No dia em que fora requisitada ao subterrâneo de Hexwood, como quando jantava a sós com sua mãe, Arya não parecia preocupada — talvez ligeiramente desorientada, uma vez que não compreendia a razão da convocação de qualquer um em Hexwood, considerando que os problemas que traziam à luz haviam ocorrido em terras distantes —, e acomodou-se com uma serenidade ensaiada, ainda que cada fibra de seu ser estivesse, também, curiosa demais; sabia o que poderia ouvir dela, mas não das figuras desconhecidas.
O oficial que liderava a investigação voltou-se a ela com deferência e vaga perplexidade. Ele sabia que se dirigia a uma jovem de linhagem nobre, alheia às minúcias de um inquérito de tal porte, mas cuja presença ali parecia inevitável. Com um movimento calculado, ele desenrolou um pergaminho à frente dela e, sem rodeios, iniciou a bateria de perguntas, cada uma carregada de uma precisão desconcertante.
“Milady, onde estava no momento em que o incêndio começou?”
Ela cerrou as pálpebras com languidez, endireitando-se em um movimento contido, enquanto entrelaçava os dedos com delicadeza sobre o colo, como se buscasse reunir a concentração necessária para imergir nas profundezas de uma memória distante.
“Oh, bem... eu estava... na minha cama, dormindo, creio. Ou talvez ainda estivesse na janela contemplando as estrelas... estavam especialmente brilhantes naquela noite.” Parecia serena, mas tão logo transbordou uma perplexidade genuína ao pousar os grandes olhos nos investigadores. Após uma pausa, completou: "Embora, admito, intriga-me e entristece que ninguém tenha percebido algo antes do fogo se alastrar tanto." Decerto, não nutria pena, pois abominava quando dirigido a si mesma e duvidava que qualquer um deles pudesse desejar o mesmo. Contudo, não conseguia evitar ser tocada por vestígios de empatia.
O oficial lançou um olhar breve ao escriba, que rabiscava apressado suas notas, antes de prosseguir: “Entendo. Notou algo incomum ou fora do lugar antes do incêndio?”
“Ah, sim!” Aishwarya inclinou-se para frente revelando, pela primeira vez, um lampejo de entusiasmo que, embora evidente, esforçava-se por ser domado à medida que as palavras escapavam de seus lábios. “Bem, havia um jardim de lavanda que parecia mais seco do que o normal. Achei um pouco preocupante, embora… bem, talvez não seja relevante para o senhor, agora que falo em voz alta.” Ela franziu o cenho de leve, como se questionasse a si mesma.
"Hm, bem... Tomaremos nota." Respondeu irresoluto perante o raciocínio que lhe fora apresentado, possivelmente questionando se ela tratava com a devida seriedade toda a circunstância. Arqueou suave uma sobrancelha, antes de dar continuidade. "E quanto aos dragões? Percebeu algo estranho no comportamento deles?"
Distraída, observou a mesa robusta que sustentava o peso de papéis detalhados, compenetrada nos pergaminhos amarrotados e tomos encorpados, enquanto lamparinas pendiam no ar e quase pareciam voar, se o observador tivesse imaginação o suficiente. "Dragões?" Arya inclinou a cabeça. "Ora, confesso que raramente estive próxima o suficiente de um para discernir o que seria um comportamento normal ou estranho. Seria mais adequado indagar isto a quem verdadeiramente entende."
“Estamos o fazendo, Milady. Mas e algum pressentimento ou sonho incomum antes de saber do incêndio?”
“Em fato, sim, pois sonho quase todas as noites, mas não imagino que correr atrás de uma borboleta com asas de cristal que, quando batia as asas, fazia sons de sinos, ou tentar ensinar um corvo a escrever poesia, seja de interesse ao assunto, então receio não poder ajudar muito.”
Um dos oficiais deixou escapar um riso abafado, enquanto aquele que se postava à sua frente esforçava-se por exibir uma compostura inabalável. Contudo, os olhos o traíam, revelando, reiteradamente, um lampejo de perplexidade sutil, como se ainda perscrutasse, em vão, algum fio lógico ou conexão oculta.
“A senhorita acredita que o incêndio foi realmente um acidente, ou que foi provocado por alguém? Imaginaria alguém que se beneficiaria disso?”
“Oh, não seria exatamente essa a tarefa dos senhores: descobrir? Sinto que meus achismos ou suposições seriam de pouquíssimo auxílio, considerando que sequer estava lá.” Ela ergueu o olhar sutilmente, embora o cenho franzido exibisse uma veia desgostosa prestes a explodir; não se encontrava propriamente irritada, mas amuada, visto que não havia qualquer cenário em que se esperasse dela a acusação de alguém sem qualquer evidência concreta.
"Então, ao menos, na sua opinião, quem poderia ter maior interesse no desaparecimento do Cálice dos Sonhos?" O oficial real manteve-se firme, modulando a voz em uma combinação calculada de formalidade e aparente cortesia, reiterando provocações disfarçadas de acusações infundadas, às quais Arya, resoluta, ainda recusava-se a dar qualquer fôlego.
“Não sei dizê-lo, mas é quase como perguntar quem gostaria de ter o bolo mais delicioso da mesa — a resposta é: todos, embora poucos admitam. Então, poderia ter sido capturado por qualquer um que ousasse.” O oficial agradeceu com uma cordialidade artificiosa, à qual Aishwarya replicou com igual polidez, oferecendo um sorriso gentil, retirando-se.
Pesadelos deveriam exalar o ar opressivo de lugares como aquele, e ela nunca mais desejava vivê-los acordada.