Considere isto um relato pessoal. Não é um texto jornalístico, não é um desabafo. Sei lá o que é. Vamos conversar? O clima tá escroto. Você acorda e o seu dia fica azedo. Há algo que se parece com um dia de Copa do Mundo. Há algo que faz parecer carnaval. Há o trânsito. E quando você vê, está se sentindo mal. Quer voltar pra casa. Não quer falar, não quer discutir, quer voltar a dormir. Sente alguma coisa ruim por dentro. E aí você acaba fechando a cara, se enfiando num cinema, saindo do grupo de whatsapp e termina o dia entorpecido. Se você já está gritando ou me xingando, me achando um imbecil, um arrogante, um filhinho de papai, eu já te perdi. Uma pena, adeus.
Sigamos com quem ficou.
Me considero uma pessoa decente. Sou um cara legal se você me conhecer.
Acredito no diálogo, na conversa, no entendimento. Não sou de briga. Isso, meus amigos, é um ato político.
Você não gosta de política? Isso é um ato político.
Eu faço política. Modestamente. Cotidianamente. Em casa, no trabalho, na família, com os amigos, na internet. Um sorriso é política. Um confronto é política. Evitar o confronto também.
A Coca-Cola faz política. O Facebook faz política. A minha esposa faz política.
E você, por mais que negue, faz política.
Política é todo ato que influencie na pólis, na cidade, na sociedade.
Até mesmo a ausência de ato é um ato que vai gerar consequência no círculo social e portanto, é um ato político.
Este texto é um ato político.
E o ponto aqui não é esquerda ou direita. Eu me considero de esquerda. Tudo bem você ser de direita. O que me assusta não é a orientação ideológica. É o ódio. A ignorância. A negação da política. Porque aí vamos pra onde? Apanhe um livro de história e me aponte um momento em que ódio ou negação da política deu em alguma coisa boa.
Precisamos de um salvador da pátria? Existe salvador da pátria, gente?
Por que abominamos a classe política? Porque são todos corruptos? E nós, não somos?
O que é, de fato, a corrupção? É só o que não pode na lei? Mas quem faz a lei? E talvez mais importante, quem patrocina a lei?
E a ética, é além da lei?
E eu? E você? Não nos beneficiamos por vezes de um sistema corrupto, de uma sociedade desigual? Qual é a diferença de nascer onde eu nasci e onde você nasceu? Eu me beneficiei disso? Ainda estamos falando de corrupção?
Crescemos com essa ideia, de que político é tudo ladrão e ninguém presta. Este é um país com mais de 500 anos de História, será que as coisas não são um pouquinho mais complexas do que fulano é bonzinho e fulano é malvado? Fulano rouba e fulano não?
E o sistema? Isso tudo não é um espelho nosso?
E aí quebramos o espelho? Ou mudamos a imagem?
Eu estou tão cansado quanto você, eu estou tão puto quanto você, tão decepcionado quanto você.
Sabe o que seria legal? Se em vez de abraçarmos o senso comum, valorizássemos o debate. Debate em todo lugar, ideias contraditórias, discordâncias. Como seria bom abraçar esse equilíbrio. Disputar esse território.
Paremos pra pensar: negar a política, dar um reboot, afundar o barco (onde estamos todos juntos!), interessa a quem? Ideias vazias, absolutas, ausência de complexidades, de nuances, interessa a quem?
A política pode ser um pé no saco. Tem que ceder aqui pra ganhar ali, perder um dia, ganhar outro, negociar, articular, leva tempo... Mas não é assim a vida? Estar vivo não é um ato de resistência? Não é um ato político?
Não há saída. A saída tem de ser política. Que a alternativa é incrivelmente sombria.
Horace and Pete, ou o que acontece quando um autor brilhante tem liberdade criativa
Com quase trinta anos de carreira, Louis CK ascendeu nos últimos dez pra se tornar hoje um dos maiores comediantes dos EUA. Com um humor que mistura uma afiada crítica social com pitadas de escatologia, CK lota arenas pelo país e mais: consolida-se como um dos grandes autores da cultura estadunidense atual. Chego a compará-lo a Woody Allen.
Allen começou como comediante de stand up e eventualmente saltou para o cinema como criador, inicialmente com comédias ligeiras, passando para comédias de costumes e sempre em busca do drama perfeito.
Em comum com Louis CK, Woody tem Nova York, ‘Blue Jasmine’(em que trabalharam juntos), além das referências europeias, o gosto pela melancolia e o apreço pela liberdade criativa total.
Pouquíssima gente pode se gabar de ter liberdade criativa total em Hollywood. CK só topou fazer sua premiada série ‘Louie’ quando os executivos da FX toparam lhe dar o dinheiro e só conferir o resultado no ar.
Agora, com a conta bancária inflada pelas apresentações de stand up - cujos ingressos não passam de 45 dólares por exigência do próprio - CK investe no projeto mais ousado de sua vida. Há seis semanas ele lançou, sem alarde, sem aviso, e sem qualquer divulgação, sua nova série, ‘Horace and Pete’.
O conteúdo só pode ser comprado pelo site do autor (o primeiro episódio é 6 dólares, os outros saem por US$3 cada - não há legendas) e a intenção do lançamento na surdina era justamente que o público pudesse ter acesso à serie sem um filtro prévio de publicações como essa aqui.
Mas em seu último email, o moço conclamou que os fãs fizessem o boca a boca, então me permito escrever para divulgá-la. Porque ‘Horace and Pete’ é incrível.
O elenco conta com Steve Buscemi, Jessica Lange, Edie Falco (Os Sopranos), Alan Alda, além do próprio CK, que além de atuar, escreve e dirige. É uma série multi-câmera, uma espécie de sitcom dramática, mas com o tom, o tempo e a cara de teatro, emulando os grandes dramaturgos dos EUA como Eugene O’Neill, Arthur Miller e Tenessee Williams. A trama gira em torno de uma família gerenciando um bar de mais de 100 anos no Brooklyn, e a trilha sonora consiste em apenas uma triste e bela canção assinada e interpretada por Paul Simon.
Com liberdade total, CK se permite fazer episódios com a duração e o formato que quiser. Um dos capítulos restringe-se a uma conversa entre dois personagens, com grande parte dedicada a um monólogo interpretado em uma tomada de mais de dez minutos, sem cortes.
Numa época em que os formatos para televisão e internet são discutidos e repensados por grandes produtoras de conteúdo, Louis CK lança um produto artesanal, totalmente independente, misturando internet, TV e teatro, e com liberdade criativa total.
Depois de mergulhar no Festival do Rio, deixo aqui minhas recomendações aos leitores que estiverem por São Paulo de 22/10 a 4/11.
== Primeiro separei cinco títulos que pude assistir e que são tiros certos, coisa fina, só do bom:
- Olmo e a gaivota
É o novo trabalho de Petra Costa (’Elena’), aqui assinando a direção em parceria com Lea Glob. Vencedor do prêmio de Melhor Doc no Fest Rio, é difícil definir este filme como um doc, já que tanto cineastas quanto atores borram linhas de ficção para brincar de realidade. Mas quando se encontram poesia e verdade, Tchekhov e Théâtre de Soleil, Serge e Olivia, ninguém mais se importa com rótulos ou gêneros.
- Paulina
Não vou postar um trailer aqui. Recomendo fortemente que o amigo leitor vá ao cinema sem saber nada. Confie em mim. No caso desse filme, mesmo as sinopses são traiçoeiras. Segue uma fotinha.
