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Oi...
Veio pra cá por causa da convocação do Blue?
Tango.
Nicholas se encontrava em um bar pequeno e boêmio de Ashgates, cidade que havia nascido e tido um passado conturbado – que ele preferia não se lembrar. Estava cansado após um dia exaustivo de trabalho sendo advogado e também ajudante para pessoas que pensavam em suicídio, e aquele bar onde estava lhe oferecia um ambiente mais calmo e aconchegante. Mas não o entenda mal, ele gostava, e muito, do trabalho. Era a primeira vez que tinha ido ali, e ele teve a sensação de que os clientes eram bem fiéis porque olhavam para ele com uma expressão de estranhamento. “Hum, devo ser carne nova no pedaço”, pensou consigo mesmo. “Mas provavelmente sabem meu nome.” Nick sabia que era muito conhecido por todos na cidade. Ou pelo menos 98% da população. O ambiente era todo feito de madeira, que dava a ele um ar rústico, quase medieval. Tinha uma lareira onde só se via um punhado de cinzas – que provavelmente estavam lá há tempos -, o que fez Nicholas se perguntar no motivo daquilo estar ali se não usavam. Enfeite, talvez? Caras com bigodes e outros carecas e outros carecas e com bigodes formavam a maioria dos homens que estavam ali, e ele não se encaixava em nenhum dos padrões. Adentrou o ambiente assim mesmo, quase sem olhar para as laterais e evitar o constrangimento. Introspectivo, apesar de tudo. Sentou-se em uma daquelas cadeiras altas – que por sinal também eram de madeira – e apoiou as mãos sobre o balcão. A iluminação era amarelada e escassa, o que deixava o ambiente meio escuro. Ele gostava. - Oi, tudo bem? De onde você é? Você é um moço muito bonito, o que vai querer, bonitão? – disse a balconista virando-se para ele. Ela usava uma roupa sensual, provavelmente era regra em bares boêmios pois todas as atendentes estavam com o mesmo tipo de vestimenta. Fora elas, as outras mulheres que tinham ali eram clientes, mas eram muito poucas. Mas, ao ver de Nicholas, pelo menos se vestiam adequadamente. Ele arqueou uma sobrancelha. - Moça, me traga uma dose grande de uísque – ele pediu, evidentemente tentando ignorar o que a garçonete tinha falado, em um tom gentil, pois ele era assim, mas obviamente irritado. Ele não gostava disso de ser cortejado. E também não gostava de mulheres dessa forma. Ele achou engraçado porque o povo ali parecia viver em outra cidade, aparentemente ninguém o conhecia. “Espera... Talvez só tenham ouvido falar em meu nome mas não conheçam meu rosto.” Bem capaz. E Nick preferiu assim. Às vezes, não gostava de todo o reconhecimento. Sentia-se observado e exposto. Afinal, aquele não era o tipo de lugar que ele frequentava. Era a primeira vez ali. E, normalmente, quem ia ali era só “gente estranha”. Como se fosse uma parte separada de Ashgates. A atendente foi, de má vontade e obviamente com raiva da resposta dele. Mas, ele não se importava. Ele detestava quem chegava nele já com intimidades. Se quisesse conversar com ele, tinha que chegar com calma. No pequeno palco que havia no centro daquele bar, subiram cinco rapazes com roupas características boêmias, e uma voz em um microfone alertou que estava para começar um show cultural, típico de todas as sextas-feiras ali. Após isso, cinco mulheres também entraram, cada uma para fazer par com os que já estavam ali em cima. Nicholas focou em um dos rapazes: cabelos castanho claros, olhos azuis, uma barba uniforme e bem aparada, maxilar definido... E após alguns minutos, ele percebeu que o moço dançava muito bem. Nick deu um gole no copo de uísque, que inclusive estava muito bom. Ele só torceu para que a garçonete não tivesse cuspido ali dentro. Depois outro gole. E então outro. A sensação de queimação subia do estômago até voltar na sua boca, fazendo seu hálito agora cheirar a álcool – e ele gostava. No entanto, não tirou os olhos do dançarino. Ele estava fazendo questão de ignorar os outros que estavam no palco. Nicholas viu-se excitado. A mistura da excitação com o efeito da bebida estava fazendo-o ficar louco. Seus pelos se eriçaram e uma pontada de adrenalina o atingiu. Bebeu todos os goles restantes, e saiu para o palco. O tema do dia para a festa cultural era América do Sul, e a música era tango – ele achava extremamente sexy. Pegou a flor da boca do par do dançarino bonito e colocou na sua própria. Pegou na mão dele com sua mão direita e na cintura com a direita, e do nada estava dançando elegantemente e estavam sincronizados. Como se Nick tivesse treinado por semanas. Dançaram por cinco minutos, e todos do bar olhavam atentamente a eles. Os outros dançarinos os deram licença, o palco era só deles. No final, Nicholas o deu um beijo, o rapaz retribuiu e... ...E Nicholas olhou para o copo vazio em sua mão, estava excitado, a dança continuava normalmente, a garçonete ainda o olhava de mau jeito e ele só tinha imaginado tudo aquilo. “Eu nunca faria isso”, pensou consigo mesmo, lembrando-se do horrível – ou pelo menos para aquele momento – fato de que era introspectivo. Estava, sim, com efeitos do álcool, mas ainda assim sentiu muita raiva. Olhou para o menu, a dose era 3 dólares. Deixou 10 no balcão, para pagar a dose e o copo de que estava prestes a quebrar... E o quebrou, jogando na parede de frustração. Ele normalmente não ficava com raiva, mas duas coisas o irritaram: o fato de que estava atraído pelo dançarino, já que ele não gostava nada disso, o que o fez pensar se um dia voltaria para aquele bar; e o fato de que não descobrira nada sobre o Blue Murderer nos últimos dias – e como isso o irritava, devido ao seu fascínio pelo assassino. Queria porque queria desmascará-lo. Provavelmente, era o cidadão mais focado nisso. Por conta da música e com a ajuda das luzes baixas, somente as pessoas próximas perceberam o que ele fez, não era nem a metade do bar. Ele saiu dali com passos grosseiros e raivosos, fechou a porta e pôs-se a voltar para casa a pé. Nas ruas escuras, iluminada apenas pela lua, quando Nicholas estava em um ponto que não havia mais ninguém fora de casa e nenhum estabelecimento comercial por perto e quase nenhuma luz acesa, ele viu uma sombra estranha. Parecia ter um capuz que lhe escondia o rosto, e uma grande faca, muito afiada, em mãos. Uma figura alta, ele não podia distinguir se era homem ou mulher. Nick pensou ser o efeito do álcool. Assustou-se, mas coçou os olhos e a figura havia sumido. Apesar de encucado, e pensando que era o Blue Murderer – coisa que alimentou mais sua vontade de investigar, e assim iria fazer em breve -, seguiu caminho, sozinho pelas ruas de Ashgates.
Thinking about Blue Muderer.
Day of Work.
#aloneindaoffice
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