Eu estava no segundo ano do ensino médio, as aulas já haviam começado a uns três meses. Me lembro que quando passei da oitava série para o ensino médio tive muitos problemas, e começei a me auto-mutilar. Eu apenas tinha uma amiga, apenas ela. Era quem eu realmente podia confiar para absolutamente tudo. Confiava tanto nela que era a única pessoa a qual eu havia contado sobre os meus cortes. Ela sabia tudo o que eu sentia, era no ombro dela ou pelo telefone que eu chorava, quando tinha recaídas. Mas desse época que começei a me cortar nunca havia conseguido ficar mais que dois dias sem o vicío. Ela sabia de tudo o que eu estava sentindo apenas por me olhar nos olhos. Depois de algum tempo ela nem pedia mais para eu mostrar os cortes, ela apenas conversava comigo e tentava me acalmar. De toda a escola ela era a única que tinha vindo falar comigo quando entrei lá. Eu confiava nela de olhos fechados, e sei que ela poderia ter contado para os meus pais sobre meus cortes, mas sabia que não a perdoaria por isso. Ela até tentava me encorajar a contar mas nunca acontecia. O meu relacionamento com a minha mãe não era exatamente de mãe e filha, a gente quase não se falava e quando falava acabava em brigas e eu me trancava no quarto pra me cortar. Então depois de um tempo parei de falar, falava apenas quando era realmente necessário. Eu sempre fui muito teimosa, mas achava que eu tinha uma personalidade forte, mas me enganei. Quando eu colocava algo na cabeça eu fazia, independentemente da opinião ou aprovação dos outros. Sempre fiz tudo o que achava ser certo, mesmo tendo consequencias depois. Mas a um ano e alguns meses eu estava fazendo algo muito errado, e tinha plena conciência disso. Porque se fosse certo eu poderia sair de manga curta em um dia quente mostrando meus cortes. Aquilo não era normal, nem nunca seria. Então eu me escondia. Na sala eu era vista como a “garota invisível”, aquela que estava presente mas ninguém nota, pois não argumenta nem se opõe a nada. Sempre fui um “tanto faz” na vida dos outros, e eu já estava acustumada com esse isolamento, afinal eu concordava com isso pois não respondia as ofensas. Eu tinha medo de ser criticada e julgada por algo que fazia para me aliviar. Ninguém entenderia os meus motivos, ou nem tentariam. Eu guardava muitas coisas dentro de mim, mágoas. As vezes coisas bobas que me machucavam eu não contava nem pra minha amiga, achava que ela não merecia ouvir tudo aquilo. E outra coisa que me feria imensamente era o garoto pelo que me apaixonei quando entrei naquela escola, ele estudava na sala ao lado da minha. Eu sempre o observava na hora do intervado/entrada/saída. Mas obviamente ele nunca havia notado a minha presença, e nunca notaria. Ele era um garoto popular na escola e sempre ficava com as meninas mais bonitas. Então que chance eu teria mesmo? Mesmo sem ter esperança nenhuma que algum dia ele olhasse pra mim eu ainda gostava dele. Um dia cheguei na aula com o mesmo desanimo de sempre porque tinha o primeiro periodo de educação física. E a minha energia para fazer exercícios as oito horas da manhã não era muito boa. A turma que estudaqva ao lado da nossa sala estava sem professor, então mandaram eles descerem para fazer aula junto com a nossa turma. Quando vi ele descendo as escadas minhas pernas tremeram. Eu estava fraca também, não comia direito nem dormia. E na noite passada havia me cortado bastante. Então a cada vez que a bola tocava em meus braços doia. Eu tentava esconder, até que avisei o professor que não estava me sentindo bem e ele me mandou sentar. Fiquei observando o jogo mas não estava prestando atenção. Vi ele vindo na minha direção, mas não me preocupei pois pensei que ele