Havia um lado seu que compreendia com destreza o que o mais novo dizia. Entendia de onde vinha e qual era a intenção da fala. No entanto, conflitava diretamente com o seu outro lado, aquele obcecado por quadribol e ávido não só pelas vitórias do time, mas pelo o que elas poderiam conquistá-lo a longo prazo. Para alguém que não sabia de onde vinha e menos ainda para onde estava indo, era importante demais ter algo a que se agarrar, especialmente naquele momento da vida onde tudo era uma grande incerteza e ele ainda não estava convencido que duraria muito depois de sua formatura, considerando a quantas andava o mundo. ━━ Mas algumas vezes não podemos deixar as coisas escaparem, só porque parece difícil. ━━ Devolveu, igualmente calmo. ━━ Não costumo ser ambicioso, mas dessa vez eu tenho uma ambição, Noah, e ela é grande. Eu quero a taça, quero meu nome na sala de troféus. E essa é minha única chance de conseguir isso, eh? Além do mais, meu time é formado por pessoas extremamente capazes de assumir essa responsabilidade, mas mesmo assim depositaram sua fé em mim desde o primeiro dia, sem hesitar, sabe? Não posso jogar tudo para o alto agora. Falta pouco, de todo jeito… ━━ Sabia que era estranho falar da taça de quadribol para um jogador de uma das equipes rivais, mas era a verdade e ele não fingiria que não estava ansioso pelo final da temporada, faminto pela taça de quadribol. Por questão de segundos, o mais velho quase se perdeu em seus próprios pensamentos, mas a voz do outro impediu-o de ir tão longe, cortando toda a preocupação ao fazê-lo rir mais uma vez. ━━ É uma das vantagens de já ser oficialmente adulto, sabe? Posso chamar todos de criança, me gabar porque posso beber álcool quando vou a Hogsmeade e que posso fazer magia fora da escola. Preciso aproveitar os poucos privilégios que vêm junto com a vida adulta, não é? ━━ Respondeu despreocupado. Crescer era horrível, de fato. Mas estava tentando se manter positivo a respeito da coisa toda. Por mais que acabasse se arrependendo de alguns dos comentários que soltava, de vez em quando a resposta a eles era tão satisfatória, tão divertida, que fazia tudo valer à pena. Como naquele momento, enquanto fazia questão de correr os olhos por toda a expressão de Sanghyeok, absorvendo sua reação. ━━ Estou só mexendo com você, entendi o que quis dizer. ━━ Avisou-o então, por entre uma nova risada.
A resposta estava na ponta da língua, mas Sorem refreou-se tão logo que passara recibo de algo na fala do outro. Não era nada demais para ele, mas ainda não passou despercebido: ━━ Você ficou mesmo bravo com isso. Não me chamou de “hyung” nem “ssi” dessa vez. ━━ Honestamente falando, o que podia entender das interjeições em outra língua feitas pelo corvino, muito provavelmente, era por instinto. Sabia que era algo em coreano que deveria saber, mas não fazia a menor ideia. ━━ Mas, qual é? Cruel seria eu prometer e não cumprir. ━━ Acrescentou, percebendo também como o outro apertava sua mão. Apesar de retribuir o gesto, não era na mesma intensidade. ━━ Eu também levo essas coisas a sério. A vassoura será sua, não vai precisar me caçar.
Particularmente, Sorem não se importava com nada daquilo. Não se importava com as brincadeiras e também não se importaria se fosse verdade. Há muito tempo que já estava em paz com sua consciência a respeito de sua sexualidade e que ela envolvia gostar de meninos da mesma maneira que gostava de meninas. Infelizmente, por mais avançado que o mundo estivesse, no alto de 1978, ainda não parecia avançado o bastante para que aquele tipo de brincadeira fosse feita livremente. Sorem já tinha cansado de ver garotos serem cruelmente importunados pelos cantos da escola por “serem pegos” se relacionando com outros garotos. E não queria que o mesmo acontecesse com Sanghyeok, por ventura. Por isso, era melhor mesmo esquecer tudo aquilo. Uma brincadeira inocente podia acabar custando muito. ━━ Passar vergonha seria a menor das suas preocupações. Melhor esquecer mesmo. ━━ Disse baixinho, incapaz de disfarçar o gosto amargo que enchia sua boca naquele momento. Considerando tudo o que passava em sua mente, vê-lo reagir positivamente ao seu carinho trazia um sentimento bom ao peito, junto com a certeza que o outro era adorável demais para o seu próprio bem. ━━ Sua família é toda coreana? Se for, pode dizer à sua mãe que você arranjou um amigo coreano que possivelmente nunca comeu comida coreana na vida. ━━ A verdade é que ele talvez já tenha comido, quando ainda vivia com seus pais biológicos, mas não tinha jeito algum dele ter essa memória. Não depois de passados 15 anos desde sua adoção. ━━ Ela pode me introduzir à culinária, se quiser. Tenho certeza que meu pai não se importaria, também. Ele é muito aberto às novas experiências. Acho que foi por isso que me adotou. ━━ O comentário final vindo em um tom divertido.
