A GENTE ACEITA O AMOR QUE ACHA QUE MERECE
A frase do título, para quem não sabe, é do livro As vantagens de ser invisível, o qual tem um filme com o mesmo nome e atores maravilhosos como o Logan Lerman, Ezra Deuso Miller, Emma Watson e Paul Rudd.
Não sei se é pessoal demais ou se vocês querem ouvir isso, mas eu vou contar hahaha. A primeira vez que eu tive contado com a obra foi quando vi o filme um pouco depois de ter saído. E eu não dei bola o suficiente para ele, achando que era apenas um filme adolescente americano. Quanto mais a tia do Charlie aparecia mais eu ficava incomodada com o filme.
E no momento em que, eventualmente, Paul Rudd falou que a gente aceita o amor que acha que merece, eu fiquei com raiva do filme e no fundo eu não entendi o porquê. Eu terminei de assistir o filme, nunca mais quis ver e ainda fiz propaganda contra.
Anos depois eu entendi o problema. Mas calma, vamos para o livro primeiro.
O livro é apresentado por meio de cartas que o Charlie escreve para o ‘querido amigo’, por meio delas ele começa a contar a sua vida no ensino médio. O autor, Stephen Chbosky, consegue tratar de temas extremamente pesados como suicídio, bullying, uso de drogas, homofobia, abuso sexual e depressão, utilizando essa estrutura de escrita.
Estou escrevendo porque ela disse que você me ouviria e entenderia, e não tentou dormir com aquela pessoa naquela festa, embora pudesse ter feito isso. Por favor, não tente descobrir quem ela é, porque você poderá descobrir quem eu sou, e eu não gostaria que fizesse isso. Chamarei as pessoas por nomes diferentes ou darei um nome qualquer porque não quero que descubram quem sou eu. Não estou mandando um endereço para resposta pela mesma razão. E não há nada de ruim nisso. É sério.
Percebe-se, rapidamente, que Charlie é um menino muito sensível e que sente as coisas do mundo de forma muito única, o que, talvez, possa ter relação com as questões mentais que são apresentadas durante o livro. Já no início do livro ele aborda o suicídio do colega e o acidente de sua tia Helen.
Charlie passa a ter um relacionamento com Patrick e Sam, e consegue adentrar no grupo de amigos dos dois. Tendo, além deles, o seu professor de literatura como figuras importantes no desenvolvimento mental de Charlie. Durante o livro é apresentado os conteúdos difíceis de serem abordados – como os já elencados – e Charlie tenta os resolver se apoiando no que aprende com os amigos e o professor de literatura.
Por que esse livro é LGBT? Porque o Patrick é gay e tem um relacionamento com um atleta da escola, o qual, é claro, acontece escondido. O pai do atleta descobre e bate nele. Quando se analisa as cenas gays, que não são muitas, acho que seria possível produzir outro post para comentar sobre tais acontecimentos.
Outra questão que eu achei impressionante no livro, que não é tratado da mesma forma no filme, é que após Patrick e seu namorado terminarem, o primeiro fica com Charlie, mesmo este sendo hétero.
– Charlie, a questão não é essa. A questão é que eu não acho que você teria agido diferente mesmo que gostasse de Mary Elizabeth. É como no dia em que você ajudou Patrick e derrubou dois caras que o estavam agredindo, mas e quando Patrick estava agredindo a si mesmo? Como quando vocês iam ao parque? Ou quando ele beijava você? Você queria que ele o beijasse?
Sacudi a cabeça em negativo.
– Então, por que você deixou?
– Eu estava tentando ser amigo dele - eu disse.
– Mas você não estava sendo amigo, Charlie. Às vezes, você não é amigo de jeito nenhum. Porque você não foi sincero com ele.
No decorrer do livro Charlie trabalha com as questões relacionadas com seus traumas e problemas que foram desenvolvidos por causa deles. Sendo esse livro não só recomendado para o público jovem, ao meu ver, por causa das questões que ele apresenta, mas também para adultos.
Mas eu não falei da frase do título. Em uma parte do livro, Charlie vê sua irmã apanhar do namorado, e ele pergunta para o seu professor porque isso acontece, e é aí que acontece a citação. É o autor tratando de amor próprio.
Em tempos em que nós temos uma construção de corpos perfeitos e vidas perfeitas, o amor próprio parece algo muitas vezes inalcançável, e mais ainda para a comunidade LGBTQIA+ que é ensinada a odiar uma parte tão grande e relevante deles mesmos.
A RuPaul fala algo que eu adoro que é “If you can't love yourself. How in the hell you gonna love somebody else?” e ela sempre fala nos episódios do seu programa, porque é necessário que nós como comunidade LGBTQIA+ reintegralizemos o conceito de amor próprio que nos foi tirado pela sociedade moderna que não encontra compatibilidade em nossos pensamentos, corpos e estilos de vida.
Sim, eu contei toda essa história para te falar que você devia se amar, e devia aceitar o amor que achamos que merecemos, e que esse amor seja o maior e o melhor amor.