16 de outubro
Se eu pudesse te reteria inteira nas mãos. Agarraria tua fugacidade, atritando a matéria que te compõe em cada palma áspera, para que de ti só restasse o pó. Depois sopraria a vaga lembrança do que fostes vida a fora e contemplaria feliz a certeza de que já não podes ir de encontro à minha carne. Em júbilo, encararia a verdade da tua ausência em mim, e em meu corpo uma nova fenda se abriria, ávida pelo encontro com o talvez da coisa. E eu me contentaria com isso. Mas o que ocorre neste instante é o revés: meu corpo hirto sob os teus domínios. Estás em toda parte. Hoje todas as crianças gritam e eu não posso dormir. O vento se dobra ao mau tempo, fazendo portas sucumbirem ao mais bruto ar que invade o espaço. Meus gatos vagam sem norte, agourando em miados altos cada quina da casa, à procura de um motivo qualquer. Em cada cena vejo as tuas cores e confronto minha pequenidade, palavra nova cujo significado remonta ao sumo da pequenidão. Tu não cabes nas minha mãos, pois em ti caibo inteira.
— Bruna Cassiano










