opalyvette:
Então era verdade. Deprimente, mas verdade.
Ao que parecia, Ivy não era a única relíquia do passado a passear tranquilamente sob o sol de Gallica II. Não era a única, também, a inventar para si mesma uma nova identidade – afinal de contas, como poderiam justificar sua aparente imortalidade? Alguém, eventualmente, faria as perguntas certas.
Mas as semelhanças entre os dois paravam ali. Ivy tornara-se uma versão infinitamente melhorada de quem costumava ser; estava vivendo, definitivamente, o sonho galliciano. Já seu antigo… Conhecido? Nem tanto. Pelo contrário, ele parecia estar miserável; ainda assim, ordenou uma pequena visita. A curiosidade, como se costumava dizer, matou o gato, mas a satisfação o trouxe de volta.
Uma semana depois
O apartamento, enfiado atrás de um açougue, era positivamente nojento. Se não fosse a safehouse mais, digamos, segura de que conseguiu pensar, Ivy jamais teria colocado seus delicados e caríssimos pés naquela espelunca. Entendia a necessidade de ter diferentes tipos de esconderijos, para diferentes propósitos, mas honestamente repensava não ter ordenado que Hector fosse trazido para o cigar club. Pelo menos, o cheiro seria menos revoltante.
Esperando em uma antessala, a mulher ouvia os gritos e grunhidos revoltados de sua visita. Aguardou, pacientemente, até Craven – o brutamontes responsável pela célula da organização alojada naquela safehouse em particular – conduzi-la até o “quarto” onde estava sendo aguardada. Foi deixada sozinha com seu visitante, como pedira, mas a pistola estava pronta e destravada, caso fosse necessário – além disso, qualquer sinal de altercação no cômodo o faria ser invadido por seus funcionários. Estava segura e, acima de tudo, no controle da situação.
Enquanto Hecto se debatia, Ivy sentou-se sobre a mesa no centro do quarto e olhou para os lados, absorvendo a cena com que o homem se depararia assim que retirasse o capuz. Era um quarto, claramente, já que uma cama de ferro simples e um baú com tranca digital tinham sido empurrados para o lado. Como uma pensão barata, também tinha um vaso sanitário sem tampa e uma pia malcuidada; a principal diferença se situava nas duas cadeiras resistentes – uma sendo ocupada por Hecto e a outra aguardando uso – e, principalmente, na tal mesa que usava como assento. Era igualmente de ferro e sólida, mas as alças nas laterais eram perfeitas para amarrar uma vítima pouco cooperativa. Muito parecida, porém nem de perto tão luxuosa, das usadas no dungeon onde Ivy passava o tempo – mas aquela, naturalmente, tinha visto muito mais sangue no seu tempo.
De certa forma tomada de pena, a mulher decidiu acabar com o martírio de sua visita – mas sem antes cuidar para que a dinâmica de poder na sala estivesse bem clara desde o primeiro segundo. Colocou-se de pé novamente, dessa vez se inclinando sobre ele o suficiente para que a olhasse nos olhos – porém longe o suficiente para que Hecto não tivesse ideias perigosas. Já com o sorriso de satisfação colado nos lábios vermelho-carmim, ergueu o braço direito e puxou o capuz, deixando que o homem acostumasse os olhos a claridade focalizada do quarto antes de, definitivamente, apresentar-se – Se lembra de mim, docinho? Eu lembro de você.
Hecto claramente lutou em vão. Com os pés e mãos amarrados a uma cadeira pesada, que não movia um centímetro sequer para os lados, resolveu equilibrar sua respiração ofegante e dar espaço para diminuir seu batimento cardíaco, eis que sua saúde debilitada deveria ser cautelosamente cuidada por ele. Havia se medicado há muito tempo e já estava na hora de tomar uma nova dose do seu Elixir da Vida. Nesses momentos se encontrava ainda mais vulnerável que o normal, quando se tornava mais débil e fraco. O estresse era responsável por fazer ainda mais mal a sua figura.
- Quem está aí? – Disse sem fôlego, inutilmente, ou ouvir uma movimentação diferente no local em que estava, quando a própria euforia começou a passar. Seu peito inflava menos a cada respiração, o coração desacelerava, mas a boca ainda seca e amarga. Uma gota espessa de suor escorria por seu rosto, era como se seu maior medo finalmente se concretizasse. Mais do que morrer, Hecto temia ser julgado pelas atitudes de uma época muito mais antiga. Ser reconhecido por sua maldade e ambições vãs o deixavam aflito, como se sentisse a mais genuína vergonha. Hecto odiava sua identidade anterior.
Olhos finalmente desnudos, sentiu-se cegar pela iluminação artificial, da qual havia se desacostumado pela escuridão do capuz. Certa vertigem o acometia, deixando-o nauseado e ainda mais confuso com tudo. Não era comum que se desequilibrasse tanto, mas precisava concordar que reações mais humanas possivelmente poderiam poupá-lo de alguma maldade maior no seu futuro próximo.
Contudo, finalmente, ao vê-la, aliviou-se pela ideia de que não se tratava de uma de suas maiores inimigas da antiga Gallica II, mas sim de alguém que tanto poderia matá-lo quanto deixá-lo ir.
- Ivy Opal? – Questionou, sem uma razão imediata para tal, dando um suspiro que significava seu alívio. – Claro... – Respondeu, olhando para baixo, depois erguendo o olhar ainda confuso. Hecto era um exímio mentiroso, mas havia optado por falar excepcionalmente a verdade para Ivy. Poderia sim fingir esquecimento ou até mesmo insistir para ela que era outra pessoa. Mas, naquele momento, ser sincero pareceu ideal. – Eu nunca me esqueceria. – Disse, endireitando-se na cadeira, olhando para os lados e avaliando todo o cômodo, somente para que, no fim, encarasse adequadamente os olhos iluminados de Ivy, que o atravessavam.
- Eu nunca me esqueceria. – Repetiu, agora concentrando-se no olhar dela, para demonstrar sua seriedade e duvidável honestidade. – Mas... Por que desta forma? – Questionou-a, tendo em vista a violência e também a cautela para com ele. – Poderia ter convidado a dividir uma garrafa de uísque com você. – Sibilou, com uma simpatia que não conseguiu segurar, transformando-a em deboche.



