iria pegar a mochila ou algo que estivesse no banco. Olhei rápido e não havia nada. Ele sentou ao meu lado e eu achei que iria desmaiar. Mas como de custume eu cruzei os braços e meus cortes doiam. - Oi Ele disse e eu demorei para responder. - Oi Não conseguia olhar nos olhos dele então encarei o chão. - Você é muito bonita sabia? Fiquei em choque. - Sério? Obrigada Ele sorriu e se levantou, foi em direção aos amigos que estavam em uma rodinha. Em seguida um dos amigos dele veio falar comigo, achei estranho. - E ai, já conheceu meu amigo Lucas? - Uhum Fiz um sinal de positivo com a cabeça. - Ele quer ficar com você Quando ele disse aquilo senti meus musculos tremerem. Não consegui pronunciar nenhuma palavra. - Você quer ou não? - Acho que sim Nem percebi o que tinha falado, demorou pra cair a ficha. Em seguida que respondi ele se levantou e voltou para aquela rodinha. Eles conversavam e riam enquanto eu olhava. Minha amiga veio e sentou do meu lado. - Ju, o que ele disse? - O Lucas quer ficar comigo - Aaaaaah sério? - Shhhh! Fica quieta - Desculpa, mas ele pediu? - Não, o amigo dele pediu por ele - Ah sim, mas quando? - Sei lá. Ele ouviu a resposta e voltou pra lá e estavam rindo - Ah já sei, vou dar uma disfarçada e vou lá perto pra ouvir o que eles estão falando - Tá bom, mas seja discreta por favor! - Eu sei! Ela levantou e fingiu que estava voltando a jogar. Ficou perto de onde eles estavam. Mas perto o suficiente para ouvi-los. Depois de alguns minutos ela voltou. - O que eles falaram? - Estavam combinando uma janta ou sei lá. Eles perceberam que eu estava perto e não falaram nada de você - Ah Abaixei a cabeça. - Mas se anima, você gosta dele não? - Sim e muito - Então Dei os ombros e ela voltou a jogar, mas tocou o sinal. Todos subiram em direção a sala. E como sempre eu era quem ficava pra trás. Sempre era a última a entrar. Quando estava passando na frente da sala do Lucas, o amigo dele me puxou. - Ei Me virei. - O que foi? - E o Lucas? - O que? Ele gritou “Luuucas” e em seguida ele apareceu. O corredor estava cheio e parecia que todos sabiam o que iria acontecer, ninguém entrou nas salas. Estavam todos amontuados ao redor da gente. Eu, Lucas e o amigo dele que eu nem sabia o nome. O Lucas se aproximou e pegou em minha mão. Em seguida todos começaram a gritar “beija, beija, beija” e meu coração parecia que ia sair pela minha boca. Antes que pudesse pensar em fazer algo ele me beijou. Durante o nosso beijo pude escutar alguns gritando “uhuul” e coisas do tipo. Mas minha alegria durou pouco, quando ele parou de me beijar me deu uma espécie de empurrão e limpou os lábios com uma das mãos. Eu não estava entendendo mais nada, na verdade ninguém estava, todos estavam em silêncio, seu amigo colocou o braço sobre o ombro dele. - Parabéns cara, agora te devo cinco reais e uma coca - Me deve dez - Mas a aposta era cinco reais e uma coca-cola - Mas olha quem você me fez beijar, mereço até cinquenta Eles riram e eu imediatamente começei a chorar e sai correndo pro banheiro. Uma aposta? Tinha como minha vida piorar? Não havia nenhuma possibilidade de piorar, aquilo era o fim. A maior humilhação pela qual já havia passado. Já havia sido motivo de piadinhas e apelidos, mas aquilo era grave. Aquilo havia ultrapassado todos os limites de humilhação existentes. Me sentia um lixo, uma inútil. Me iludi ao pensar que algum dia ele realmente pudesse gostar de mim. Burra! O meu preço é cinco reais e uma coca-cola? Fiquei chorando desesperadamente atrás da porta do banheiro. Minha amiga estava lá e insistia pra que eu saisse. Batia na porta com força mas eu não queria abrir. - Ju abre essa porta! - Não, me deixa sozinha! Eu gritei em meio aos