Vou só dizer que o longa argentino de Santiago Mitre é uma corajosa provocação sobre verdade, justiça e os ciclos de violência. Um soco no estômago.
- Mate-me por favor
A estreia de Anita Rocha da Silveira em longas lhe rendeu o Redentor de Melhor Diretora (empatada com Ives Rosenfeld, por ‘Aspirantes’, também em cartaz na Mostra). ‘Mate-me...’ é uma história com tons de David Lynch, seguindo um grupo de adolescentes às voltas com hormônios e um serial killer, numa Barra da Tijuca entre grades e terrenos baldios, misteriosa e quase distópica. Prêmio de Melhor Atriz no Fest Rio para Valentina Herszage.
- Boi Neon
Considerado o Melhor Filme no Rio, este é o trabalho mais recente de Gabriel Mascaro (’Domésticas’ e ‘Ventos de Agosto’), cineasta pernambucano, aqui disposto a construir e retratar um novo nordeste no cinema, repleto de cores e contradições. Hipnótico em sua fotografia (Diego Garcia, premiado no Rio), ‘Boi Neon’ ainda levou os Redentores de Melhor Roteiro (para o próprio Mascaro) e Melhor Atriz Coadjuvante (a jovem Alyne Santana, empatada com Julia Bernat, de ‘Aspirantes’).
- Futuro Junho
Uma das grandes documentaristas em atuação no Brasil, Maria Augusta Ramos (Melhor Diretora de Doc no Fest Rio) retrata aqui personagens de São Paulo às voltas com a abertura da Copa do Mundo de 2014. Com seus quadros bem construídos, é fantástica a intimidade e a naturalidade com que a cineasta - realizadora de ‘Justiça’, ‘Juízo’ e ‘Morro dos Prazeres’ - consegue apresentar seus retratados.
=== Agora cinco apostas, filmes que eu não vi, mas correria pra ver se fosse você:
- Seca
Falando em Maria Augusta Ramos, ela também aparece na Mostra com esse trabalho, sua primeira experiência documental fora de um grande centro urbano, estudando aqui a escassez de água em uma região em que as pessoas convivem com o problema de forma aparentemente endêmica.
- A bruxa
Reza a lenda que este é um dos filmes mais assustadores dos últimos tempos. Prêmio de Melhor Diretor em Sundance, para Robert Eggers.
- Beira-mar
Não consegui pegar este filme, mas ouvi falar muito bem. O longa segue dois jovens amigos numa viagem ao litoral, num fim de semana de inverno. Prêmio de Melhor Filme da mostra Novos Rumos do Fest Rio.
- Monty Python - O sentido da vida ao vivo
Depois de 34 anos separados, os meninos do Monty Python se reuniram para uma série de espetáculos num estádio, em Londres. Esse doc mostra os bastidores do evento, além de trazer um inédito material de arquivo.
- Dheepan - O refúgio
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes neste ano, ‘Dheepan’ acompanha três refugiados que fingem ser uma família para se manterem em solo francês.
** E mais:
Quem estiver por SP pode ainda prestigiar o editor do ORNITORRINCO, ele mesmo, Gabriel Pardal, protagonizando o filme mais quente da Mostra, Tropykaos! Avoa, Pardal! Avoa!
Estrelado pelo pedaço de homem chamado Matthias Schoenaerts, esse é um filme que fica no meio do caminho. Tentando combinar o drama interno do protagonista - um militar das Forças Especiais que retorna do Afeganistão com problemas psicológicos - com uma narrativa de suspense - ele assume um trabalho de segurança cuidando da família de um rico empresário - a cineasta Alice Winocour não concretiza nem uma coisa nem outra.
No fim, ambos níveis da história se mostram pouco desenvolvidos, resultando num longa bem filmado, porém vazio, rodando em torno do próprio rabo e não chegando a lugar nenhum.
== A rua da amargura ==
Filmado de forma estupenda por Arturo Ripstein - um mestre cujo trabalho eu desconhecia - ‘A Rua da Amargura’ retrata um universo marginal numa Cidade do México dos dias de hoje, mas que poderia facilmente ser uma Itália pós-guerra.
Pois tudo nesta produção mexicana emula neo-realismo italiano. Das atuações, ao clima de tragédia cotidiana, aos personagens retratados por Ripstein num caleidoscópio de gente perdida, rejeitada e numa vida sem saída, com um destino traçado.
A história é baseada em fatos reais, o caso da morte de dois irmãos anões, lutadores mexicanos, em 2009. E pra isso, o diretor contou com a incrível fotografia em preto e branco de Alejandro Cantú, num trabalho de câmera de fluidez e explorando ao máximo as luzes, sombras e reflexos que os apartamentos e as ruas da rua onde se passa o filme oferecem.
Ainda há uma sessão hoje:
Quarta, 14/10 19:00 Kinoplex São Luiz 1
== Mia madre ==
É difícil falar mal de ‘Mia Madre’. Pois trata-se de um filme sensível, um trabalho sério, talvez até autobiográfico da parte do realizador italiano Nanni Moretti. E pensando sobre ele agora, realmente há um sentimento muito humano que o percorre, afinal este é um filme sobre a perda, sobre a mudança, a morte, que acompanha uma cineasta experiente tendo que trabalhar com um ator de Hollywood enquanto termina seu novo filme, ao mesmo tempo em que lida com a deterioração da saúde de sua mãe.
O fato é que sempre vou acompanhar os trabalhos de Moretti e sempre saio um pouco decepcionado - tudo bem que não assisti ao que acho que é considerada a sua obra-prima (’O quarto do filho’).
Não me entenda mal, este ‘Mia Madre’ é um bom filme - premiado em Cannes pelo Júri Ecumênico -, e lida com a morte de uma forma honesta, porém algo leve e cotidiana, além de contar com presenças dedicadas de Margherita Buy e Giulia Lazzarini - além de um John Turturro encantador com seu charme envolto à muita insegurança e vulnerabilidade.
No entanto, a sensação de decepção apareceu mais uma vez. Mas aí talvez seja mesmo problema meu, não do filme.
Ainda há uma sessão hoje:
Quarta-feira, 14/10 21:00 Estação NET Ipanema 1
== Mon roi ==
‘Mon roi’ (Meu rei, na tradução) é o ‘Azul é a cor mais quente’ do casamento.
Escrito e dirigido pela também atriz Maïwenn (’Polissia’), conta a história do relacionamento entre Giorgio e Tony, e tem como maior trunfo justamente seus dois atores principais, Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot, absolutamente arrebatadores - Bercot, que trabalhou com a diretora Maïwenn em ‘Polissia’, venceu o prêmio de interpretação feminina em Cannes, empatada com a estadunidense Rooney Mara (vencedora por ’Carol’).
Com um ritmo avassalador, Maïwenn consegue que o espectador seja sugado para dentro da relação de Tony e Giorgio, e especialmente, envolvido pelo personagem de Cassel, um ator capaz de transformar o ‘rei dos canalhas’, como o próprio Giorgio se define, em uma criatura tridimensional com suas questões, defeitos e qualidades.
Na pele de uma personagem levada às raias da insanidade por uma relação abusiva, porém sempre consentida, Emmanuelle Bercot se entrega de corpo e alma ao retrato de Tony, quase uma viciada às voltas com um objeto que ao mesmo tempo lhe faz bem e lhe destrói.
“Você sabia quem eu era, sabia o que estava procurando. No fim das contas, a mesma coisa que te atrai te faz querer ir embora”, Giorgio coloca, com uma verdade que dói na alma.
