hectofayzer:
Hecto claramente lutou em vão. Com os pés e mãos amarrados a uma cadeira pesada, que não movia um centímetro sequer para os lados, resolveu equilibrar sua respiração ofegante e dar espaço para diminuir seu batimento cardíaco, eis que sua saúde debilitada deveria ser cautelosamente cuidada por ele. Havia se medicado há muito tempo e já estava na hora de tomar uma nova dose do seu Elixir da Vida. Nesses momentos se encontrava ainda mais vulnerável que o normal, quando se tornava mais débil e fraco. O estresse era responsável por fazer ainda mais mal a sua figura.
- Quem está aí? – Disse sem fôlego, inutilmente, ou ouvir uma movimentação diferente no local em que estava, quando a própria euforia começou a passar. Seu peito inflava menos a cada respiração, o coração desacelerava, mas a boca ainda seca e amarga. Uma gota espessa de suor escorria por seu rosto, era como se seu maior medo finalmente se concretizasse. Mais do que morrer, Hecto temia ser julgado pelas atitudes de uma época muito mais antiga. Ser reconhecido por sua maldade e ambições vãs o deixavam aflito, como se sentisse a mais genuína vergonha. Hecto odiava sua identidade anterior.
Olhos finalmente desnudos, sentiu-se cegar pela iluminação artificial, da qual havia se desacostumado pela escuridão do capuz. Certa vertigem o acometia, deixando-o nauseado e ainda mais confuso com tudo. Não era comum que se desequilibrasse tanto, mas precisava concordar que reações mais humanas possivelmente poderiam poupá-lo de alguma maldade maior no seu futuro próximo.
Contudo, finalmente, ao vê-la, aliviou-se pela ideia de que não se tratava de uma de suas maiores inimigas da antiga Gallica II, mas sim de alguém que tanto poderia matá-lo quanto deixá-lo ir.
- Ivy Opal? – Questionou, sem uma razão imediata para tal, dando um suspiro que significava seu alívio. – Claro… – Respondeu, olhando para baixo, depois erguendo o olhar ainda confuso. Hecto era um exímio mentiroso, mas havia optado por falar excepcionalmente a verdade para Ivy. Poderia sim fingir esquecimento ou até mesmo insistir para ela que era outra pessoa. Mas, naquele momento, ser sincero pareceu ideal. – Eu nunca me esqueceria. – Disse, endireitando-se na cadeira, olhando para os lados e avaliando todo o cômodo, somente para que, no fim, encarasse adequadamente os olhos iluminados de Ivy, que o atravessavam.
- Eu nunca me esqueceria. – Repetiu, agora concentrando-se no olhar dela, para demonstrar sua seriedade e duvidável honestidade. – Mas… Por que desta forma? – Questionou-a, tendo em vista a violência e também a cautela para com ele. – Poderia ter convidado a dividir uma garrafa de uísque com você. – Sibilou, com uma simpatia que não conseguiu segurar, transformando-a em deboche.
Ivy era, inegavelmente, uma voyeuse. Ela gostava, muito mais do que praticar o ato em si, de encostar-se em suas cadeiras caras e simplesmente assistir, como uma rainha observando o calor e o caos de seu reino em chamas. Suas preferências aplicavam-se para as outras áreas de sua vida, também – um prato bem feito, uma peça bem executada, um inimigo implorando por misericórdia. Infelizmente, e essa era a verdade dos fatos, se Yvette foi uma mulher misericordiosa um dia há muito não era mais.
Deixou Hecto debater-se contra as cordas por alguns minutos, perguntando-se até onde ele conseguiria ir. O chiado em sua respiração parecia aumentar na mesma proporção que sua energia diminuía; claramente, não estava tão intacto quanto ela pensava. Ainda assim, precisava tomar cuidado: não era a única predadora a rondar o país e não queria correr riscos.
Quando se deu por satisfeita em assistir o homem ofegar, puxou o capuz e deixou que a luz do quarto decrépito enchesse-lhe os olhos, assistindo-o com atenção. Queria ser vista, como gostava, e queria que ele entendesse com quem estavam as cartas. Seria mais fácil do que dar explicações à toa, pelo menos.
- Yvette Roebling, você quis dizer – corrigiu-o, com o ar de um gato orgulhoso. A muito tempo não respondia pelo antigo nome e, para todos os efeitos, Ivy Opal estava morta e enterrada – Eu sei que não, meu caro – afirmou, sorrindo. Por muito tempo, Hecto Lascius foi só mais um nome em sua lista de inimigos, só uma peça a ser descartada por meio do relacionamento com o tio, mas era necessário admitir que o homem é um adversário memorável. Ou, pelo menos, era.
Tomou o tempo que achou necessário analisando cuidadosamente a feição de Hecto, agora que o capuz estava fora. Não parecia ter envelhecido muito, mas a palidez e o ressecamento das feições indicavam que não estava no auge da juventude. Até mesmo os olhos pareciam um tanto amarelados; apesar de todas as precauções, Ivy não acreditava realmente que o homem conseguiria, fisicamente, lhe causar algum dano.
- É claro que poderia – acenou, sentando-se novamente na mesa e cruzando as pernas – Mas você, senhor Lascius, é mais escorregadio que um sabonete molhado. A um bom tempo estou tentando ter uma agradável tarde na sua companhia, mas, suspeito eu, que um convite formal lhe faria correr para as colinas. Mas se você se comportar, posso mandar trazer uma garrafa de uísque mais tarde – ofereceu, como um agrado que antecedia as palavras cruéis do interrogatório – Antes disso... Porque não me conta exatamente como você ainda está fora de uma cova, hm? Está muito bem conservado para um homem morto.