soluços. Não queria sair dali por nada. Mas eu sabia que uma hora teria que abrir aquela porta. Minha amiga ficou lá me pedindo pra sair por mais um periodo e eu não abri a porta. A dor e a vergonha que eu estava de mim mesma a cada segundo aumentava. Puxei a manga do casaco e os meus cortes ainda estavam quantes. Desejei que a lâmina que fica no meu estojo, estivesse ali em minhas mãos naquele momento. Mas como não tinha nada para me ferir, usei as unhas. Arranhei os cortes até começarem a sangrar outra vez. Como só estavam eu e ela dentro daquele banheiro ela pode ouvir o barulho. - Ju o que você tá fazendo? Sua voz era de preocupação, mas eu continuei chorando e passando as unhas sobre o meu braço, tentando acertar nos cortes para que doessem. Eu merecia aquela dor, na verdade eu sabia que se tivesse uma lâmina ali eu cometeria um suicídio. Eu temia que essa ideia não saisse da minha cabeça tão cedo. Ela repetiu a pergunta. - Tá fazendo o que aí Ju? - Nada, me deixa - Para com isso, eu tô escutando - Eu mereço - Para Ju, se não eu derrubo essa porta - Eu quero morrer Eu já estava quase sussurando. - Por favor eu quero morrer! Eu sabia que do outro lado daquele pedaço de madeira ela estava me ouvindo. Ela sussurou também. - Vai ficar tudo bem - Não, não vai Soluçei. Ela não respondeu mas eu sabia que ela ainda estava ali e que não iria sair enquanto eu não saisse. Encostei minhas costas naquela parede suja, e as lágrimas não paravam de cair. E eu não conseguia fazer o meu choro ficar silencioso, aquilo doia demais que eu não aguentava segurar sem fazer nenhum barulho. Era um choro dolorido. Não ouvi mais nenhuma palavra do outro lado da porta mas sabia que ela não tinha saido. - Carol? Falei baixinho. - Sim? - Só queria saber se ainda estava aí - Eu vou ficar até você sair - Podemos fazer um acordo? - Depende - Você sobe e pega minhas coisas - E? - Se fizer isso eu saio e peço pra ir pra casa - Eu faço, mas seu braço tá sangrando? - Um pouco, mas na minha mochila bem no fundo tem uma faixa, pega pra mim - Ta bom, vou lá, me espera - Não tem a miníma chance de eu sair daqui Ouvi ela saindo, depois escutei outras garotas entrando e conversando. Elas riam e falavam alto. Eu me segurei pra não chorar, já tinha passado vergonha o suficiente naquele dia. Quando ouvi a voz dela as outras ainda estavam no banheiro, mas como o combinado eu abri a porta mas não sai. Mostrei meu braço e ele me alcançou a faixa. Enfaixei rápido o braço e cobri com a manga do casaco. Sai e imediatamente elas me encararam. Elas fizeram uma expressão de espanto. Pensei que meu estado deveria estar péssimo. Olhei rápido no espelho pra ver se elas não estavam exagerando ao me olhar daquela maneira, mas tinham razão. Meus olhos estavam vermelhos e inxados, praticamente dobraram de tamanho. Meu rosto já estava seco, mas meu nariz entupido e os olhos daquele jeito não escondiam as lágrimas que eu havia derramado atrás daquela porta. Peguei minha mochila das mãos da minha amiga, coloquei sobre um ombro e sai sem dizer nada, abaixei a cabeça e saimos. Fomos na direção e eu disse que não estava bem e como os meus olhos não mentiam, me deixaram sair, antes minha amiga chamou a minha atenção. - Eu sei que o que aconteceu foi muito ruim e que se eu pedir pra você não se cortar será totalmente em vão, mas pensa antes ta? Ele não merece a sua dor, ele não merece você, não sabe o que perdeu Antes mesmo dela terminar meu rosto já estava enxarcado pelas lágrimas outra vez. - E não faz nenhuma loucura por favor Ela me abraçou. - Eu preciso que você seja forte, por mim! Não respondi, apenas a abraçei forte e as lágrimas no ombro dela já falavam por mim. Dei mais um abraço nela