Minima moralia I
Última clareza - No necrológio de um homem de negócios lia-se: “ A largueza de sua consciência rivalizava com a bondade de seu coração”. O deslize cometido pelos enlutados parentes e amigos na linguagem solene que se reserva para tais ocasiões, a involuntária admissão de que o bondoso falecido era inescrupuloso, remete o cortejo fúnebre pelo caminho mais curto ao país da verdade. Quando se enaltece num homem de idade avançada o fato de ter se tornado uma pessoa especialmente serena, é de se supor que sua vida constitua uma série de feitos infames. Ele perdeu o costume da agitação. A consciência moral larga instala-se com generosidade, que tudo perdoa porque compreende com demasiado conhecimento de causa. Entre a culpa própria e a alheia emerge um quid pro quo que é resolvido a favor de quem aí levou a melhor. Após uma vida tão longa já não se é mais capaz de discernir quem fez o que a quem. Na representação abstrata da injustiça universal desaparece toda responsabilidade concreta. O canalha emprega-a de tal modo como se isto tivesse ocorrido precisamente a ele: “ Se você soubesse, meu jovem, como é a vida!”. Aqueles, porém, que no meio de suas vidas já se destacam por uma bondade especial, são geralmente os ue sacam uma promissória sobre tal serenidade. Quem não é maldoso, não vive serenado, e sim, de maneira particular e envergonhada, intolerante e obstinadamente. Por falta de objetos adequados, a maneira de dar expressão a seu amor quase não difere da do ódio em relação aos inadequados, pelo que, porém, ele de novo se iguala ao odiado. O burguês, todavia, é tolerante. Seu amor para com as pessoas como elas são nasce do ódio ao homem correto.











