O fim dos grandes grupos de mídia do Rio
A mídia – não só no Brasil, mas principalmente por aqui – tende a se concentrar em grupos com atuação em diversos meios: impresso (jornais e revistas), radiodifusão e digital. Se formos a São Paulo, podemos ler O Estado de S. Paulo e escutar a rádio Eldorado, além de ouvir diversas rádios do Grupo Bandeirantes e assistir à sua emissora de televisão. Em Porto Alegre, dobradinha semelhante ocorre com o Zero Hora e a Rádio Gaúcha (para citar só uma do Grupo RBS) e as unidades do Grupo Record (Correio do Povo e Rádio Guaíba). Em Recife, o Sistema Jornal do Commercio possui TV, rádio e jornal, e a Folha PE também transmite no dial FM. Esses são apenas alguns exemplos de capitais em que grupos multimídia rivalizam entre si. No entanto, na segunda maior metrópole brasileira, o mesmo não se observa. O único que resta é o Grupo Globo, e todos os demais se fragmentaram ou deixaram de existir – algo que nem sempre percebemos.
Atualmente, além da líder absoluta TV, a Globo controla o único grande jornal da cidade, o centenário O Globo, o popular Extra, as rádios Globo (popular) e CBN (all news), sem falar na forte presença no digital por meio da Globo.com e seus filhotes, como G1 e GE. O gigante midiático, em outros tempos, já enfrentou concorrência acirrada de grandes grupos empresariais, em um ambiente competitivo que considero saudável para o jornalismo. Nas próximas linhas, vamos relembrar alguns deles e seus destinos.
Grupo Jornal do Brasil
O JB não só foi o jornal mais importante do país durante décadas, como é lembrado com muito carinho pelos que lá passaram. Tive diversos professores, chefes e colegas nostálgicos dos tempos de glória do jornal, que tinha diversos outros braços. Só no rádio, eram quatro estações: Jornal do Brasil AM, JB FM, Cidade e Opus 90 – esta última, talvez a única rádio comercial de música clássica do país.
A fragmentação do Grupo JB começou quando, em plena decadência financeira, os antigos proprietários arrendaram a marca do jornal ao empresário Nelson Tanure. Sob sua gestão, o JB impresso acabou, tornando-se um pequeno site de notícias. Tanure, por sua vez, o repassou a Catito Peres, em 2017, que reativou o papel por pouco mais de um ano. O jb.com.br voltou a ser apenas um site mal administrado e com pouco conteúdo original em 2019. A família Nascimento Brito, porém, manteve as concessões das frequências 99,9 (JB FM, líder no segmento adulto-contemporâneo) e 102,9 (atualmente arrendada a uma igreja, mas que de tempos em tempos ressurge como lar da querida Rádio Cidade).
Ao longo do século XX, o Jornal do Brasil pleiteou diversas vezes uma desejada concessão de televisão. Poderiam ter ficado com parte do espólio da Tupi, numa parceria que chegou a envolver a família Moreira Sales, mas o governo de então preferiu entregar a concessão aos Bloch, sobre os quais falaremos mais adiante.
Grupo O Dia
Conforme o JB definhava, outro gigante alcançou imenso espaço nas bancas fluminenses. O Dia nasceu como parte da imprensa marrom policialesca na década de 1950, mas quando saiu das mãos do ex-governador Chagas de Freitas para as de Ary Carvalho, seu perfil mudou. Embora não tenha deixado a cara popular de lado, tornou-se uma publicação respeitável, com uma grande redação e tiragens cada vez mais elevadas. A concorrência sentiu, tanto que O Globo lançou o Extra no auge do Dia, no final dos anos 1990. A FM O Dia e a MPB FM, além do jornal Meia Hora, compunham este pequeno conglomerado de imensa popularidade.
A desgraça, porém, caiu sobre a empresa após a morte de seu proprietário e a divisão do grupo entre suas filhas. Uma ficou com a MPB FM, que operava na frequência da Opus 90, outrora do JB. A estação foi vendida ao Grupo Bandeirantes em 2012, que a encerrou sem cerimônia em 2017. Em 2010, nova ruptura: a família Carvalho vendeu o jornal, que estava mal das pernas, à EJESA/Grupo Ongoing, de Portugal, que chegou a lançar o diário esportivo Marca e o Brasil Econômico (ambos já encerrados), além de incorporar o portal IG. Na família Carvalho, sobrou a FM O Dia, que reina absoluta no segmento popular.
Grupo Bloch
De todos desta lista, creio que a marca Manchete seja a que provoque mais nostalgia. Depois de consolidar as revistas da Bloch Editores, com a Manchete alcançando a liderança no país, a companhia decidiu, na década de 1970, investir em mídia eletrônica. Compraram a Rádio Federal, transformando-a na Manchete AM, e fundaram a rádio Manchete FM, que formou uma rede nacional. Esses foram os embriões da Rede Manchete de Televisão, erguida sobre um espaço ocupado pela Tupi até 1980.