e sai chorando, segui o caminho até em casa. Sabia que as pessoas estavam me olhando mas eu apenas olhava para o chão. Aquela sensação sabe? De querer sumir e cada vez ser mais notada. Aquele desejo de morrer, e não conseguir segurar as lágrimas. Eu não chorava na frente de ninguém, mas meu mundo realmente tinha desabado, não conseguia ver nenhuma razão para continuar vivendo. E meus pensamentos estavam me enlouquecendo. Finalmente cheguei no meu prédio e abri a porta rapidamente. Subi correndo as escadas, entrei sem folêgo e tranquei a porta. Peguei um pijama e toalha e fui pro banheiro. Não esquecendo da minha lâmina, precisava muito dela naquele momento. Liguei o chuveiro e coloquei na temperatura morna e desabei de novo. Porque tudo aquilo estava acontecendo comigo? Deslizei a lâmina afiada sobre a minha coxa. Enquanto ela me dava aquela dor viciante que imediatamente me aliviava, fui juntando cortes que formavam palavras "i hate myself", era apenas aquilo que eu estava sentindo a muito tempo. Mas naquele dio o odio de mim mesma havia aumentado. Eu me odeio, eu quero morrer! Apenas isso que se passava em minha cabeça. Depois de cortar as duas coxas fui para os pulsos. Deixei a água cair sobre os cortes e o meu sangue era levado junto com a água. Depois que havia parado de sangrar, me vesti e fui pro meu quarto e tranquei a porta. Mesmo sabendo que minha mãe chegaria apenas pela parte da noite, preferi previnir. Deitei e enxarquei a fronha do meu travesseiro. Começei a pensar se deveria acabar com tudo aquilo de uma só vez. E aquele pensamento a cada segundo ficava mais forte. Lembrei que minha mãe uma época estava se tratando para depressão e tomava todos os dias um comprimido para dormir. Eu sabia qual era e aonde ela o guardava. Ela não o tomava mais então deveria estar ainda no mesmo lugar. Levantei da cama em um salto, olhei no relógio e faltava um pouco mais de uma hora para a minha mãe chegar em casa. Corri até a porta e a destranquei. Quase voei pelas escadas até chegar a cozinha. Era exatamente lá que havia um armário com todos os remédios e medicamentos que tinhamos em casa. Puxei uma cadeira e subi, o armário era muito alto. Passei a mão pelos remédios mas nenhum era o que eu queria, então lembrei que não tinha visto minha mãe colocando aquele remédio lá dentro e sim no guarda-roupa. Corri até o quarto e abri a primeira porta do guarda-roupa mas não estava lá. Abri todas as portas até que avistei ele no fundo atrás de um porta jóias. E se minha mãe fez questão de esconder tão bem, deveria ser mesmo forte. Peguei a caixa e fechei as portas do guarda-roupa. Fui até a cozinha e peguei uma garrafa de água na geladeira. Chequei no relógio se iria dar tempo. Subi correndo as escadas como se estivesse fugindo de algo, e eu estava. Cheguei em meu quarto ofegante e por fim tranquei a porta. Meus olhos se enxeram de lágrimas e eu sentei no chão. Abri a caixa do remédio e tirei o frasco de dentro. Peguei a bula e começei a ler até achar o que eu estava procurando “superdosagem”, senti uma euforia quase que inexplicavel enquanto meus olhos passavam por aquelas letras pequenas. Aquele remédio era realmente muito forte e só era recomendado para pessoas acima dos trinta anos de idade. Não podia tomar mais que um comprimido por dia. Joguei a bula depois de ler essas informações. Na caixa estava escrito que o frasco continha 60 comprimidos, então eu virei eles no chão e contei. Haviam 45, “deve ser o suficiente” pensei. Peguei minha lâmina e um papel, começei a escrever. "Não sei ao certo por onde deveria começar mas vocês precisam saber que eu cansei. Cansei de ser humilhada e maltratada. Cansei de brigar com você mãe sem um motivo