Intenso, humano e apaixonado, ‘Mon roi’ é doído, e ainda conta com uma participação encantadora de Louis Garrel, iluminando a tela em cada uma de suas cenas como o irmão de Tony.
Depois de ter assistido a ‘César deve morrer’ há alguns anos, eu veria qualquer coisa dirigida pelos irmãos Vittorio e Paolo Taviani, que eu conheci por demais tarde nesta vida.
‘Maravilhoso Boccaccio’, seu novo novo trabalho depois de ‘César...’, não chega a ser uma obra-prima, mas tampouco é ‘qualquer coisa’.
Adaptando cinco das cem histórias do ‘Decamerão’, os veteranos de 86 e 83 anos, respectivamente, fazem um filme bonito, luminoso e divertido.
O único porém é que, sendo os contos de Boccaccio tão bons, é uma pena que haja apenas cinco deles, enquanto tanto tempo de tela é dedicado à narrativa que liga as histórias - também adaptada da premissa do Decamerão - seguindo um grupo de dez jovens em fuga de uma Florença assolada pela Peste Negra, na Idade Média. Fosse mais enxuta toda essa parte, uma dose a mais de Boccacio não faria mal a ninguém.
Próxima sessão:
Terça, 13/10 19:00 Cinepolis Lagoon 2
== Tudo que aprendemos juntos ==
Apesar de uma estrutura esquemática, que em muito remete a tantas outras histórias do professor que alcança redenção ensinando um grupo de rejeitados, é o coração de ‘Tudo que aprendemos juntos’ que faz a diferença.
As sequências de música são excelentes. E é possível sentir a paixão por trás do projeto, especialmente nas performances dos estudantes e de Lázaro Ramos, um protagonista algo introspectivo e solitário, que em momento algum abraça qualquer tipo de heroísmo em sua jornada.
Preparados por Fátima Toledo (’Tropa de Elite’, ‘Cidade de Deus’) e dirigidos por Sérgio Machado (’Cidade Baixa’), um incentivador da improvisação no set, os jovens que interpretam os integrantes da orquestra de Heliópolis iluminam a tela em suas participações, com especial destaque para Kaique Jesus (o menino Reginaldo, de ‘Linha de Passe’) e o estreante Elzio Vieira.
Curiosidade: aos antigos fãs de Cavaleiros do Zodíaco, fiquem de olho em uma rara participação do ator e dublador Hermes Baroli, interpretando aqui o amigo do personagem de Lázaro Ramos.
Próximas sessões:
Terça, 13/10 16:30 Kinoplex São Luiz 1
Terça, 13/10 21:30 Kinoplex São Luiz 1
== O clã ==
Recomendo que o leitor não procure saber muito sobre ‘O clã’ antes de ir ao cinema. Mais uma vez, fuja das sinopses e dos trailers. Quanto menos você souber, melhor. Nessa linha livre de spoiler, posso dizer que é uma história baseada em fatos reais, que se passa no fim da ditadura militar argentina, e envolve desaparecidos políticos.
O novo filme de Pablo Trapero (’Abutres’, ‘Elefante Branco’, ‘Leonera’), premiado em Veneza por sua direção, é corajoso e ousado em sua abordagem. Trapero é seguro e arrojado na condução da trama, mergulhando o espectador no dia a dia de uma família com uma história incrível, ainda que deixe determinados furos no caminho (entre alguns pontos que deixam a desejar, há o retorno de um dos filhos, por demais mal contado).
Há ainda uma performance absolutamente arrebatadora de Guillermo Francella, ator de um carisma que, em determinados momentos, chega a ser assustador.
Vencedor do Prêmio do Júri de Cannes, ‘The lobster’ trata de uma sociedade futurista em que solteiros (e viúvos, e divorciados) são enviados a um hotel. O recém-chegado pode cadastrar-se como hetero ou homossexual – o bissexualismo foi abolido por causar problemas operacionais. Homens e mulheres são vestidos de acordo com um mesmo padrão, e quem não se apaixonar em até 45 dias será transformado em um animal.
Capitaneando essa história está o grego Yorgos Lanthimos, cujos trabalhos anteriores eu desconheço, mas que aqui demonstra segurança e autoralidade, encontrando seu próprio estilo em meio a referências a Wes Anderson e Stanley Kubrick.
O resultado é uma espécie de ficção científica de humor negro, altamente sarcástica, e algo romântica, que surpreendentemente funciona, formando uma alegoria que investiga o casamento, as relações, o amor, e a imposição de determinados valores morais sobre uma sociedade.
Ainda vale menção à qualidade do elenco (‘The lobster’ é estrelado por Colin Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, John C. Reilly e Ben Whishaw), além da fotografia e direção de arte inspirados.
Não há mais sessões de ‘The lobster’ no festival.
== Anomalisa ==
Este pra mim é um dos filmes do ano.
‘Anomalisa’ é o novo trabalho de Charlie Kaufman, roteirista de filmes como ‘Quero ser John Malkovich’, ‘Adaptação’ e ‘Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças’.
Eu fui ao cinema assistir a esse filme sem saber nada sobre ele, a não ser que era a nova experiência de Kaufman na direção, sete anos depois de ‘Sinédoque, Nova York’.
E por isso recomendo ao leitor que faça a mesma coisa. Tire 90 minutos da sua vida para assistir isso. Há mais quatro sessões, dá pra comprar ingresso aqui.
No meio do caminho entre ficção e realidade, ou além de todas as noções de ficção e realidade, está esse novo trabalho de Petra Costa (’Elena’).
'Olmo e a gaivota’ é simplesmente apaixonante. O projeto acompanha dois atores do Théâtre Du Soleil às voltas com uma gravidez e os ensaios para uma montagem de ‘A Gaivota’, de Tchekhov.
De início o espectador pensa se tratar de um documentário. No meio do caminho, passamos a questionar se o que estamos vendo é vida ou encenação. E eventualmente, nos desapegamos e deixamos de nos importar para apenar nos deleitarmos com um estudo poético da maternidade, do amor e do ofício de interpretar, protagonizado por personagens cativantes (como não querer abraçar Serge e Olivia, e fazer parte do seu grupo de amigos, cada um de um canto do mundo, dançando, bebendo e cantando ao violão?).
Se ‘Elena’ era uma poderosa estreia em longas-metragens, ‘Olmo e a gaivota’ - aqui co-assinado por Lea Glob - vem para consolidar Petra como uma das cineastas mais interessantes de se acompanhar no Brasil.
Não há mais sessões de ‘Olmo e a gaivota’.
== Tudo vai ficar bem ==
Desde a primeira cena, há um problema sério com o novo filme de Wim Wenders. Este problema se chama James Franco. Não sou dos que o repudiam (nos EUA há quem o considere uma grande piada), mas aqui, possivelmente no intuito de interpretar um personagem que tem dificuldades em sentir e se afetar com o que acontece ao seu redor, Franco faz uma única expressão facial (a testa franzida), fala em sussurros, e age como se estivesse sempre sonolento, cansado ou entendiado. Na tela, há apenas vazio. Talvez funcionasse melhor com alguém mais carismático que Franco. Aqui, não funciona. Porque um personagem completamente desinteressante é difícil de seguir.
Ainda assim, há qualidades em ‘Tudo vai ficar bem’. Apesar da trilha sonora por demais intrusa, o fotógrafo Benoît Debie filma lindamente, algumas cenas se sobressaem (como o reencontro entre o protagonista e a personagem de Rachel McAdams), sem falar que a montagem da sequência do telefonema entre Franco e Charlotte Gainsbourg - aqui desperdiçada - é especialmente inspirada.
