Obrigada
“Claire… Claire… ”.
Mais uma vez, era criança. A névoa a rodeava como um animal cercando a presa e sua cabeça doia como nunca. Claire escutava seu nome ser chamado, mas não sabia de onde vinha o som e, ante a escuridão ameaçadora do local, a criança apenas recuava mais e mais, encolhendo-se sem saber o que fazer.
De repente, o local mudou. Agora ela reconhecia a ilha para a qual foi mandada para trabalhar como escrava. Exigiam sua magia e nada podia fazer contra eles, sua única opção era fugir, mas a primeira vez que tentou aquilo, o preço foi alto. Alto demais.
Sentiu mais uma vez o calor das brasas em suas mãos até ficarem em carne viva, a punição desumana por ter ousado sonhar com a liberdade. Os gritos que deixaram a sua garganta não comoveram seus captores, pelo contrário, enquanto alguns ignoravam a criança permanentemente traumatizada, outros ainda a ameaçaram para calar-se ou “poderia ficar pior”.
“Claire! Claire!”.
A voz se tornava mais urgente, mas a maga do gelo estava presa demais em seu próprio pesadelo para se importar com isso. A lembrança que se seguiu foi da segunda tentativa de fuga, esta executada com sucesso por ela e mais algumas crianças que, pouco a pouco, tiveram suas vidas ceifadas no oceano pelas dificuldades.
Sua magia foi útil, mas exigir tanto dela sem treino e com as mãos naquele estado foi sacrificar o pouco que tinha. Quando chegou em Fiore, o corpo desnutrido exibia as mãos necrosadas e quando, por milagre, Marie a encontrou, já não havia cura além da amputação.
A lembrança de Marie lhe dando as próteses depois da cirurgia, por algum motivo, não lhe trazia mais conforto, apenas medo. O ambiente do hospital foi ficando escuro e o rosto da mestra se transformou no do maldito soldado que havia condenado-a àquela vida. Seu peito foi se apertando numa sensação mais e mais claustrofóbica, enquanto o ar encontrava dificuldade para fazer o caminho natural em seu corpo. Quando deu por si, Claire era mais uma vez a criança indefesa na mão dos captores e dessa vez não podia ao menos falar.
“Claire… Claire...”
— CLAIRE!
O grito de Meiko a acordou, mas a maga só tomou consciência de onde estava ao perceber a amiga desviar duma rajada de gelo e cair no chão. Claire jogou as cobertas para cima e correu até onde ela estava, a preocupação visível em seus olhos.
— Meiko! Desculpe-me, eu…
Parou ao perceber uma coisa: Todo o seu quarto estava congelado.
Há quanto tempo isso não acontecia? Desde a guerra contra Krich, onde ela havia superado boa parte dos seus medos, a maga nunca mais havia experimentado nenhum tipo de descontrole quanto à sua magia, então por que justo agora?
— Eu estou bem — Meiko tranquilizou-a, tossindo um pouco — Mas quando a gente sentiu o frio…
— Não foi muito difícil imaginar o que estava acontecendo — Luna apareceu na porta, trazendo três xícaras de chá numa bandeja. Sentou-se junto das amigas no chão e Claire pegou uma das xícaras, sentindo o vapor quente emanando da bebida. Respirou fundo para absorver o aroma e, lentamente, o quarto voltou à temperatura devida.
— Me desculpem — Suspirou — Não deveria envolver vocês nisso.
— Somos amigas, é claro que você tem que nos envolver! — Meiko comentou, sentando-se com energia e velocidade invejáveis para uma madrugada — Deveria ter nos falado que estava com medo.
— Medo?
— Da viagem para Krich — Luna completou — Não é por isso que você teve esse pesadelo?
As palavras de Luna a fizeram pensar sobre aquilo pela primeira vez. Quando Ada lhe contou sobre o ensino das crianças, fez questão de lhe dizer que entenderia completamente caso Claire não se sentisse à vontade para ir, Claire, pelo contrário, disse que seria ótimo colaborar para que as próximas gerações não passassem pela tragédia que ela passou. Seu trauma estava completamente superado e ela sentia-se segura em ir como uma maga da Mermaid Heel representando Fiore naquela missão. Agora já não tinha mais tanta certeza.
— Não sabia que estava com medo — Claire admitiu — Achei que isso já havia… passado. Depois da guerra e tudo mais.
— Bom, era o que ambas achávamos — Luna bebeu um pouco de chá antes de voltar a falar — Mas certos traumas acabam ficando no nosso subconsciente e, bem, você passou por bastante coisa.
Claire meneou a cabeça, sendo obrigada a concordar.
— Tudo bem se você não quiser ir — Meiko tentou convencê-la — Mestra Ada vai entender e ninguém vai te julgar por isso, a maioria nem sabe que você veio de lá.
— Eu sei, mas… Eu quero fazer isso. Não só pelas crianças, mas por mim — Claire confessou — Preciso colocar um ponto final nesse assunto, preciso superar isso de uma vez por todas.
— Não podemos nem ao menos ir com você? — Meiko pediu.
Claire não pôde evitar sorrir. O que ela havia feito em vida para merecer amigas como aquelas duas, nem ela sabia, então apenas se sentia grata por ter encontrado-as. Embora no começo a adaptação tenha sido difícil, era impossível imaginar uma vida sem seu time agora. Elas eram a razão pela qual aprendeu a não temer o seu poder e a razão pela qual buscava fazê-lo crescer cada vez mais, a razão pela qual buscava superar seus traumas para assim ajudar Meiko e Luna a lidarem com suas respectivas dificuldades também. Precisava retribuir a amizade das duas de alguma forma, então, embora não fosse a melhor das pessoas na personalidade, se esforçava para, pelo menos, ser a melhor amiga que pudesse ser.
— Eu realmente preciso fazer isso sozinha — Tentou parecer tranquila — Mas eu mandarei notícias enquanto estiver lá, não se preocupem.
— Mande mesmo — Luna falou, séria — Todos os dias.
— Certo.
— E se você se sentir muito mal lá, é pra voltar, viu? Nem que seja fazendo uma ponte de gelo pelo oceano! — Meiko disse antes de terminar o chá, gesto repetido por Claire, que deixou escapar um riso.
— Ok, ok.
— E vamos fazer uma maratona de filmes de comédia antes de você ir, para você só lembrar de coisas boas — Meiko continuou, apoiando-se em seu ombro.
— Sinta-se à vontade para nos ligar durante a viagem caso não se sinta bem, mesmo que seja de madrugada — Luna advertiu, pegando uma de suas mãos.
Claire não teve muito o que fazer além de sorrir e menear a cabeça em positivo, puxando as duas para um abraço que foi prontamente retribuído. Naquele momento sentiu que, sim, poderia enfrentar qualquer desafio do mundo enquanto tivesse suas amigas para apoiá-la, e mesmo seus demônios internos relacionados à Krich agora pareciam apenas meras casualidades que poderia derrotar tão fácil quanto magos de rank baixo.
Não era boa em se expressar, então o que deixou seus lábios foi apenas uma palavra, mas com um significado imenso.
— Obrigada.