concreto; na escola eu venho sofrido a muito tempo, calada. Venho a tempos descontando em mim mesma toda essa dor. Consegue entender? Vou explicar melhor. Todos os dias eu sou motivo de piadas e apelidos e finjo que está tudo bem quando na verdade eu queria chorar. Depois disso chego em casa e minha própria mãe nem sequer me olha nos olhos. O que eu faço então? Me tranco no quarto ou no banheiro e pego a minha lâmina. Deslizo ela sobre a minha pele e é assim que me alivio. Sim mãe, você tinha uma filha que se cortava. Falo no passado porque quando você estiver lendo essa carta eu já estarei bem longe daqui, estarei morta. Talvez eu tenha sido fraca ao decidir acabar com todo esse sofrimento. Ou tenha sido forte demais por muito tempo, além do meu limite. Mas ttodo esse peso em cima de mim, me derrubou. A muitos meses que eu não sei o que é sorrir verdadeiramente ou me sentir importante pra alguém. Eu me transformei no pior de mim, em um monstro. Me olho no espelho e sinto nojo de mim mesma. Toda vez que como eu vou até o banheiro pra vomitar. Sim mãe, você tinha uma filha bulêmica e auto-mutiladora. Sabe como eu me sinto? Rídicula, gorda, feia, e as cicatrizes espalhadas pelo meu corpo me fazem sentir ainda pior. Culpada. Eu sempre fui culpada por tudo. Na escola eu não pronuncio uma palavra, mas quando alguém tem que se responsabilizar por algo, citam meu nome. E você mãe, todos os dias que está falando comigo, joga a culpa em mim pelo papai ter ido embora. Não foi minha culpa, será que algum dia você será capaz de entender? Além disso eu sempre fui a errada. Nada que eu fazia estava bom o suficiente. As vezes eu deixava a louça lavada e comida pronta. E você nem era capaz de dizer um "muito obrigado". E quando eu não fazia levava um milhão de xingões. Nunca me senti boa o suficiente pra nada. E sei que com essa decisão que tomei vai melhorar muito a sua vida mãe. A morte é a única opção pra mim. Na verdade sempre foi, eu que a vim adiando por muito tempo. Não derrame suas lágrimas por mim, pois sei que serão falsas. Você sentirá alivio ao saber que eu virei apenas uma lembrança embaixo de um túmulo. Eu já estou morta por dentro, vou terminar de morrer por fora. Não vou terminar essa carta dizendo que te amo porque estarei mentindo. Esse tempo todo eu apenas aturei a sua presença porque não teria aonde morar. Não considero você minha mãe, na verdade nem sei porque você me deixou nascer. Poderia ter me abortado, assim não teria o trabalho de me suicidar. Não vou pedir perdão pelo o que fiz. Foi necessário e melhor assim. Adeus". Quando escrevi as últimas palavras me agarrei ao caderno e chorei mais. Eu tinha que ser fria naquela carta, pois só assim ela me perdoaria algum dia. Arranquei as folhas do caderno e dobrei. Escrevi “para mamãe” e a coloquei sobre a cama, voltei a sentar no chão. Peguei a lâmina e mirei em uma veia, jorrou sangue mas não tinha certeza se havia acertado. Peguei um maço de comprimidos e coloquei sobre a boca. Tomei bastante água até sentir que todos eles já haviam descido pela minha garganta. Fiz isso três vezes, até não restar mais nenhum comprimido. Senti um aperto no coração. “Agora não tem mais volta” pensei. Levantei e começei a sentir um calor enorme, e sabia que realmente iria dar certo: eu cometeria um suicídio. Depois disso tudo ficou escuro e não me lembro de mais nada até acordar outra vez. Abri os olhos devagar e meu corpo estava amortecido. Olhei em volta e tudo estava calmo, quando consegui abrir bem os olhos sabia onde estava: hospital. Eu não lembrava do que poderia ter feito eu estar lá. Olhei os meus braços e em um deles havia uma agulha que levava soro até o meu corpo. No pulso esquerdo