Palavra - minha doce companheira
A palavra sempre me hipnotizou, com sua ciranda desconcertante, vibrante.
Posto isto, comecei a lembrar-me daquela menina sentada no batente da porta, observando a avó, no desenvolver das tarefas domésticas, (avó esta, que não fora agraciada com o sagrado direito de ler), buscando na junção das consoantes com as vogais que, viriam a tomar corpo e transformar-se em palavras, a sua salvação individual. Era como se soubesse que a única salvação proviria dali e repetia freneticamente:
Um B com U = beubú... E assim consequentemente. A minha vó desesperada, gritava:
- Cuidado com o C, filha!
Não dava importância ao seu desespero. Soletrava com um tom de voz acima.
Passava horas a ensaiar tão doce cantiga. Era um mantra repetido, redito, reiterado e, cada vez que o reproduzia achava mais graça, mais beleza, na semântica que se desencadeava em vida.
E, todas essas palavras, despejadas sobre esta folha em branco, muitas delas carregadas de emoção, tem o intuito desesperado de dizer que preciso escrever pra não morrer, preciso me reencontrar no batente, não mais daquela porta, mas de novas portas, a procura da mesma lira que um dia me extasiou, buscando reconectar-me com aquela menina.
Escreverei para dividir as minhas impressões acerca da vida, as minhas experiências, as minhas expectativas, as minhas angústias, as minhas ilusões. Para derramar através das palavras – (o meu amor primeiro), a lágrima presa na garganta ou, o riso solto, frouxo, louco dos lábios.
Não esperem que despeje arrogância, achando que sou a oitava maravilha do mundo, estou aprendendo, aliás, estamos sempre aprendendo – que maravilha saber! Cada dia aprendo um pouco mais, graças a benevolência de alguns e algumas grandes, que desnudaram-se através da escrita e, graças também ao aprendizado empírico, que considero de grande valia. Obrigada, Flor, Virginia, Clarice, Carlos, José, Franz, Friedrich, Eça, Fernando, Ernest, Torquato, Marcel, e o meu mais querido, Mario. Assim mesmo, os chamando pelos nomes que, a princípio pode parecer prepotência, mas gosto de relações sem cerimônias. Mi casa es su casa!
Espero que, enlouquecendo e vivendo
Nos encontremos em demasia
Por aqui, por ali, por acolá
Com bastante sal, e muito açúcar.