Por mais que não parecesse, Sorem era responsável. Talvez a sua definição de responsável fugisse um pouco do convencional e, por isso, estava com uma aluno de 15 anos em uma área proibida da escola, mas ainda assim ele sabia exatamente até onde podia ir. Já cumprira detenções e observara o guarda-caças o suficiente para criar uma boa noção de como se mover pela floresta. Então, sentia-se relativamente tranquilo. Só precisava levá-lo inteiro para o castelo depois. ━━ Pode apostar. Mas é engraçado, agora… Porque dá vontade de chorar, mas não é pela dor da picada, é pelo veneno atingindo seu sistema. ━━ Razões pela qual não estava a fim de repetir a dose. Enquanto o outro observava o besouro, Sorem só se ocupava em empurrá-lo gentilmente de volta ao torso da mão toda vez que ele fazia questão de se mover. Não gostaria de uma daqueles se perdendo por entre o preto de suas vestes em um lugar escuro. ━━ Não é?! ━━ Concordou imediatamente. ━━ Melhor não. Não vai querer um desses estressado perto de você. ━━ Avisou-o enquanto devolvia o besouro para a árvore. Já tinha abusado de sua sorte, podia dar-se por satisfeito. ━━ Acho melhor voltarmos para o castelo, antes que alguém nos pegue aqui… Podemos vir mais cedo no fim de semana, procurar unicórnios.
Noah não queria pensar em como o mundo bruxo estava mudando, com toda uma ameaça invisível pairando sobre eles a ponto da escola estar repleta de pessoas estranhas e sérias demais para o gosto do jovem corvino. Em momentos como aquele, talvez fosse melhor mesmo se sobrecarregar com atividades escolares, distrair a mente com atividades simples como jogar Quadribol ou procurar animais diferentes na Floresta. De qualquer forma, logo entendeu os sentimentos de Sorem e sorriu, maneando a cabeça em uma concordância simples. ━ “Tem razão, Sorem-ssi. Só fico preocupado com sua saúde, mas se acha que dá conta de tudo, então siga em frente.” ━ Riu baixinho, pendendo a cabeça para o lado, com os olhos ainda fixos nele. ━ “Todo mundo tem uma ambição, por menor que seja. E se você quer tanto a Taça de Quadribol, é melhor treinar o quíntuplo com seu time porque nós da Corvinal vamos chegar na final e eu não vou deixar nenhuma bola da Grifinória passar por aqueles aros.” ━ Se tinha algo que os corvinos tinham, era o orgulho. Por mais que entendesse a ambição alheia e esperasse que ele conseguisse o que queria, Noah também tinha uma paixão e dever com a sua Casa e não podia abrir mão disso em prol do outro. No final, venceria o melhor e esperava que não houvessem ressentimentos entre eles, independente do resultado. ━ “Não. Não acho que tem do que se gabar porque eu também queria sentir o formigamento nos dedos que os mais velhos falam que aparece depois de beber cerveja! E poder arrumar meu quarto só usando um movimento de varinha, mas minha mãe me obriga a arrumar a casa toda sem magia o verão inteiro! Isso é muito injusto.” ━ Noah falava como se não fosse fazer dezessete anos em meros dois anos! Não podia simplesmente perder a chance de reclamar e tagarelar sobre como sua vida era injusta naquele nível. Era um absurdo. Deixou o assunto de Hogsmeade morrer, agora que já sabia que sairiam juntos como amigos assim que possível, então não precisava comentar como ficava nervoso de repente toda vez que ele soltava comentários aleatórios como aquele. Como um corvino, odiava ser pego de surpresa.
“Não fiquei bravo... Um pouco, só. Não muito. Só o suficiente.” ━ Suspirou, recolhendo a mão para colocá-la dentro dos bolsos por alguns instantes, após ter sentido o vento frio bater contra ela. ━ “Vou confiar em você, Sorem-ssi.” ━ Ao contrário do mais velho, Noah ainda estava em sua fase de descobertas, em que não sabia se gostava só de meninas ou só de meninos ou dos dois, mas ele sabia bem que não deveria estar se enfiando naquele tipo de brincadeiras com um rapaz mais velho. Por mais que Sorem parecesse legal e tivesse lhe dado liberdade, tinha medo de que acabasse virando um tema de deboche entre os outros alunos do colégio. E aquele fora que recebeu apenas confirmava que esquecer tudo era o melhor a se fazer. Por fim, suspirou, o carinho servindo de distração para que Noah colocasse um novo sorriso no rosto e fingisse que nada tinha acontecido. ━ “Sim, são todos bruxos e todos coreanos. Vou dizer pra ela fazer os pratos mais gostosos pra você comer! Eu acho todos uma delícia, sou suspeito de falar, mas vou garantir que ame todos!” ━ Pareceu animado, batendo palmas. ━ “Ooooh, quer aprender a cozinhar? Vou me lembrar de comentar com ela, você e seu pai vão sair verdadeiros mestres da cozinha!”
Virou o rosto para o mais velho, a expressão tristonha ao pensar no quanto o outro havia sofrido com a picada do inseto. Foi sua vez de levar a mão aos cabelos de Sorem, acariciando os fios enrolados. ━ “Sinto muito que tenha passado por isso.” ━ Comentou, abaixando-se para dar um beijinho no rosto dele. ━ “Pronto, pra sarar todas as memórias ruins de besouro-da-melancolia.” ━ Tornou a abrir um sorriso, afastando-se para observar o grifano retornar o animal para dentro do tronco da árvore. Ao olhar para o céu, percebeu em como a noite começava a cair depressa e Noah não queria mais uma detenção no seu currículo escolar. Maneou a cabeça em afirmação, virando-se para o caminho por onde tinham entrado. ━ “Vamos mesmo procurar unicórnios? Mas pra isso precisamos de alguém mais velho, não é?”