Se pudesse o luminoso abriria um buraco e se enfiaria no mesmo o mais fundo que pudesse, apenas para não ter que ver Fallon olhá-lo daquele modo, como se fosse um estranho. Desviou o olhar, sentindo-se impotente, sabia que ainda carregava em seu peito o mesmo sentimento de anos atrás pela alada, mas não sabia como, ou se poderia dizer tal em voz alta, afinal não queria ferir a outra mais do que já havia feito. - Quatro anos. - Nikai sussurrou, sem conseguir olhá-la, havia feito besteira quando matara o outro feérico, que agora estava parado ao seu lado, rindo de sua inanição diante da ex namorada, mas que apenas ele podia ver já que era sua maldição. - Fallon eu queria pedir perdão. - Kai deixou aquilo sair por mais difícil que fosse para alguém tão orgulhoso quanto ele aquelas palavras saírem. - Me perdoe por ter ido embora quando tudo que eu queria era continuar ao seu lado, me perdoe por não pensar no que você queria quando terminei tudo, me perdoe por não dizer o que eu sentia por você tanto quanto você merecia e… Me perdoe por não te dizer que eu estava indo embora, que eu estava terminando porque eu matei o Ahern e você não merecia namorar um assassino. - Sussurrou por fim e desviou o olhar mordendo o lábio inferior. - Só não me odeie por favor, eu não conseguiria lidar com isso. - Terminou de falar por fim sentindo o peito pesar, tinha medo que ela o odiasse, tanto quanto tinha de que Lyra o odiasse, ele não tinha muitas pessoas com quem se importava de verdade, mas Fallon com certeza entrava na lista. - Você é boa demais pra mim, sempre foi, mas quando eu matei o Ahern eu não podia colocar esse fardo sobre os seus ombros, então eu terminei tudo sem sequer te explicar direito e eu sinto muito por isso, sinto muito se eu te machuquei. - Havia ensaiado discursos muito melhores que aquele, mas no momento esperava que suas palavras sinceras valessem mais do que as falas eloquentes ensaiadas frente ao espelho da casa vazia onde ficara por quatro anos.
Por seu desconforto, Fallon não sabia exatamente como tratá-lo. Usar da intimidade que uma vez compartilharam parecia errado, até porque Kai estava tão mudado quanto ela. Não que a alada tivesse se transformado de maneira significativa; ela gostava demais de sua zona segura para mudar radicalmente, ou rebelar-se. Era uma boa filha, apesar de tudo — não tão perfeita quanto Layla, mas ainda assim. E mesmo que Nikai estivesse diferente, ela quase não podia conter a necessidade de tocar seu rosto para se certificar de que era real, experimentando a sensação dos pelos castanhos que agora cobriam seu queixo. Porém, sabia que já não tinha esse direito, de modo que as mãos foram mantidas firmemente às costas. “E eu que achei que ninguém estava contando...” — um riso nervoso se seguiu à fala, e Fallon coçou o nariz para disfarçar, revirando os olhos por sua própria idiotice. Os olhos castanhos se arregalaram, no entanto, diante da palavra perdão, como se não fosse com ela. Se o luminoso queria captar sua atenção, ele havia finalmente conseguido, porque não havia nada que a Salvaterre desejasse mais do que ouvir aquelas palavras — quem sabe, perder as asas, mas isso era outra história, bem mais triste e talvez inalcançável. Parecia haver alguma dificuldade da parte do outro em dizer aquilo, e a morena arriscou dar um passo mais a frente, de onde poderia ouvir melhor — ou era isso que dizia para si mesma. Podia dizer que estava bastante surpresa com o que havia acabado de ouvir, e chegou a pensar que tivesse ouvido errado. Ela nunca havia escutado aquelas coisas da boca do Aehorn, e nunca, em toda a sua existência, imaginou que o término tivesse a ver com… um assassinato? Parecia demais para digerir. “V-você matou uma pessoa?” — franziu o cenho ao proferir a pergunta, os olhos encarando o chão na tentativa de pensar claramente. Ele sumira por quatro anos sem que ela soubesse onde estava; agora, as coisas começavam a fazer sentido. Fallon só podia pensar que era, possivelmente, a única pessoa que não sabia daquilo. “E quem é Ahern?” — uma pitada de desespero preenchia seu tom. Falar de uma pessoa morta parecia mais seguro do que falar sobre os sentimentos que foram destruídos com o término. Pensar que ele desejara permanecer em seu lado era desconcertante, e a alada levou a destra à testa, mantendo a respiração estável. “Eu não te odeio, Nik”, disse suavemente, finalmente olhando para ele. “Não poderia” — mesmo depois de tudo que passara por sua cabeça após ser abandonada pelo elfo; enfrentar todo o drama pessoal sozinha também não era fácil, mas não era egoísta para exigir que ele ficasse ao seu lado para sempre. “O que está dizendo?” — negou com a cabeça, deixando-se finalmente parar diante dele, segurando seu rosto para que olhasse em seus olhos e visse o quanto estava sendo sincera. “Não seria fardo algum para mim. E-eu poderia ter ficado ao seu lado...” — começou, sentindo um bolo na garganta. Não iria chorar na frente do ex-namorado, entretanto. Não era daquela forma que queria que a visse. “Está tudo bem agora” — engoliu em seco, olhando para baixo, não querendo confirmar que ele, de fato, havia a machucado. “Não há nada para ser perdoado” — abriu um sorriso sem jeito, pendendo um pouco a cabeça para o lado — “Podemos ser amigos. Eu ficaria feliz em ser sua amiga”, emendou, na esperança de que isso consertasse as coisas.