“Thank you.” foram as palavras que saíram de sua boca, calando-o após seu monólogo. Engolira em seco, ainda tentando processar o choque, que apesar de ser positivo, ainda tinha mexido de maneira ímpar com sua cabeça. Sabia que apesar de ter falado tanto, nada havia dito sobre o real motivo de estar ali. Aquela seria a primeira vez que diria aquilo em voz alta, afinal, não tinha outras palavras que não as mais objetivas para dar aquela notícia. “Eu… Eu…” começou, saboreando as palavras antes de finalmente as dizê-las, sentando quase que mecanicamente no sofá antes de desabar o corpo com o dizer das palavras. “Eu sou pai, Eleanor.” olhou-a, apesar de ainda ter um brilho vidrado que dava-lhe a impressão de nada realmente enxergar. “Eu tenho uma filha, e ela tem seis anos.” engoliu, novamente, agora suspirando e afundando o rosto entre as mãos, deslizando os dedos de forma nervosa pelo cabelo “A mãe dela me contou agora há pouco e… Eu não sei nem mais quem eu sou desde então. Eu não sei o que fazer, o que pensar…” contou, negando com a cabeça, e então voltando a fitá-la “Por favor, Eleanor, me diga, o que eu faria numa situação dessas?” se não fosse tão desesperador, seria cômico como naquele momento ele tanto se desconhecia que precisava perguntar a ela como era, quem era.
Eleanor apenas sorriu em resposta, um sorriso fraco e preocupado. Preocupação essa que se espalhava por toda a sua expressão; podiam ter terminado há um bom tempo, mas não deixara de se preocupar com ele. Principalmente depois de, aparentemente, terem dado uma trégua no suposto ódio que compartilhavam um pelo outro. Quando era adolescente, ouviu que sua beleza exterior não compensava por sua feiura interior — e riu quando escutou a comparação, imbatível —, porque não se importava com as pessoas fora de seu círculo social, mas era diferente com ele. Sempre foi. Esperou que ele falasse, por fim, o que tanto o incomodava, dando-lhe o tempo que precisasse, enquanto brincava com os próprios dedos. Quando as palavras preencheram seus ouvidos, porém, não conseguiu acreditar. Passou alguns segundos em choque, sem reação, mas logo recordou que ele precisava dela e não tinha tempo para pensar em si mesma ou em sua surpresa. Passou a língua entre os lábios para umedecê-los antes de olhar para ele. Não fazia ideia de como respondê-lo, em partes por ter tanta coisa naquela resposta que não sabia como começar. “ — Você...” Começou, tentando pensar em algum jeito de externar seus pensamentos embaralhados. “ — Você é dócil, bondoso e uma das pessoas mais altruístas que conheço. Se preocupa com todo mundo ao seu redor, qualquer pessoa, e parece que ser uma luz na vida de todos ao seu redor é algo natural. Você, Gabriel, é o tipo de pessoa que todos olham e pensam ‘uau, eu deveria ser mais como ele’ e você nem está fazendo nada demais, talvez só esteja respirando e existindo. Eu sei que ninguém te merece totalmente e que quem você achar que é suficiente para te ter por perto é a pessoa mais sortuda do mundo. Também sei que todos sabem que são, sim, sortudos, todos são felizes por te terem por perto, porque você é a melhor pessoa da vida das pessoas.” Parou de falar quando sentiu o coração acelerar, ciente de que seu corpo avisava que começava a entregar demais. “ — Agora que, espero eu, lembrou quem você é, posso tentar pensar no que faria.” Murmurou, desviando o olhar do rosto de Gabriel para suas mãos. Em um ato corajoso e impulsivo, levou seus dígitos para que tocassem na dele, acariciando ali. “ — Não sei a história e não sei quem é a mãe, mas você se acalmaria e, depois de um tempo, iria procurar a mãe da sua filha e pediria para conhecê-la, falar com ela, interagir com ela. Tentaria manter contato e ser um pai presente, porque a situação não é sua culpa. Se você não sabia, não é sua culpa. Você tentaria conhecer melhor a criança, porque você, como eu disse, é uma pessoa incrível. Não precisa ter medo de que ela não vai te amar de cara, porque isso é impossível. E, mesmo assim, conforme ela te conhece, ela vai perceber o quão incrível e o quão sortuda ela é.” Sorriu fraco, deixando a mão onde estava. Mais uma vez, respirou fundo e mordeu o lábio inferior. “ — E, se quer saber, eu sempre soube que você seria um pai incrível. Pensava que você não seria como meu pai biológico, que me abandonou. Olhava pra você e eu só sabia que quando tivesse um filho, ele seria a pessoa mais sortuda do mundo. Só de você estar assim, por mais que me preocupe, acho que é um sinal de que você se importa e já é um ponto positivo.”