E se suas ações contradizem suas palavras, eu nunca vou acreditar em você.
(Dr. House)
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Origami Around
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@oficinadesonhos
E se suas ações contradizem suas palavras, eu nunca vou acreditar em você.
(Dr. House)
An agate stone that looks like a window to the ocean.
Palavras não ditas
Quero lhe contar o que não disse. Tudo. Não me leve a mal, tenho consciência de que nada mudará. Dentro de mim, entretanto, existe a necessidade de libertação. Eu te amei desde o primeiro dia. Desde a primeira conversa sentados naquele sofá na recepção de um apartamento que nem era nosso. Você usava uma camiseta branca e eu um vestido de mesma cor. A chuva caia lá fora, mas não nos importamos. Observei seu sorriso e ouvi seus medos. Engraçado. Em uma das centenas de mentiras que conto para mim mesma, eu lhe disse que não conseguia namorar. Tola. De lá pra cá a intensidade do que senti, exponencialmente, aumentou. Quando você me chamou de linda - aquela vez, quando já quase dormíamos - meu coração parecia saltar do peito. Fiquei com receio de que você tivesse ouvido. Você me sussurrou essa e tantas outras palavras que chegavam aos meus ouvidos como canção. Você disse que ninguém da sua cidade chegava aos meus pés. Disse que estava caído por mim e até tinha se enrolado num cobertor. Ri da sua piada, sabia? E acreditei. Não devia, sei disso. Segurei-me nessas lembranças porque as mesmas me traziam paz. Vi em você algo que a muito tempo não via em alguém: disposição para sentir. Notei sua entrega e ansiei que ela pertencesse a mim. Enquanto você começava a sentir, eu já tinha me entregado por inteira. Você deixou seu moletom comigo e eu dormia vestindo o mesmo. Se você mandava uma mensagem, parava tudo para responder. Não importava o que aconteceria dali pra frente, já estava feito. Voltar não era mais uma opção. Talvez agora eu possa ver que nesse seu universo eu fui só mais uma estrela. Mas você... você foi o meu Sol, rapaz. E eu queimei. A culpa não é sua. Não sei ao certo quando as coisas mudaram. Sigo repetindo em minha mente que você poderia ter me contado. Seria honesto da sua parte, é verdade. A maneira como me sinto, todavia, nada mudaria. Quando foi que deixei de ser aquela que ninguém chegava aos pés? Diga que sou romantica, louca, o que for. Sou tudo isso. Eu te amei, meu bem. Muito mais do que disse. Muito mais do que consegui escrever.
28 de Setembro de 2018
Camila Cabral.
Que mulher. Foi seu pensamento. De fato, ela era linda. Caminhava em sua direção com o vento batendo em seus cabelos. Um colar dourado adornava seu pescoço. O perfume pôde sentir de longe. Era doce. Suave. Tão ela. E ele tinha tanto a dizer.
Ela sentou na mesa ao lado e colocou a bolsa no chão. Pegou uma caneta e começou a escrever algo. Como ele queria saber o que ela escrevia. Seus pensamentos. Bom dia. Ela disse. Dia. Ele respondeu. Seus olhos se encontraram e o brilho nos olhos dele eram evidentes. Ela nunca o viu. Será que era tão difícil assim perceber? Acorda, garota. Olha pra mim. Ele pensou.
Fim do dia. O coração dele ainda batia forte. Abriu a porta de casa com uma força desnecessária. Jogou a pasta de trabalho no sofá e deitou no mesmo. Estava frio. Ele se abraçou como se fosse possível se proteger. Mas não era o frio que o assustava. Não, nunca foi.
Seu medo era de nunca conseguir. Dizer. Não sabia porque doía tanto guardar. Foi até a cozinha e pegou um copo de água. Cada gole que entrava era uma lágrima que caía.
Dói. Não conseguir.
O nó formado em sua garganta já tinha uns bons anos. Não surgiu apenas nesse romance nada romântico. Mas com muitos outros. E nunca disse. Ele sempre teve medo do amor. Olha o que isso o fez.
Uma mulher, um dormitório
Uma mulher, um dormitório. Tudo calhou. Não havia mais cômodo, a senhora desapareceu. Não. Foi a precisa palavra sussurrada na penumbra. A escuridão cobriu, por fim, o que ainda podia ser visto. A ventania uivava e agitava seus cabelos negros que até então se encontravam presos. Podia sentir a ameaça eminente. Por que faziam isso? Nada distinguia, seu medo, entretanto, permanecia. Originária de alguma parte distante, reconheceu o canto de ninar que ouvira quando pequena. Quem cantava? Por que cantava?
Na vastidão, uma garotinha aproximava-se. Não devia ter mais de dez anos. A mulher invejou-a por parece tão decidida e certa de si. Seus passos eram lentos a ponto de parecer que não se movia. Tinha em seu braço esquerdo um delicado bracelete com um pingente de cristal, uma imitação idêntica ao da senhora. Seguia caminhando. O que a fazia vir em sua direção? A mulher elevou o braço direito e a pequena levantou o esquerdo, como se tudo fosse apenas uma brincadeira.
Ambas permitiram que uma lágrima escapasse: declinou pela maçã do rosto, cruzou os lábios e por fim caiu no negro chão. Ouviu-se o barulho da gota. Abria os lábios para indagar o que buscava a criança, não encontrava sua voz. Sua agonia aumentou ainda mais. Queria gritar. Tentou correr, mas não o fez rápido o bastante. Ela estava tão perto.
A canção prosseguia. O vento prosseguia. Notou que os lábios da garotinha se moviam e... Ela estava cantando? Desta vez estava ainda mais negro. Não era como se ainda estivesse naquele ambiente nebuloso, mas como se perdesse a visão. A melodia cessou, foi-se a audição. Os lábios da menina moveram-se pela última vez. Não. Disse ao mesmo tempo que a mulher.
Uma mulher, um dormitório. Um espelho, um revólver entre as mãos. Um último barulho.
Camila Cabral