O curioso é que, em seus primeiros dois terços, ‘Tudo vai ficar bem’ parece totalmente equivocado, com saltos temporais abruptos, cenas que não chegam a lugar algum e um sotaque francês inexplicável para Rachel McAdams.
No entanto, o filme, que segue um escritor cuja trabalho parece crescer e melhorar após um acidente de carro, ganha um pouco de força no seu terço final, quando finalmente encontra uma dinâmica interessante na relação entre o protagonista e um outro jovem. A partir deste momento, as escolhas de Wenders parecem fazer mais sentido, como se ele estivesse desenvolvendo uma narrativa literária no cinema, desviando-se das convenções dramáticas de um longa de duas horas.
Não é o bastante, mas poderia ser, fosse outro o ator no posto principal.
Premiado em Cannes, o longa argentino de Santiago Mite (colaborador frequente nos roteiros dirigidos por Pablo Trapero) é um murro na moral. Não é bom saber muito da história antes de assistir ao filme, por isso não vou postar aqui o trailer - é bom também fugir das sinopses.
Numa descrição sem spoiler, este filme acompanha uma advogada de classe média, filha de um juiz, que decide largar a carreira para trabalhar num projeto de educação no campo, na fronteira da Argentina com Paraguai.
Produzida por Walter Salles, ‘La Patota’, no original, é uma refilmagem de um longa argentino de mesmo nome, dirigido por Daniel Tinayre. Se sua temática é polêmica e complexa para os dias de hoje, imagino sua recepção em 1960, quando o original foi lançado (ele está disponível no Youtube aqui).
O que mais impressiona em ‘Paulina’, além das atuações viscerais, é a sobriedade da discussão sobre o que é a verdade, o que é justiça, e a diferença entre um e outro. Há vários pontos de vista em questão, há muito a ser discutido e defendido por todos os lados, e o longa coloca o espectador como a única parte testemunha das diferentes perspectivas acerca dos acontecimentos da história.. Encabeçando a batalha retórica estão Dolores Fonzi (’Plata Quemada’, ‘O crítico’) e Oscar Martínez (o pai milionário de ‘Relatos Selvagens’), cujas cenas juntos, em especial as que abrem e fecham o filme, são uma aula de interpretação, roteiro e fotografia por si só.
Não vamos falar tanto de Paulina agora. Assista, e aí conversemos.
Próximas sessões:
Domingo, 11/10 21:15 Estação NET Botafogo 1
Terça, 13/10 19:10 Estação NET Ipanema 1
== Sicario: Terra de Ninguém ==
Considero Denis Villeneuve é um dos cineastas mais vibrantes atuando no norte da América nesses últimos tempos. Canadenese de origem, conquistou o mundo com ‘Incêndios’, e desde então ascendeu em Hollywood com ‘Os suspeitos’ (Prisoners) e o pequeno, porém precioso, ‘O Homem Duplicado’ - para se ter uma ideia de seu cacife atual, o próximo trabalho do cineasta deve ser a continuação de Blade Runner.
Aqui seguimos Kate Macer (Emily Blunt), uma agente do esquadrão anti-sequestro atuando no Arizona, que acaba recrutada por um agente do governo (Josh Brolin) para uma operação contra o cartel de Juárez. Quem também faz parte da operação é o misterioso Alejandro (Benicio Del Toro).
Ainda que ‘Sicario’ não seja um filme tão bom quanto seus três anteriores, Villeneuve surpreende, abordando um tema batido (o combate ao tráfico de drogas) da forma espinhosa que ele merece.
Em vez de uma sequência de ação descerebrada atrás da outra, o diretor equilibra momentos de tensão com desenvolvimento dos personagens. Kate Macer é eficiente, competente, mas seu trabalho a deixa em frangalhos, uma vulnerabilidade encarada de peito aberto por Emily Blunt.
Algo parecido acontece com o personagem de Benicio Del Toro, sempre fenomenal de se ver. A diferença é que Alejandro é mais eficiente, mais competente e suas tragédias são escondidas de forma mais profunda. Trata-se de uma figura complexa que cresce em protagonismo à medida que a narrativa se desenvolve - tanto que em Hollywood já se fala em um novo filme só para o seu personagem.
Há uma tensão incessante aqui, acentuada na trilha angustiante de Jóhann Jóhannsson e na fotografia do mestre Roger Deakins, com uma paleta de cores que vai das sombras de um mundo ‘dos lobos’ como diz - sempre do escuro - o personagem de Del Toro, ao amarelo arenoso, sinalizando que a maior das guerras em desertos é travada pelos estadunidenses em seu quintal de casa, na fronteira com o México.
Apesar de a história carecer de substância, é louvável como o diretor aborda com sobriedade as múltiplas variáveis no conflito, algo que um primo distante de ‘Sicario’, ‘Tropa de Elite’, não trabalhou tão bem.
No fim, vidas e famílias de todos os lados são destruídas, fronteiras éticas são borradas e ignoradas com aval oficial do país mais rico - e maior consumidor de drogas - no mundo, num espiral de violência sem fim, que agride rico e pobre, norte e sul, sublinhando a estupidez que é a política de guerra às drogas patrocinada e liderada pelos EUA.
Não há mais sessões pelo Festival, mas ‘Sicario’ deve estrear em breve no Brasil.
Sempre ouvi falar do documentário ‘Justiça’, de Maria Augusta Ramos. Mas nunca o assisti. Pesquisando para escrever sobre seu novo trabalho, ‘Futuro Junho’, descobri que ela realizou não um, mas três docs sobre justiça no Brasil (além de ‘Justiça’, há ‘Juízo’ e ‘Morro dos Prazeres’). E agora que finalmente conheci o trabalho de Maria, assistir a essa trilogia será a primeira coisa que eu farei ao fim do festival.
Em ‘Futuro Junho’, a documentarista segue quatro trabalhadores (um motoboy, um economista, um operário e um sindicalista dos metroviários), acompanhando suas vidas em São Paulo nas semanas que antecedem a abertura da Copa do Mundo de 2014.
O mais fascinante sobre o trabalho de Maria Augusta é a dicotomia do papel adotado pela câmera. Por um lado, os personagens e as cenas de suas vidas são registradas de uma maneira tão íntima que é incrível o nível de naturalidade com que essas pessoas se portam diante da lente. Estamos falando de um tipo de cinema documental onde a única interferência visível da cineasta, além da edição, é pra onde apontar a câmera. Não há entrevistas, narrações, ou interação com a câmera. É uma espécie de cinema direto, mas com um trabalho de extrema sensibilidade na fotografia (créditos para Camila Freitas e Lucas Barbi). Em alguns momentos, parece que estamos assistindo a cenas improvisadas por atores imersos em seus papéis.
E aí vem a dicotomia. Porque ao passo que ficamos impressionados com a aparente invisibilidade desta câmera diante dessas pessoas que parecem não se importar nem um pouco com ela ali, nos damos conta da importância de sua presença, tamanho é o poder dos registros colhidos em sequências como as confrontações de manifestações com a polícia ou as diferentes reuniões em família, que vão de uma bizarra conversa sobre comprar um espaço para sepultamentos no cemitério às discussões políticas e cotidianas à mesa de almoço ou jantar.
Falando através das imagens, Maria Augusta Ramos constrói uma análise de um momento ímpar na história do Brasil. Um documento poderoso.
