Entrou pela porta estreita na sala escura. O vidro da porta estava bloqueado com algo que parecia madeira. O vidro estava lá, imprestável, já que o pedaço de madeira escura não deixava sequer uma fresta de um milímetro para que atravessasse qualquer raio de luz.
A porta, apesar de estreita, era pesada e grossa. Provavelmente à prova de som. Um braço mecânico instalado no alto da porta garantia que ela ficasse aberta o mínimo de tempo possível.
A expressão das pessoas do lado de fora, esperando cada uma a sua vez, permanecia sempre a mesma, ninguém parecia aliviado depois que quem entrava saia pela mesma porta, grossa, opaca e estreita.
Ninguém reclamava. O único movimento de gente era da passagem de pessoas uniformizadas pelo corredor. Iam e viam, apressadas e com uma prancheta nas mãos, como se as pessoas sentadas ali não existissem. Todos com a mesma expressão de espera.
Não havia um relógio sequer na sala de espera. Aparentemente o tempo passava mais devagar naquele lugar. É como se o ar anestesiasse as pessoas e anestesiasse o tempo. Ele não sentia que tinha que correr e as pessoas não sentiam que ele passava. Era quase um encanto.
Na sala, uma penumbra. Uma cadeira, uma mesa, uma luminária no canto. Um sofá confortável fazia com que não fosse necessário o convite. Era automático. Entrava-se e sentava-se. Cinco segundos depois, quem sentava, já sem sentir, escorava-se no encosto e relaxava.
A voz grave que vinha da penumbra dizia:
- O que fez você me procurar?
Essa pergunta encontrava sempre ouvidos atentos, mas nem todos tinham uma resposta pronta, na ponta da língua. Muitos divagavam, outros entravam em prantos, ou simplesmente se calavam. Esse primeiro contato nem sempre era fácil.
A penumbra era quase fria. A luz amarela no canto da sala não conseguia atravessar a escuridão. Ela ia se desfazendo. Amarela, verde, azul, cinza e preto. Um arco-íris de cinco cores. Era difícil saber o tamanho da sala. Pelo eco da voz, aparentemente se estava num dos cantos, não dava para dizer em qual. Mas será que ela tinha outras portas ou a voz entrava ali, pela mesma porta de quem estava esperando, e saia com a última pessoa do dia?
A pergunta ecoava na cabeça de quem estava sentado no sofá do mesmo jeito que ecoava no canto da sala.
- O que fez você me procurar?
- Eu preciso de uma resposta.
A segunda pergunta era ainda mais difícil. O tempo, depois da porta estreita, corria. Era como se ele morasse ali e não gostasse de ficar em casa. O relógio na mesa, iluminado pela penumbra e com os ponteiros fluorescentes, corria. Tic-tac frenético.
A voz não se alterava. Fosse o tempo que fosse, era sempre a mesma. Amena, anestesiada e opaca, como a madeira que impede que a luz de fora entre na sala. Imóvel. Parecia que a voz era forjada ali, como se tivesse nascido naquele lugar e nunca saído. Aparentemente conhecia a todos.
Será que conhecia mesmo ou sabia apenas o que lhe contavam sentados naquele sofá?
- Acredito que quem deva fazer as perguntas aqui é você.
- De que adianta se você não souber as respostas?
- Eu não acho que esteja bem e preciso de ajuda.
- Por que você acha que não está bem, aparentemente não há nada de errado com você. Você viu os outros lá fora?
- Por que você acha que é pior do que eles?
- Do que eles não, eles parecem ser todos iguais. Mas do que as pessoas ao meu redor. Elas parecem ser todas...
Nesse momento a penumbra se moveu e deu para perceber que a voz usava uns óculos grandes e grossos, aparentemente dourados.
- Posso dizer para você que nunca vi ninguém perfeito entrar por essa porta.
- E eu não conheço outra pessoa que não seja eu e as pessoas lá fora entrarem aqui.
- Então você acha que o problema é a porta?
- Eu acho que o problema é que as pessoas além da ante-sala sequer se perguntam se há imperfeição nelas mesmas.
- A velha história de a ignorância ser uma benção?
- Vamos supor que eu lhe entregasse um mapa.
- Esse mapa mostra tudo o que você já conhece e traz detalhes, todas as ruas que você já passou estão nele. Todos os lugares, endereços, pessoas, tudo descrito no mapa. Você pode voltar para qualquer lugar em que já esteve e não lembra mais sem se perder.
- O mapa não mostra nada além do que o que você já conhece, mas não deixa de mostrar nada do que você já tenha visto. Mas tem um porém.
- O mapa deixa bem claro que há coisas nele que não foram descritas. Ele diz, em todos os limites daquilo que você já conhece, que há algo além disso. E diz, ainda, que o que não está descrito é bem maior do que o que está lá, descrito minuciosamente. O que você faria?
A pergunta ecoava pela sala e pela mente de quem estava sentado no sofá como se naquele momento o mapa fosse desenhado na frente dela. Cada palavra dita pela voz era um traço de tinta numa folha, desenhando um mapa gigantesco.
- Acredito que eu tentaria completar o mapa com as coisas que eu não conheço.
- Mas por que, se o que você já conhece é suficiente para você viver bem?
- Me parece a coisa certa a ser feita.
- Algumas pessoas não se importam em completar o mapa. Por isso que você é diferente das outras.
A voz se levantou e passou a caminhar por trás da cadeira e da mesa, ainda mais distante da luz.
- A maioria das pessoas não se importa em completar o mapa e vive eternamente naquilo que já conhece. Outras se enganam. Acham que estão completando o mapa, passam a tocar apenas os limites do conhecido, todavia nunca se aprofundam em nenhuma das direções.
- O certo é escolher um rumo e entrar com tudo nele?
- O certo? Pode ser o certo para você. Só estou dizendo que a maioria das pessoas vive assim. Umas vivem no conhecido, outras vivem tocando a fronteiras, mas não se aprofundam, e outras não param de desbravar cada direção até encontrar um beco sem saída e voltar. Ou um novo horizonte para desbravar, duplicando, triplicando ou quadruplicando o mapa. Você parece ser uma dessas.
- Agora você sabe qual tipo de pessoa você é, eu, no seu caso, usaria a vontade de ampliar o mapa enquanto o seu corpo e a sua mente ainda a podem acompanhar.
- Que tipo de pessoa você é?
- Eu sou das que entrega o mapa na mão, aponta uma direção e empresta uma lanterna pros desbravadores.
O sofá começou a o rejeitar, levantou-se, abriu a porta. O próximo entrou.