❛ — A Khristeen me disse que eu não vou viver um conto de fadas! ❜ e o pronunciamento ecoou alto pelo quarto do seu irmão mais velho, compondo uma entrada nada discreta que viera acompanhada de um belo estrondo pela porta batendo atrás de si. A conversa com a feérica não saía de sua cabeça e, sinceramente, tudo que precisava no momento era de alguém reforçando a sua preciosa ideia de que encontraria o seu amor verdadeiro. ❛ — Ela me disse que eu tenho que seguir meu coração e que eu devo tentar com o Thomas, mas que eu tenho que pagar um preço e posso sair arrasada de tudo isso! Depois me disse que eu não posso achar que vou viver um conto de fadas porque já estou grandinha pra isso! ❜ continuou o relato, os braços sendo cruzados sobre o peitoral enquanto esperava uma resposta, a sua postura muito se assemelhando a que utilizava ainda quando era criança e precisava que o irmão a defendesse de alguma feérica malvada que implicava consigo.
O colete negro que levava mal havia sido desabotoado quando a voz de Gweyr o fez virar abruptamente. Já fazia anos que a elfa o abordava daquela maneira quando chateada, porém, sequer duas décadas o tinha tornado imune ao grito estridente que acompanhava as reclamações. Uma careta atravessou seu rosto brevemente, mas logo se desfez ao caminhar até a cama, onde se sentou e esperou a irmã terminar de falar. Estava cansado das aulas do dia, mas a observava com atenção, nenhuma palavra dita sendo perdida. A mais nova era, talvez, quem mais protegia em toda Midgard, acima de seu Highlord, inclusive; e como pretendia mantê-la nesse status, jamais deixava de escutá-la. Não podia negar, no entanto, o quanto desejava que aquele assunto não fosse trazido à tona. Evitara a todo custo discutir o casamento com Thomas, sabendo não ser capaz de oferecer uma visão otimista sobre o tema, avesso que era a destruir as fantasias nutridas pela jovem. Todavia, parecia não ter mais opção senão fazê-lo. Maldita fosse a boca frouxa de Khristeen Seifried. “ Venha, sente-se aqui ” pediu, dando uma batidinha no espaço vazio ao seu lado. Recordava ter posto fim apenas a dois sonhos de Gweyr ( sendo um deles o desejo de possuir unicórnios ), e a expressão entristecida que ela fazia nessas ocasiões suplicava ao seu coração — o qual não notava em grande parte do tempo —, que voltasse atrás em sua palavra, risco que não poderia corre ali. Não se desejasse ser útil. “ Khristeen fala muitas besteiras e você não deveria dar ouvidos à tudo que ouve — principalmente quando se trata do seu conto de fadas. Afinal, nunca se é velho demais para desejar um final feliz ” disse, embora acreditasse piamente nas palavras apenas, e somente, quando se referiam à irmã. “ No entanto, ela não está de todo errada. ” A frase saiu com mais facilidade do que verdadeiramente sentia, entretanto, continuou sem titubear, procurando a mão delicada da luminosa enquanto falava. “ Você pode, sim, sair... Desgostosa desse compromisso, mas nunca, jamais, pense nisso como algo irreversível. Permitir que o preço ao qual ela se referiu seja o seu conto de fadas, também deve permanecer fora de cogitação. Ninguém pode tirar isso de você e, se tentarem, basta me falar. Sabes que darei um jeito. ” brincou, batendo de leve seu ombro contra o dela, falhando miseravelmente em manter a conversa completamente séria — ou talvez visasse aliviar um pouco a atmosfera antes de fazer a pergunta que valia mil moedas de ouro ( advento que não lhe ofereceram sobre o próprio noivado, embora não tenha precisado de incentivo algum para expressar seus sentimentos. ) “ Gweyr... Você quer realmente casar com o Thomas? ”