Próxima sessão:
Sábado, 10/10 10:00 CCBB - Cinema 1
== Argentina (ou Zonda, folclore argentino) ==
Da mesma forma que sempre ouvi falar dos documentários de Maria Augusta, também sempre ouvi falar do trabalho de Carlos Saura, cineasta espanhol, hoje com 83 anos e em plena atividade, cujo trabalho possui um laço intrínseco com a música.
Em ‘Argentina’ ele passeia por ritmos, signos, danças e artistas do folclore argentino, criando um grande show-poema visual, encadeando uma sequência mais linda que a outra, entre duetos, violões, um encontro atemporal de Mercedes Sosa com alunos em sala de aula, uma homenagem a Atahualpa Yupanqui, entre outras sequências fabulosas.
Esta é uma das belezas de um festival de cinema. Muitas vezes sinto que o acesso facilitado a obras via download, DVD, etc, faz com que sempre deixemos pra depois aquele diretor ou filme de quem ouvimos falar tanto. E a oportunidade por tempo limitado de acompanhar um trabalho no cinema acaba se tornando a deixa para que façamos agora o que adiamos por tanto tempo.
Carlos Saura e Maria Augusta, prazer em finalmente conhecê-los.
No nordeste cinematográfico criado por Gabriel Mascaro em seu novo longa, 'Boi Neon', não há estereótipos. Os próprios arquétipos são desafiados. Um vaqueiro gosta de moda, corte e costura; outro é vaidoso, de cabelos longos e alisados; enquanto o caminhoneiro que os leva é, na verdade, caminhoneira, uma mulher rude porém de sexualidade latente, que também se apresenta numa espécie de cabaré do interior, com uma cabeça de cavalo.
Este é um filme sensorial, mais sobre personagens e ambiente do que sobre uma história propriamente dita. Nisso, pode possuir um parentesco de segundo grau com o também pernambucano ‘O Som ao redor’.
E se o universo de ‘Boi Neon’ surge tão fascinante é por conta da concepção de Mascaro - também o roteirista do projeto - mas também de seus colaboradores. A fotografia de Diego Garcia é fabulosa, alternando quadros parados cuidadosamente compostos e movimentação elegante e fluida, além de uma iluminação que cria algumas sequências hipnóticas e outras hilárias.
O elenco é primoroso. Há uma química algo de família, algo de bando entre os personagens de Juliano Cazarré, Maeve Jinkins, Alyne Santana, Carlos Pessoa (um ladrão de cenas) e, mais tarde, Vinicius de Oliveira.
Num bate-papo pós-filme, Mascaro disse algo revelador sobre sua concepção de nordeste para o projeto:
- O nordeste no cinema brasileiro sempre foi um lugar de onde as pessoas queriam sair. Esse nordeste de ‘Boi Neon’ não. Essas pessoas estão ali e não querem sair, e vão ficar. E é isso. Penso no personagem do Vinicius de Oliveira, por exemplo. É como se fosse o personagem de ‘Central do Brasil’ que ficou por aqui, como se pudéssemos ver como ele vive depois de todos esses anos.
No fim das contas, ‘Boi Neon’ se mostra uma obra provocadora, onde não há julgamentos, só ambiguidade e contradições expostas e reveladas.
== Francofonia ==
Em seu novo filme, o mestre russo Alexandr Sokurov vai a Paris poetizar sobre o Louvre, sua importância e o momento delicado por que passou durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial.
Gosto muito do trabalho de Sokurov e admiro aqui como ele subverte documentário, ficção e metalinguagem. O final, por exemplo, é majestoso e simples se comparado ao refinamento do que veio antes. Mas confesso que fiquei um pouco cansado, apesar das belíssimas imagens e da harmonia com que o cineasta transita entre as linguagens.
Talvez tenha sido eu, talvez o cansaço, talvez o café não tenha sido forte o suficiente. Ou talvez tenha sido Sokurov mesmo.
== Stop ==
O coreano Kim Ki-duk tem fama de polêmico. Admirador de trabalhos anteriores como ‘Pietá’ e, especialmente, ‘Primavera, verão, outono, inverno e primavera’, fui conferir seu novo longa, ‘Stop’.
É difícil saber o que ele estava tentando aqui. Este é um filme basicamente amador, com um roteiro sofrível, sem lógica alguma, atuações terríveis e iluminação bizarra. E este filme foi escrito, dirigido, editado e fotografado por Kim, que é um cineasta premiado internacionalmente, com vinte anos de carreira, vinte filmes no currículo.
E no entanto ‘Stop’ parece um filme estudantil, no que isso tem de pior. É realmente muito ruim, e no decorrer de sua bizarra narrativa, sobre as consequências do desastre de Fukushima na vida de um casal, ainda que não passe de 90 minutos, torna-se literalmente uma tortura para o espectador, com um som escandalosamente nas alturas (tive que usar protetores de ouvido - mas aí pode ter sido problema do Odeon e não do filme)
Algo em mim tenta decifrar se houve uma tentativa de ironia ou cinismo de Kim Ki-duk em relação ao tema ambiental ou algo assim. Mas era melhor ter feito um filme de verdade.
Você ainda vai ouvir falar muito de 'Mate-me por favor'.
Transbordando maturidade, a cineasta Anita Rocha da Silveira estreia em longas-metragens com um filme ousado e corajoso, explorando de forma sombria e sinistra a adolescência nesta distopia chamada Barra da Tijuca.
Com tons de David Lynch (de quem a diretora e roteirista é fã confessa) e algo de David Cronenberg, 'Mate-me...' possui ecos de feminismo em seu mergulho nos descobrimentos, medos e, especialmente, pulsões da adolescência da protagonista Bia (uma forte presença de cena de Valentina Herszage) e é riquíssimo em símbolos visuais - há uma cena em que se discute o simbolismo na poesia de Augusto dos Anjos.
São várias as conquistas. Poderíamos falar da direção de arte de Dina Salem Levy e o uso inteligente da cor roxa, do elenco de química ímpar (o quarteto principal de meninas foi premiado em Veneza), do trabalho de som de Bernardo Uzêda, das músicas originais do Bonde do Rolê - e do uso do funk como um todo-, da fotografia de João Atala... Nas atuais circunstâncias, falta tempo.
Mas sem problemas. Ainda vamos falar muito sobre este filme.
Últimas exibições nesta segunda:
Segunda, 05/10 14:00 Kinoplex São Luiz 1
Segunda, 05/10 19:00 Kinoplex São Luiz 1
== 600 Millas ==
Também em seu primeiro longa-metragem, o mexicano Gabriel Ripstein alcança um resultado singular com seu ‘600 Millas’. Produzido e estrelado por Tim Roth, o filme é protagonizado, no entanto, por Kristyan Ferrer, um jovem contrabandista de armas que acaba tendo sua vida cruzada com a do agente Hank Harris (Roth).
O inglês é sempre um ator interessante de se acompanhar, e aqui ele compôe um policial experiente desgastado com olhares, corpo pesado e voz, e ele sempre ilumina a tela. Mas aqui ele divide o brilho filme com Ferrer, representando com extrema vulnerabilidade um jovem tentando de tudo para ser alguém que ele não é.
Há uma tensão permanente em ‘600 Millas’, filmado em quadros cuidadosamente compostos e planos sequência primorosamente realizados, com um tempo naturalista e sem trilha sonora. Premiado como melhor primeiro filme no Festival de Berlim, agora Ripstein vai representar o México na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro.
