Já era para ter sido postado, mas retive a pressa!
Que bons ventos me façam voar, ainda, mais, em 2022/
Entrei em casa e deparei-me com a RBP, vol 55, n. 3 . 2021.
Após ser tomada por estranha sensação certifiquei-me, quase de imediato, da data e endereço do remetente.
Se o destinatário estivesse certo, a data, não, tal revista teria, talvez, surgido, como rescaldo da última arrumação no escritório.
Estava enganada, a data presente era 2021.
O que significaria esse erro?
Senti-me como levando um soco bom, retroativo, no meio do peito.
Alguém, do outro, lado, do lado, de lá, também, acena sinal, faz signo comigo?
Sou franco atiradora há anos e sei não estar filiada a nenhum Órgão oficial de psicanálise.
Sobre psicanálise, apenas, algo tento dizer, através dos meus “Olhos de Gato”, blog que assino, alimento e mantenho vivo.
Ainda, impactada, folheei a revista desconfiada, mas, assim que o mal estar passou, fui visita-la.
Li o editorial, a Carta-de-amor e resolvi aceitar o convite.
Tenho nove anos e experimento meu primeiro orgasmo.
Diante de pensamentos edípicos obsessivos intermináveis, minha mãe me diz que posso pensar o que quiser.
Suas palavras não adiantam.
Vomito sem parar no carro de meu pai, após consulta com a psicóloga.
Os sintomas regridem, a vida segue, mas não consigo significar o curto circuito entre as palavras ditas e a intenção que carregam.
O ambiente intelectual é favorável: sou a segunda filha de um médico e de uma professora.
Quando faço treze anos, minha mãe recebe diagnóstico de depressão severa e é internada.
A partir desse evento meu pai passa a acreditar, piamente, que sou portadora de mesmo diagnóstico.
Tento fazer jus a aclamação de segunda deprimida da família: estudo e disciplina não somam dois em mim.
Aos dezesseis anos com auto estima baixa, dificuldade de relacionar-me e medo do sexo oposto inicio meus processos de análise e inauguro minha vida sexual.
Aos dezoito anos, orientada por minha mãe, opto pelo curso de Psicologia na Universidade Santa Úrsula.
Descubro a psicanálise e a possibilidade de amar: embora assustada, reconheço minha capacidade intelectual.
Durante a graduação, Freud e Lacan entram na veia por transfusão e o desejo de saber dispara com força incalculável.
Tenho a sorte de ser a eles introduzida por Enaide Barros.
São os idos de 1980 e já estou no meu segundo processo de análise.
Resolvo submeter-me a teste de avaliação para ingresso no curso de pós graduação em psicanálise na própria Santa Úrsula.
Sem limite de vagas o teste era pro forma e dispunha-se a verificação mínima da condição subjetiva dos candidato.
O teste consistia em uma redação livre após a projeção de um filme.
Encantada com a ousada proposta, saí feliz e muito segura com minha produção escrita.
Continuaria a não apreender a relação entre as palavras ditas e a intenção que carregam?
Após pedido de revisão, fui admitida, mas o impasse institucional serviu, seriamente, ao propósito de ratificar o impasse que até, ali, sustentara-me: há um abismo inalcançável entre o que se ouve e o que se diz.
Tinha 25 anos e trazia comigo a insegurança de uma intensa e extensa experiência subjetiva.
Se a escrita ato não é, corporativamente, aceita, pelas escolas de psicanálise, como forma de sua transmissão, não poderia, nelas, ingressar-me.
Parti levando comigo a certeza de continuar a submeter-me a experiência psicanalítica.
Durante trinta anos não mais li a respeito, apenas, sustentei-me a partir do saber que dessa prática emergiu.
Em 2013, após meu quarto processo analítico, senti vontade, outra vez, de enlaçar-me institucionalmente.
Fui aceita no curso de especialização clínica da Puc e, em seguida, no Campo Lacaniano do Rio de Janeiro.
Iniciei meu quinto processo de análise e o saber de Maria Anita Carneiro Ribeiro, no lugar de analista, exerceu função única no meu.
Durante esse bom encontro, a psicanálise ganhou corpo em mim, nasceram os “Olhos de Gato”.
A passagem pelo Campo Lacaniano foi curta, e fértil, comme il faut: ao discurso psicanalítico, cabe, apenas, a apreensão do ato, o resto é letra morta.
Sobre o envio dessa revista?
Estou saboreando os artigos, taking my time (“Uma poética do desligamento” de Adriana Barbosa Pereira é um texto lindo e tocou-me profundamente).
Quem regula a hora e o tamanho do passo se há um tempo e um espaço, intransponíveis, entre o saber de quem escuta e a verdade de quem diz?
A separar o discurso do ato há um saber não dito sobre a diferença sexual e a ética que o sustenta.
Ainda, nos Olhos de Gato, estarei a reter a pressa.
Se na carta de amor, o emissário e o destinatário são incógnitos diante das palavras que a tentam dizer, a intenção do saber, que a carta suporta, sim, é clara, e está, no ato do envio.