Te ver partir todos os dias um pouco mais de dentro de mim, sorriso largo e bonito, os mesmos olhos puxados, os mesmos lábios, os mesmos cabelos na testa e o mesmo cheiro de primavera, mas falo da pele e não de perfume, só da pra sentir bem de perto, entre o pescoço e perto dos olhos, quase no nariz, fragrância de saudade do que não ficou, e perceber que seu perfume indo em minha direção foi a única coisa que fez eu sentir você perto do meu peito por dentro e por fora, mas isso me fez descobrir que a gente sente saudade porque quer, que sentimos muito por escolhas nossas, por objetivos e diretrizes que nos guiam e nos fazem pensar um tanto com o coração e um tanto com a razão, nos fazem enxergar um horizonte, belo ou não, mas que se trilhado em uma direção certa nós podemos alcançar, nem que isso custe muito para nós. Me fez perceber que o tempo nunca parou, embora ao seu lado ele teimasse em se fazer ausente, ao menos dentro de nós, nos eternos abraços que de tão apertados e colados deixavam as leis da física pra trás, dois corpos naquele momento ocupavam o mesmo lugar dentro de seu próprio espaço. Isso não é sobre caminhos diferentes e nem necessariamente de coisas que jamais foram vividas, falo de coisas possíveis e reais, de tudo aquilo que os nossos olhos conseguem ver mesmo através da miopia, do que nossas mãos conseguem alcançar, até onde nossos pés mesmo doloridos e cansados conseguem ir, e principalmente até que ponto nossas almas se entrelaçam e se devoram. E em cada canto da cidade, atravessando passarelas e cortando ruas, gastando as solas e gastando o tempo, traçando rumos e idéias, salvando dias perdidos e nos salvando de estarmos perdidos, enrolados no cotidiano e nossos corpos sempre enrolados na cama. Mas no meio disso tudo eu falo de mim, das minhas vontades e dos percalços no meio do caminho, sem balela ou histórias vomitadas da boca pra fora, falo de não deixar que a mente dos outros me mostre um caminho, de conseguir olhar no fundo dos olhos da pessoa amada e me enxergar, conseguir olhar pra dentro de mim como um raio-x e ver quem eu sou, e perceber que em algum momento nesses caminhos tortuosos eu me perdi, mas acredite, isso não foi necessário para que eu pudesse me encontrar. As vezes certas coisas acontecem sem propósito algum e sem aviso prévio, apenas começam e terminam, como um ciclo onde tudo se renova, onde o novo atrai, onde um processo é feito em nossa mente, do tipo “se está comigo é meu e se é meu eu não preciso me preocupar”, mas a vida nos cobra seus caros impostos por cada dia vivido, e se não enxergamos um pouco mais além ficamos a mercê de ter coisas apenas dentro de nós, de não carregar nada do lado de fora do peito, você entende? de não encarar as consequências que nos esperam acerca de decisões previamente tomadas. Nunca foi fácil falar de mim ou de tudo o que me envolve, das minhas idas e vindas por ai, das pessoas que abandonei e dos abandonos que me esvaziaram o peito e de tudo e todos que matei dentro de mim para que eu conseguisse seguir adiante, uma chacina emocional com tudo aquilo que já não servia mais de ponte pra nada, numa tentativa suicida de ser feliz. Falo dos calos que surgiram no meio dessa estrada, das pessoas que apenas cruzaram o meu caminho – não ficaram e nem podiam - e claro que existiam as noites em claro idealizando um futuro e sonhando em encontrar algo ou alguém que tirasse o peso do meu coração e que dividisse comigo os excessos, tudo aquilo que eu já não conseguia mais carregar dentro de mim, tudo aquilo que já não conseguia ficar preso dentro do peito, foram noites de um céu nem tão estrelado assim, noites frias e amargas, mais amargas que o silêncio que tu grita pra mim todos os dias. Mas quando você começa a olhar pra dentro de si você percebe que por mais que você não enxergue nada por conta de toda bagunça emocional que você esconde, você está ali no canto, debaixo daquela decepção, debaixo de todas aquelas palavras não ditas ou quem sabe na outra extremidade, logo ao lado do medo que você sente. Tudo precisa ser libertado, mas isso não significa caminhar sozinho e sem rumo ou não querer se prender a olhar algum e negar todos os sorrisos apenas porque na sua cabeça ser livre vem acompanhado da palavra ‘deixar’. Ser livre é se encontrar sem sofrer danos, é saber que livres nunca fomos, pois o que mais nos assusta e queremos prendemos dentro de nós mesmos, a sete palmos debaixo da nossa alma. E no final eu precisei olhar uma, duas, três vezes pra perceber que antes mesmo de você ir de mim, você já havia partido de dentro de si, e já não eram mais os mesmos olhos, seus sorrisos já não eram mais musicas para os meus ouvidos e você que sempre caminhou devagar já dava passos largos na outra direção. Você só esqueceu que eu vivia em um mundo que pertencia a você, e quando você finalmente se foi eu tive que achar a saída sozinho. E foi quando eu tive a certeza que aquelas ultimas flores que lhe dei serviram apenas para enterrar o nosso amor. Faça um sinal quando não conseguir mais respirar e você saberá que fomos igualmente danificados.