O diretor Rodney Ascher parece ter uma sensibilidade para a viralização. Depois do curioso ‘Room 237′ - onde investigava as diversas teorias em torno de ‘O Iluminado’ - aqui ele se mantém no terror, mas imerso em casos de Paralisia do Sono, outro tema com pinta de hit no youtube.
No entanto, neste segundo longa-metragem, Ascher dá um passo adiante no desenvolvimento de sua técnica documental. Enquanto ‘Room 237′ usava apenas o áudio das entrevistas para analisar o filme de Stanley Kubrick, ‘O Pesadelo’ ancora-se em oito depoimentos e faz uso de arrojadas encenações e dramatizações. O grande problema aqui é mesmo o tema.
Apesar da qualidade técnica, tudo me soou um pouco desinteressante. Não é assustador o suficiente, não é engraçado o suficiente e no fim parece levar-se a sério demais - o que por outro lado é até compreensível em respeito aos entrevistados que conduzem todo o documentário e que realmente sofrem com os episódios.
Próximas sessões:
Domingo, 11/10 13:45 Kinoplex São Luiz 2
Domingo, 11/10 18:45 Kinoplex São Luiz 2
Quarta, 14/10 16:00 Estação NET Ipanema 2
== Stand by for tape back up: Memória em VHS ==
É por filmes como esse que é fantástico acompanhar um festival de cinema.
Sabe aquela lenda de que se você rodar ‘Dark Side of the Moon’ junto com ‘O Mágico de Oz’ vai notar como há padrões e semelhanças intrigantes entre as duas obras, como se estivessem sincronizadas? O escocês Ross Sutherland parte desse experimento para fazer o seu próprio, voltando, pausando, avançando e colocando em câmera lenta as imagens capturadas da TV para uma velha fita de VHS herdada de seu avô, ao mesmo tempo em que reflete sobre suas memórias afetivas.
O resultado é uma criação experimental corajosa - o autor chega a deixar a tela azul, preta, em estática, e recorre exaustivamente ao mesmo trecho de imagens, repetido de novo e de novo, criando novos significados para uma sequência do clipe Thriller, um comercial, a sequência de abertura de Fresh Prince of Bel-Air, e entregando um pungente monólogo rico em metáforas e lirismo, versando sobre a vida através das imagens midiáticas que formam nossas identidades.
Sutherland, que também é poeta e performer, fez turnê europeia de uma versão do filme para o teatro, apresentada pela primeira vez no Festival de Teatro de Edimburgo.
Dirigido pelo estreante estadunidense Chad Gracia, que originalmente havia concebido a produção como um vídeo de 5 minutos a ser postado no Youtube para amigos e família, este documentário premiado em Sundance segue as investigações do artista ucraniano Fedor Alexandrovich para descobrir quem seriam os verdadeiros responsáveis pelo desastre de Chernobyl.
Alexandrovich é um grande personagem - alguns o chamam de louco, outros de gênio - e o filme não só o acompanha de perto em suas incursões pelas locações fantasmas da antiga usina nuclear e suas entrevistas com figuras da era soviética como consegue registrar de dentro as revoltas populares populares recentes na Ucrânia.
Com uma linda fotografia (o responsável, Artem Rhyzhykov, chegou a ser baleado pela polícia em uma das manifestações), “O pica-pau russo” só escorrega ao usar apenas o ponto de vista dos Estados Unidos em relação ao conflito, jogando toda a responsabilidade em cima das ações do governo de Vladimir Putin e deixando de lado o papel de Washington e União Europeia na turbulência local (que terminou com um golpe de estado derrubando um presidente corrupto e colocando no poder um grupo ultra-nacionalista).
Próximas sessões:
Terça, 06/10 18:00 Museu da República
Sábado, 10/10 21:15 Cine Arte UFF
Terça, 13/10 16:45 C.C. Justiça Federal 1
Quarta, 14/1015:30Instituto Moreira Salles
No ano em que o festival homenageia Orson Welles, minha programação pessoal começou por uma história que mereceria um lugar no documentário 'F for Fake', filme de Welles sobre artistas que tornaram-se notórios pelo caráter fraudulento de suas obras.
Com poucos recursos (enquadramentos feios, baixa qualidade técnica de vídeo nas entrevistas), a diretora Marjorie Sturm mergulha na incrível história de ascensão e queda de JT LeRoy, supostamente um prodígio escritor marginal que, depois de uma vida de abusos, prostituição e drogas, desponta como um fenômeno literário no início dos anos 2000.
Onde falta sofisticação ou mesmo ambição estética ou artística, no entanto, sobra humanidade, equilíbrio e honestidade, ao passo que o documentário assume a complexidade e aborda os diferentes pontos de vista sobre o caso - que se por si só já se trata de uma puta história, aqui ainda serve como combustível para uma instigante e relevante discussão sobre arte, mentira e a indústria cultural.
Próximas sessões:
Sábado, 03/10 19:15 C.C. Justiça Federal 2
Quinta, 08/10 14:00 Instituto Moreira Salles
Sábado, 10/10 14:00 Cine Joia
Quarta, 14/10 19:00 Estação NET Ipanema 1
= James Brown: Mr. Dynamite =
Alex Gibney é um prolífico documentarista, vencedor de um Oscar por Taxi to the Dark Side, e que já se debruçou sobre temas que vão do caso Enron às mentiras do agora infame ciclista Lance Armstrong. Seus dois mais recentes trabalhos com a HBO estão no Festival do Rio. Um é o polêmico 'Going Clear: Scientology and the Prison of Belief'. E o outro é esse doc de 2014 sobre o Godfather of Soul.
James Brown é foda e qualquer um pode concluir isso depois de assistir a esse, esse ou esse vídeo. O ponto forte de Mr. Dynamite então é a investigação da técnica de Brown, mostrando em sua narrativa os momentos que definiram a criação do soul e do funk, num estilo de música que marcou um tempo e influenciou gerações, de Michael Jackson e Prince ao nascimento do Hip-hop.
Com Mick Jagger entre seus produtores, o filme faz de um ícone uma figura complexa e tridimensional abordando muito brevemente sua conduta violenta em relação a mulheres, mas atendo-se bastante ao seu posicionamento político conservador, sua ambição e seu relacionamento com a banda.
Entre uma excelente compilação de imagens de arquivo, o maior tesouro talvez sejam justamente as entrevistas com seus ex-companheiros, um coroa mais carismático que o outro, se revezando em causos e detalhes sobre a tirania de Brown, mas sem nunca questionar sua importância para a música dos EUA.
O ponto fraco é que, possivelmente com receio de uma duração mais extensa (vale lembrar que é um projeto da HBO, ou seja, originalmente feito pra TV), o diretor decide por terminar o filme abruptamente, de forma corrida. Ainda que o próprio nome original (Mr.Dynamite: The Rise of James Brown) deixe claro que o filme é sobre a sua ascensão, este é um artista que merecia um pouco mais.
Um filme para ver de casalzinho. E depois ir pra casa foder.
Assisti ‘Love’ numa pré-estreia à meia-noite, sábado passado, sozinho, no Cinépolis Lagoon. Amo filmes à meia-noite. Adoro ir ao cinema sozinho. Não gosto tanto assim do Cinépolis Lagoon.
