo afora. E se eu não quiser casar? Se não quiser ter filhos? Qual o problema? A liberdade também é um belo par para se viver. Pena que ninguém enxerga isso.
Clara Carvalho (via clarear-te)