É amplamente conhecido que o Grupo Bloch sofreu um golpe de quase morte entre 1999 e 2000, quando a TV, a editora e a estação FM faliram. Mas, como era de se imaginar, algo permaneceu no espólio para a família: a rádio AM, que foi arrendada, ou seja, alugada pelos herdeiros a diversos outros agentes ao longo dos anos 2000. De 2006 a 2015, a emissora ficou a cargo do empresário Miguel Nasseh e, em 2023, voltou sob a batuta de Raphael de França, filho do comunicador Luiz de França. A parceria não durou um ano, mas foi retomada agora, em 2025, quando a estação inaugurou suas transmissões no FM.
Já a lendária revista também ressurgiu em 2025. O empresário Marcos Salles, que trabalhou n’O Dia, adquiriu os direitos da marca e relançou a publicação, desta vez com foco local e na temática lifestyle. É curioso notar que a nova Rádio Manchete também lançou uma revista, com identidade visual muito parecida. As semelhanças param por aí. Não há nenhum vínculo entre os veículos.
Diários Associados
Talvez seja surpresa para alguns que o colosso fundado por Assis Chateaubriand ainda exista e reúna marcas relevantes, como o Correio Braziliense, o Estado de Minas e a TV Alterosa. São veículos em diversas mídias, principalmente em Belo Horizonte e Brasília, mas no Rio não restou tanto. A crise nos anos 2010 quase extinguiu o grupo na cidade. Sacrificou-se a Nativa FM para transmitir a Super Rádio Tupi em frequência modulada, em 2015. Um ano depois, ocorreu o fim do Jornal do Commercio, até então o mais antigo em circulação da América Latina com o mesmo nome. Sobreviveu a Tupi, que posteriormente se reergueu e voltou a ocupar a liderança no segmento, hoje disputado apenas com a Manchete.
É curioso lembrar que nos anos 1970, o Jornal do Commercio foi poupado justo pelo seu valor histórico. Naquela profunda crise que abateu as empresas de Chatô após a morte do magnata, optou-se por fechar O Jornal, diário que foi a base sobre o qual o paraibano construiu seu império. Em 2018, circulou a informação de que um grupo de investidores relançaria o JC, mas nada foi à frente.
Grupo O Fluminense
Se os conglomerados/famílias tradicionais da mídia carioca abriram mão de quase tudo, mas se agarram ao rádio, nem os elétrons de Marconi sobraram para o Grupo O Fluminense, dos Torres. Outrora principal veículo de Niterói e do Leste Fluminense, o jornal dispunha de duas rádios, AM e FM, homônimas. A Fluminense FM, aliás, fez história em sua fase rock, nos anos 1980, como retratado no filme “Aumenta que é Rock ‘n’ Roll”. Lembrem-se de que a frequência 94,9 FM chegou a abrigar a BandNews Fluminense FM, quando a estação era fruto de uma parceria com o Grupo Bandeirantes. Findo o acordo, com a all news migrando para o 90,3, o espaço no dial foi arrendado e depois vendido a uma igreja evangélica, juntamente com a Fluminense AM, em 2018.
No ano seguinte, aos 141 anos, o mais antigo jornal do estado também foi vendido a um empresário do setor de vestuário/varejo, que interrompeu a circulação impressa em 2023. Há indícios de que o papel voltou, embora sem anúncio oficial. Quem acessa o site do Fluminense, não encontra nenhuma referência a isso, mas, no Twitter, algumas primeiras páginas foram publicadas esporadicamente nos últimos meses com o dizer “Nas bancas”.
E agora?
Se não me engano, além do já mencionado Grupo Globo, só a EBC conta com presença em mais de um meio, com a TV Brasil e as rádios Nacional, MEC AM e MEC FM – todas com programação de excelência, vale destacar. Acredito que o ecossistema midiático fluminense seria mais saudável caso houvesse maior concorrência, o que também seria um indicador positivo do cenário econômico local. O declínio do Rio não explica sozinho essa crise. Faltou responsabilidade, gestão e estratégia, talvez até interesse por parte dos detentores dos veículos em manter seus negócios sadios, ainda que em meio a um cenário de transformações aceleradas.
Só temos um grande jornal, um único portal e rádios isoladas que, em muitos casos, são meras filiadas a redes externas. Na TV, só restou uma rede comercial com produção nacional por aqui. Não sei se falta ousadia ou capital para executar no Rio o que vem acontecendo, por exemplo, em Brasília, onde o Metrópoles se tornou um fenômeno, alcançando a liderança na Internet, com presença no rádio e praticamente uma emissora de TV no YouTube. Fico contente ao perceber o surgimento de veículos jornalísticos digitais com reportagem de fato (e não depósitos de press releases) como o Tempo Real e a Agenda do Poder (apenas para citar alguns) e desejo que cresçam, ocupem novos espaços e invistam em qualidade – o que só é possível com profissionais de carne e osso interagindo entre si, apurando e checando informações, sob uma edição primorosa.