Depois de estranhar que a pré-estréia do novo filme do chocante, experimental e provocador Gaspar Noé (Irreversível, Enter the Void) fosse realizada no multiplex da Lagoa, fiquei intrigado ainda com público que vi chegando. Casais heterossexuais pegando o cineminha de fim de semana, com direito a pipoca e coca-cola. Imaginava que talvez estivessem ali mal orientados pela sinopse do jornal:
- Drama. Murphy recebe o telefonema da mãe de Electra, sua ex-namorada, que desapareceu há algum tempo. Ela teme que algo de ruim tenha acontecido. Ao longo de um dia chuvoso, Murphy fica sozinho no seu apartamento, lembrando-se da relação mais marcante de sua vida.
Esse tipo de sinopse deixa de informar ao leitor desavisado um detalhe importante: há muito sexo explícito em ‘Love’.
Segui minha apreensão, me perguntando se aquelas pessoas sabiam o tipo de filme que estavam para ver, enquanto acompanhava os inexplicáveis trailers de lançamentos infantis como ‘Peter Pan’ e ‘Shaun, o carneiro’ (!) e colocava meus óculos 3D - depois de Wim Wenders em ‘Pina’, Noé é mais um dos grandes do cinema autoral a experimentar o formato, e aproveita a oportunidade para (literalmente?) gozar na cara do público.
Um problema no projetor ainda estendeu minha ansiedade por alguns minutos. E eis que surge a primeira cena, um plano contínuo e explícito de masturbação entre os dois personagens principais. Até ele gozar.
O que se seguiu no cinema foi a constatação de meus preconceitos e problemas mentais. Não vi ninguém saindo da sala, nenhum risinho infantil, nenhum comentário. E aí talvez tenha percebido a perda de tempo de, ao menos naquela situação, questionar o motivo de aquelas outras pessoas estarem ali, fazendo a mesma coisa que eu.
E mais, eu mesmo estava mais preocupado com a reação das pessoas ao sexo, que eu sabia ser parte predominante do filme, do que com o filme em si. Ao menos a ficha caiu logo.
Porque ‘Love’ é um tremendo filme, fotografado lindamente por Benoit Debie e seus planos parados e personagens emoldurados entre cores, que comentam o momento (o verde do relacionamento quando começando, o vermelho do relacionamento em ruínas e do ressentimento, o amarelo da fantasia sexual, os tons pastéis do presente vazio).
A narrativa é toda masculina e pode ser acusada de ser sexista - as personagens femininas, aqui, existem mais como ramificações da existência do protagonista e tem menos espaço para desenvolver sua tridimensionalidade. Ao mesmo tempo, o filme todo é, em si, uma jornada pelos pensamentos e memórias do protagonista Murphy (Karl Glusman), o que, de certa forma, justifica o destaque e desenvolvimento maior para o seu personagem, uma vez que estamos vendo a história toda do ponto de vista dele.
E o sexo está diretamente ligado à maneira adotada para contar toda essa história. Do modo como é realizado, ‘Love’ é capaz de lançar o espectador no tornado de uma paixão, passando pela dor, o prazer, as fantasias, as experiências e a destruição que o amor pode causar. E é um dos filmes mais excitantes que eu já vi na vida.
Gaspar Noé parece ainda dizer que há algo de pessoal aqui. Ele mesmo atua como o ex-namorado de Electra (assinando Jean Couteau), e se coloca na narrativa ainda dividindo seu nome entre seu próprio personagem (Noé) e o do filho do protagonista (Gaspar).
Em um determinado momento, Murphy, um estudante de cinema em Paris, manifesta seu desejo de realizar um filme sobre o amor, mas com sangue, esperma e lágrimas. Minha visão é a de que Gaspar Noé fez justamente esse filme.
Um que, no Lagoon ou em qualquer outro cinema, no sábado à noite ou em qualquer outro dia, é perfeito para assistir de casalzinho.
É duro mudar. Já não conto mais nos dedos as vezes em que me peguei com aquele frio na barriga, diante de um penhasco metafórico, temendo me jogar. ‘É preciso pular para voar’, me dizia um professor de interpretação nos Estados Unidos.
Mas o medo sempre está por lá. Às vezes na forma deste embrulho, outras na procrastinação. Demorei uma hora, por exemplo, para começar a preencher esta página em branco que você agora lê. E por quantas outras vezes não deixei tudo de mais importante para o dia seguinte, sempre com fé de que amanhã eu vou fazer?
Há ainda as vezes em que bate a boa e velha preguiça. Boa, velha e mentirosa preguiça. Certa vez, outro professor de interpretação (mestre do primeiro a que me referi) me perguntou o motivo de eu sempre chegar atrasado às suas aulas. Eu disse que ia pra cama tarde, sempre dormia um pouco mais da conta e acabava perdendo a hora.
Ele perguntou ‘Por quê’? Eu respondi ‘Porque sou preguiçoso’. Ele emendou ‘Eu não acredito em preguiça’.
Ele estava certo. Aquela preguiça era medo. Medo de crescer, medo de mudar. Tamanho medo de não conseguir o que quer que se queira, que então melhor nem tentar. Talvez toda preguiça seja medo. Desde então, também não acredito na preguiça. Embora ainda seja preguiçoso.
Estou de volta ao Brasil, ao Rio de Janeiro, depois de dois anos morando em Nova York. É uma sensação estranha. Quando saí daqui para me mudar para outro país, sabia que ia voltar em dois anos. Agora, há uma semana, deixei Nova York. E não sei quando vou voltar.
Todo adeus tem um pouco de morte. Ainda que a morte seja um passo para um renascimento, uma nova fase, um novo momento. Ao deixar Nova York, eu me despedi de muitas coisas. Dos meus passeios de bicicleta, do supermercado de comida natural, dos parques, dos amigos, do jazz, dos teatros, das minhas sessões à meia-noite, dos meus lugares favoritos.
É minha última noite na cidade, assisto a uma sessão de ‘Veludo Azul’ no IFC Center, o cinema em que me senti em casa pela primeira vez na cidade, há dois anos, quando me deparei com aquele letreiro antigo na saída do metrô da West 4th St. E aí caminho por umas duas horas, cruzando ruas, entrando e saindo de bairros, esbarrando em bêbados do Village ao Lower East, mendigos em Midtown, e gente que anda na madrugada como se fosse dia. Entro em um pub, tomo um uísque sour e um mojito. O garçom irlandês me pergunta como foi o meu dia. Eu lhe digo que é minha última noite na cidade. Estou voltando para o Brasil. Ele diz que sente saudades da Irlanda.
Minha esposa diz que dois anos passam rápido. Ela diz isso há dois anos. Eu discordo. O tempo é sempre relativo. Nós só o percebemos ao passo que ele passa. Olhando pra trás, tudo parece rápido, curto. Porque já vivemos, estamos olhando para o que já foi e vivendo de lembranças e recordações. Enquanto adiante, nada é; tudo sempre está para ser. O futuro é uma luz que te cega quando você olha direto pra ela. E aí é como se houvesse todo tempo do mundo. Porque não se pode ver. Talvez o tempo seja a manifestação mais concreta da vida. Ou de Deus. Tal qual o futuro, Deus também só existe à medida em que acreditamos Nele.
Lembro de Shakespeare. ‘Sabemos o que somos, não sabemos o que poderemos ser’.
Agora estou no Brasil. O mesmo Brasil que defendi tantas vezes (inclusive aqui no ORNITORRINCO), saudoso que estava quando lá, feliz quando passava eu uma semana cá. Um amigo certa vez me contou uma piada cuja moral era: o inferno – e o paraíso também – são diferentes pra quem vem visitar e pra quem vem morar.
Se quando parti tive que me acostumar a tudo novo, bairro, cidade, apartamento, meio de transporte e modo de vida, aqui a vida segue a mesma. A mesma praia, o mesmo hortifruti toda segunda-feira, a mesma casa, a mesma avenida. É quase como se não tivesse ido. Como se tivesse simplesmente voltado de férias.