tinha um curativo e estava começando a me doer. Me sentei e ouvi a enfermeira falar “ela acordou” e em seguida um médico entrou no quarto e colocou a mão sobre o meu ombro. - É melhor se deitar Me enclinei de volta na cama. - Porque estou aqui? - Não se recorda? - Não - Você tomou vários comprimidos e teve uma overdose Não sabia o que responder. - Sua mãe quer falar com você - Aonde ela esta? - Lá fora, posso pedir pra ela entrar? - Tanto faz - Vou interpretar isso como um “sim” Ele saiu e em seguida minha mãe entrou. Mesmo tentando pensar eu não conseguia saber quais palavras deveria usar, então me calei. - Você tava pensando no que quando fez isso? O tom da sua voz era baixo porém me arrepiava a cada palavra. - Não vai me responder? - É que… eu não me lembro direito - Ah não se lembra? Então vou refrescar a sua memória. Você cortou uma veia e perdeu meio litro de sangue, deixou uma carta de despedida e tomou um frasco inteiro de um remédio que era meu, se lembrou agora? - Sim, na carta eu escrevi a verdade - E você diz isso com toda calma do mundo? Você tem noção do quanto eu estou gastando pra você ficar nesse hospital? - Gastaria menos no meu enterro - Talvez Como ela poderia ser tão fria? Engoli as provocações e ela continuou. - Quer dizer então que tudo o que eu faço não está bom? - Tudo? A que “tudo” você se refere? Nunca fez nada por mim, nunca se importou comigo. Eu já disse que você não é minha mãe - Ah então eu te dar um teto pra morar não é nada? - Preferia morar na rua e ter uma mãe que se importasse comigo Ela suspirou. - Desde quando? - O que? - Desde quando você se corta? - Só está perguntando porque se sente culpada - Me responde - Faz mais de um ano, e você nunca percebeu, porque se importaria agora? - Você poderia ter morrido mesmo sabia? - Sabia, e era o meu plano, queria que tivesse acontecido. Porque não me deixou sangrando até morrer? Depois podia ligar pra ambulância quando já tivesse certeza que eu estava morta, e todos diriam “não foi sua culpa” e você viveria feliz sem mim Ela não respondeu, aquilo era o fim daquela conversa. Ela saiu do quarto e não voltou, se passaram os dias e ela não havia ido me visitar. O médico havia me dito que eu passaria quase um mês lá até estar totalmente recuperada. O mês se passou e não vi minha mãe passar por aquela porta, sempre que aparecia alguém eu pensava que era ela, mas não eram as enfermeiras. No dia em que sai do hospital voltei sozinha pra casa, minha mãe não havia feito questão de ir me buscar. Cheguei em casa devagar pois não podia me esforçar demais. Olhei na cozinha e ela não estava, subi e fui ver no quarto mas também não estava lá. Então peguei uma roupa e queria tomar um banho, estava com saudade do chuveiro da minha casa. Peguei toalha e fui pro banheiro, e me deparei com o corpo da minha mãe sobre o chão coberto de sangue. Fiquei em choque, quando consegui ter alguma reação foi de pegar um pedaço de papel que estava sobre a sua mão, que dizia "eu fui a pior mãe do mundo, mas prefiro morrer do que te ver sofrer, eu te amo". Com aquele bilhete em mãos eu chorei por horas, até conseguir ligar para alguém ir até lá. Minha avó veio para fazer o velório e o enterro dela. Depois disso tive que me mudar com a minha avó, ela era tudo o que eu tinha. Na escola nova eu era excluida do mesmo jeito, continuei a me cortar e a vomitar. E todos os dias quando deito minha cabeça no travesseiro e sinto os meus cortes doerem penso “deveria ter sido eu, não ela”.
Sabe aquela menina que você chama de gorda? Ela vomita 5 vezes por dia. Sabe aquela menina que você zoa por passar o dia todo de casaco? Ela o usa para esconder os cortes, esbarrar (via esbarrar)















