Este pode ser considerado como apenas “mais-uma-carta-de-despedida-escrita-por-um-jovem-que-não-conseguiu-lidar-com-os-seus-problemas-de-vinte-e-poucos-anos”. Talvez seja. Mas, pelo menos para mim, ele tem um significado muito mais profundo que isso. Ele é o meu grito, o meu mais sincero pedido de desculpas, é a minha carta de abono por todos os meus crimes que cometi. Eu normalmente teria escrito essa carta na conversa privada que eu tenho no WhatsApp, um grupo apenas comigo mesmo e que tenho usado para desabafos mais honestos e que, nesse mundo urgente e efêmero, ninguém tem paciência pra ouvir ou ler. Mas acho que por aqui, eu consigo me expressar melhor. Espero que entendam.
Tudo começou, na verdade, desde o começo. E, quando digo o começo, digo pela minha infância. É um problema bastante grave os pais precisarem renunciar o tempo livre que podem ter com seus filhos para poder dar um conforto melhor justamente aos seus gerados. Não tiro isso da mente, em momento algum. Mas, pai, vamos ser honestos: poderíamos ter sido mais próximos. E digo desde lá de trás. Eu não me esqueço que o senhor fez o que pode para, por exemplo, me ver dançando quadrilha no meu Jardim 1. Mas será que realmente não deu pra você me ver em nenhuma festinha de dia dos pais no meu primário? Ou sequer nas minhas formaturas? Ou no meu Crisma, quando ainda me ligava pra religião? Custava me dar um abraço, de vez em quando? Custava, alguma vez na vida, dizer que me amava?
A minha mãe, pelo menos no começo, ela ainda me acompanhava. Mas também parou de me seguir. As visitas no ginásio eram menos frequentes, teve uma hora que nem nas reuniões do ensino médio ela passou a ir, também. Não me recordo quando que o amor maternal dela deixou de existir. Só sei que, quando me dei conta, ela também já não me abraçava mais. Não guardava mais aquela última fatia de pizza para quando eu chegasse do trabalho, altas horas da noite. O momento em que eu ficava mais próximo da minha mãe era apenas quando ela pedia para pintar seu cabelo. E apenas isso.
Não vou negar, o amor que tenho pela minha irmã continua inabalável. Mas ela tá crescendo e tenho observado que ela não tem me escolhido para contar seus problemas, suas histórias. E, com pais que não estão tão preparados para viver e aconselhar adequadamente à viver em um mundo tão louco quanto o que vivemos, não sei se ela vai conseguir crescer da melhor maneira possível.
Mas meus problemas também acontecem fora de casa. Por exemplo: não consigo fincar raízes em ninguém. Se a gente parar para observar, todas as pessoas com quem tenho me relacionado nos últimos tempos são pessoas que conheci há pouco tempo ou com quem “dei uma pausa” por um bom tempo e estão me dando uma chance. Tirando um casinho adolescente que durou cerca de um mês, eu nunca nem namorei, também porque não consegui fincar essas raízes em outra pessoa que tenha se interessado em mim. Tem sido um ciclo meio vicioso: eu conheço alguém, acho essa pessoa incrível, nos aproximamos, aí acontece alguma coisa que nos faz afastar e aí não nos falamos mais como antes. Algumas vezes, até que surge um “olá, quanto tempo!”, mas nada como antes. E isso acontece tanto com pessoas que quero ter um relacionamento sério, quanto com possíveis amigos. Tanto que eu nem tenho um melhor amigo. E, por mais que os outros tenham sempre as melhores intenções do mundo, minha cabeça neurótica ainda me faz duvidar se tenho amigos de verdade.
Mas, então, qual seria esse problema? O que faz com que tudo dê errado, com que ninguém me suporte, com que eu não consiga nem olhar pra alguém e falar “quero chorar”, nem mesmo meus pais?
É óbvio, o problema sou eu mesmo. Eu que decepcionei meu pai em escolher falar uma verdade que ele não queria ter ouvido. Eu que fui grosseiro e ingrato com minha mãe o tempo todo e que ela não me aguenta mais. Eu que não puxo um papo com minha irmã e não consigo ser amigo dela. Eu que sempre vacilo com as pessoas e sempre as afasto, literalmente sendo sempre um cuzão. Eu sempre arrumo um jeito de fazer as pessoas fugirem, por mais que eu sempre tenha boas intenções.
Sim, eu sei, o Karma deve estar apenas me fazendo pagar pelas coisas que fiz, principalmente no ensino médio, em ter entrado pra aquele Ask de fofocas. Se forem lá na página, vão ver logo que eu sou declarado como um dos moderadores, então não seria novidade pra ninguém. Eu falei mal de muita gente que eu amo. Simplesmente só por querer ver o circo pegar fogo. Então, porque caralhos eu vou querer apenas receber as coisas boas da vida? Acreditem: karma é real.
Mas, tirando isso, todo o resto das coisas que eu fiz foi com a mais sincera boa intenção. O problema é que a minha irritação, às vezes, faz as pessoas pensarem coisas que não são. E não as culpo por isso, se eu estivesse do lado de fora, pensaria a mesma coisa. Mas não é. E é isso que me arrasa completamente. Porque, por mais que eu fale, as pessoas nunca vão entender que eu realmente tenho sempre boas intenções. Porque as minhas ações fazem não parecer.
As pessoas não me merecem. Não merecem ter que compartilhar espaço com uma alma sem luz que só causa estragos ao seu redor. E seria muito egoísmo da minha parte falar que vou mudar, pra tentar aproximá-las novamente, porque eu sei que não vou. Se eu não mudei em 22 anos, isso porque sempre quis mudar, por que agora iria conseguir? Esse é um problema nativo em mim, eu estou demorando para entender que eu nasci para ser um lobo solitário. Eu nasci para fazer a minha própria vida, fazer meu próprio nome, e ser sozinho. Olhando em micro, isso parece ser algo ruim. Mas se a gente olhar em macro, entenderemos que esse é o melhor pra todos.
Não, não vou me matar (apesar de ter pensado muito sobre essa possibilidade). Eu não posso fazer isso porque tenho responsabilidades que, se eu optasse por morrer, acabariam por complicar a vida de muitas pessoas. E eu não quero dar ainda mais trabalho a elas. Não exagero em dizer que o meu trabalho hoje é o que me faz viver, porque, se não fosse por ele, eu não teria absolutamente nada pra me motivar a seguir em frente.
Enfim, é isso. Eu estou um pouco machucado, então dificilmente eu vou interagir com bom humor nos próximos dias. Desculpa, vai ser desconfortável, eu sei. Mas realmente não estou no meu melhor humor. E não vou conseguir disfarçar por enquanto.
O que posso dizer agora é que, por ter brigado com minha mãe e já não estar nada próximo do meu pai, estou saindo de casa. Queria já sair hoje, mas justamente como não tenho nenhuma pessoa próxima, não tenho pra onde ir. Vou vender meus ingressos no Rock in Rio e já ver um lugar pra ir. E... é isso. Desculpa qualquer coisa.