E entre tantos sentimentos misturados, descubro um verso de Fernando Pessoa que define esse pouco de morte e esse novo nascimento:
“Tudo é o mesmo afinal...
Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal”.
Eu estava no processo de seleção para os NY Neo-Futurists, uma companhia de teatro experimental em Nova York, e num intervalo do fim de semana de workshop um colega, também no processo, me disse:
- Eu fiquei surpreso de você ser o único não-branco da seleção. Eles normalmente tem mais diversidade.
Os Neos, com quem eu acabei trabalhando – não como performer, mas como estagiário – realmente tem uma composição plural e diversa. Entre o seu elenco há brancos, negros, gays, latinos, judeus... Mas naquela seleção eu era realmente o único ‘não-branco’. Mais importante: naquele dia eu compreendi que, nos Estados Unidos, eu não era branco.
Olhe a minha foto neste perfil. No Brasil, eu nunca me declararia diferente de branco. Acho que seria até ofensivo se o fizesse. Mas perspectiva é tudo, e nada como estar longe de tudo que você sempre foi para uma boa mudança de perspectiva. Porque com a consciência da minha ‘morenidade’ nos EUA veio uma ruptura com os paradigmas e as referências de uma vida inteira.
Quando criança, eu brincava de ser herói de filmes de ação. Eu fingia ser o Bruce Willis, o Van Damme, o James Bond. Todos homens brancos – no Brasil, nos Estados Unidos, ou em qualquer outro lugar. Hoje me pergunto, se eu fosse de fato um ator latino trabalhando nos EUA (o que não sou, e talvez nunca o tenha sido de fato), quais seriam os papéis que eu poderia almejar?
Provavelmente por um questionamento parecido, embora com muito mais experiência como ator nos EUA, Dylan Marron, um artista de origem venezuelana – e membro dos aqui já citados NY Neo-Futurists – criou um Tumblr que virou manchete do BuzzFeed dia desses. Em Every Single Word ele produz uma série de vídeos compilando todas as falas de personagens de cor (leia-se ‘não-brancos’) em determinados filmes populares americanos. O resultado são peças curtas que evidenciam o padrão Hollywoodiano em que atores de ascendência morena ou asiática são relegados a pontas ou estereótipos, muitas vezes com um personagem que sequer nome tem.
Quando questionado sobre possíveis propostas dos Estados Unidos, o argentino Ricardo Darín explicou em uma entrevista que recusou um papel em ‘Chamas da Vingança’, com Denzel Washington, por se tratar de um traficante de drogas. Wagner Moura já declarou ter recusado papéis semelhantes. Wagner acabou estreando em Hollywood em ‘Elysium’, onde interpretava um contrabandista. Agora encarna Pablo Escobar na série de José Padilha para a Netflix. Uma rápida olhada na filmografia de Javier Bardem e Rodrigo Santoro nos EUA mostra que eles também já fizeram suas cotas de traficantes, assassinos, criminosos e bandidos em geral, além do estereótipo do amante latino. E estamos falando apenas dos estrangeiros.
Lembro de uma outra entrevista, do ator britânico David Oyelowo, negro, na qual ele conta como falou ao filho sobre seu novo trabalho no cinema e, antes de lhe dizer que seria o protagonista, ouviu do menino: ‘Você vai ser o melhor amigo do personagem principal?’. Na mesma entrevista Oyelowo deixa claro: “A única maneira de eu pegar um papel protagonista num grande filme de estúdio é se o Ryan Gosling não puder ser fazer. Se for um papel que não necessariamente tenha que ser negro, não vai pra mim. Simplesmente não vai”. Em uma conversa com Charlie Rose, Oyelowo ainda vai mais fundo no problema, atestando como as poucas exceções que existem, como Denzel Washington, fazem a sociedade relaxar, e como os tomadores de decisão são uma das raízes do problema, por darem preferência a quem se parece com eles.
Se o estudo de Dylan Marron revela a escassez de papéis para atores ‘não-brancos’, há um teste mais famoso que desmascara o sexismo por trás das histórias contadas no cinema estadunidense. Um filme passa no Bechdel se for aprovado em três critérios: a) possuir pelo menos duas personagens femininas com nome; b) que falem uma com a outra em algum momento; c) sobre algum outro assunto que não um homem. E a quantidade de reprovados é assustadora.
As duas análises provavelmente não teriam resultados muito diferentes no Brasil. Apesar de as novelas oferecerem um equilíbrio na oferta de papéis para mulheres (brancas), negros e negras ainda são em forte quantidade escalados para personagens estereotipados ou com menor importância. Minha impressão é que, comparado ao que vejo na mídia dos Estados Unidos, ainda falamos muito pouco sobre o assunto, embora o façamos como nunca antes e cada vez mais. Não à toa, o documentário de ‘A negação do Brasil’, de Joel Zito Araújo, sobre o negro na teledramaturgia brasileira, segue super atual quase quinze anos depois do seu lançamento.
No entanto, voltando aos Estados Unidos, eis que no meio disso tudo surge o novo capítulo da franquia Star Wars, possivelmente o maior filme do ano. No lugar do trio de protagonistas brancos dos anos 70 (Harrison Ford, Carrie Fisher e Mark Hamill) ou dos anos 2000 (Ewan McGregor, Hayden Christensen e Natalie Portman), os produtores escalaram uma trinca formada por uma atriz branca (Daisy Ridley), um ator de ascendência latina (o guatemalteco Oscar Isaac), e um ator negro britânico (John Boyega). A escalação de Boyega como um Storm Trooper chegou a gerar uma breve polêmica racial entre alguns fãs da saga. O ator respondeu escrevendo no Instagram: ‘A quem se importa com isso, acostumem-se’.
E a democracia racial dos vindouros filmes da série parece ser uma linha que será seguida não só nos próximos episódios desta nova trilogia, como também nos filmes derivados, os chamados spin-offs. O primeiro deles, Star Wars Anthology: Rogue One, já tem no elenco a atriz Felicity Jones, além de Forest Whitaker (negro), Diego Luna (mexicano) e Riz Ahmed (britânico com ascendência paquistesa).
Foi divulgado o primeiro trailer do novo filme de Alejandro González Iñárritu (Birdman, Amores Brutos). ‘The Revenant’ é uma história inspirada em fatos reais, situada no início do século XIX e conta a jornada de vingança de um caçador de peles (Leonardo DiCaprio) traído e deixado para morrer por um de seus companheiros (Tom Hardy).
O filme marca mais uma colaboração de Iñárritu com o brilhante Emmanuel Lubezki, responsável pela fotografia de Birdman e dos últimos filmes de Terrence Malick, além de quase todos os trabalhos de Alfonso Cuarón (que por sua vez, é também parça de Iñárritu).
Em ‘The Revenant’, Lubezki filmou todas as sequências usando apenas luz natural. Stanley Kubrick e John Alcott fizeram o mesmo no clássico Barry Lyndon.
Já prevejo que esse título será um desafio para a tradução brasileira. Em inglês, revenant pode significar ‘alguém que retorna’ ou ‘alguém que retorna como um espírito depois da morte; fantasma’. Em Portugal, o título será ‘The Revenant: o Renascido’. Espere algo parecido por aqui.
The Revenant estreia no Natal nos EUA e, apesar de ainda não ter previsão, deve chegar ao Brasil em fevereiro do ano que vem.