Este é o resumo da Orquestra Fervença até agora. Só falta aqui o último concerto, no Teatro Municipal. Obrigado a todos.
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Este é o resumo da Orquestra Fervença até agora. Só falta aqui o último concerto, no Teatro Municipal. Obrigado a todos.
Crónica Fervença #8
Histórias de homens valentes
Esta casa é casa de grandes histórias. Eram os mais ricos aqui da aldeia. Chamavam-se os Zorros. A casa começava lá em baixo, ali ao fundo, e era isto tudo até lá acima. Tudo e estes terrenos até aqui. Tudo aqui era a casa do Zorro. Aconteceu aqui uma vez o seguinte: havia cá um homem, a quem chamavam o Manolote. Faltavam-lhe dedos. Está aí uma pipa – está velha, mas está aí ainda – que leva 900 litros. Então, um dia tiraram o vinho e encheram a pipa.
- A cuba. Chamava-se a cuba.
Encheram-na muito. Tinha uma tampa para pôr, mas deitava muito para fora. E uma vez o dono desta casa disse assim para esse senhor a que chamavam o Manolote:
- Manolão!
- Que é que tu queres, carago?
- Vê lá se queres beber à pipa para pôr a tapadeira.
O gajo, o tal Manolão, meteu lá a cabeça na pipa e zás, zás, zás, zás, zás, zás. Já se enterrava a cabeça para dentro da pipa. E foram 16 litros e a tampa ainda não chegava ao vinho.
- Bebeu-os de uma vez.
- 32 quartilhos de uma vez.
- Mas era grande, ele.
- Comia um carneiro em dois dias.
- Uma vez ele trouxe uma trave lá de baixo.
- Ele ia ao moinho, levava dois sacos e trazia-os os dois de uma vez às costas.
- E outras vezes cortava um freixo e trazia-o para casa a rasto. Eu ouvia contar isso.
- Dantes fazia-se o carro das vacas e ele fê-lo todo. Ancheda, angarelas, estadulhos, trouxe tudo às costas.
- Agora contar isso parece uma coisa impossível!
- Mas foi verdade.
- Botou a ancheda, as tábuas, as travessas e tudo.
- Então e quando foi buscar as batatas a Campiças e atravessou pelo Carrascal acima para levar as batatas para casa?
- Trazia duas sacas de batatas, uma atravessada em cima da outra e só descansava na Fraga do Coelho. Eram 200 quilos.
- Ele era tio do meu avô, do pai da minha mãe. Contava a minha mãe: Em pequena, chamava-o a comer com ele:
- Ó rapazota, anda lá que hás-de ir almoçar comigo.
E a minha mãe, coitadinha, lá ia. E ela estranhava muito. Tinha a panela de ferro – cá chamávamos potes, antigamente não havia outras – cheia. Aqui costumamos pôr batatas e para cada um, um ovo – ou dois ou três, vá. Mas é mais batata do que ovo. Ele não. Tinha o pote cheiinho de ovos e só tinha uma batata. E a minha mãe chega a casa e diz assim à minha avó:
- Ó mãe, olha, o tio Manolote, sabes como é que tinha o almoço?
- Então como é que era, filha?
-No pote não cabia mais ovos, só tinha uma batata.
E comeu aquilo tudo.
Entre os dias 18 de Novembro e 4 de Dezembro, o projecto Fervença Conta… histórias da raia, promovido no âmbito da Orquestra Fervença, percorreu as aldeias de Quintanilha, Caravela, Babe, Rio Frio e Rio D’Onor ouvindo a população contar histórias sobre as suas vidas e as memórias colectivas de cada uma destas comunidades. Esta história foi contada pelos habitantes da aldeia de Caravela no dia 19 de Novembro.
As Crónicas Fervença são publicadas mensalmente nos jornais “Mensageiro de Bragança” e “Nordeste”, assinadas por Samuel Silva.
Augamento
Ontem terminou o ciclo "Fervença Conta... Histórias da Raia". Estivemos em Rio de Onor, mais uma vez à lareira, a ouvir histórias, a rir e sorrir, a sentirmo-nos parte. Depois de Milhão, Babe, Caravela e Quintanilha, este foi um final perfeito. Se a comunidade é "o sentimento de nós", estas cinco aldeias, as suas pessoas e histórias, abriram-nos as portas a sermos parte delas, também. Fomos todos “nós”. Obrigado. Ficam aqui algumas fotografias da tarde de ontem.
Crónica Fervença #7
Viagem. Com gente dentro
Não teria sido necessário estar nos bastidores do Teatro Municipal de Bragança para perceber que aquele tinha sido um momento especial. Minutos depois de “Do Outro lado dos Montes” terminar, viram-se abraços, reacções emocionadas e uma alegria partilhada. Não se conseguia ficar indiferente. Esses momentos tocantes eram, porém, apenas o corolário de um espetáculo em que esta energia especial entre os participantes tinha perpassado pela sala brigantina. Foi no dia 6 de Novembro, na terceira residência artística do projecto da Orquestra Fervença neste ano.
Durante uma semana, um grupo de cantores do Coral Brigantino trabalhou com as irmãs Teresa e Inês Campos. A primeira é cantora e compositora, a segunda é bailarina. Juntas formam Castor e Pólux. Apesar da ligação familiar e da colaboração conjunta anterior noutros projectos, trabalharam em Bragança pela primeira neste formato de dupla criativa. Também por isso, esta foi uma criação especial.
A proposta de “Do Outro lado dos Montes” é a de uma viagem. Como uma viagem, o espetáculo foi sendo dividido por etapas: primeiro há debates e combinações sobre os planos a fazer, depois vêm as despedidas. Há encontros, desencontros. E sempre um forte sentido colectivo, quer na forma como são exploradas as vozes do grupo, quer nos movimentos em palco. A dramaturgia tem uma aparência simples, mas esta é a sua ideia mais forte: este é um trabalho sobre um colectivo, uma comunidade.
E de quem fala esta criação? De Trás-os-Montes e dos transmontanos. O seu título deixa-o antever, mas é no palco que isso se torna totalmente evidente. Muitos dos adereços já quase só se usam nesta região ou são produtos do artesanato local. Depois, além da ideia forte da comunidade, aquilo que dá unidade a este espetáculo é a música. O que ouvimos em palco no Teatro Municipal de Bragança são canções populares transmontanas, facilmente reconhecíveis por todos. É algo em comum entre estas pessoas. E o público.
“O facto de ser uma viagem associada à paisagem local, à montanha, acho que mexeu um bocadinho mais connosco”, reconhece o mastro do Coral Brigantino, Armindo Rodrigues. “Puxou um bocadinho mais ao sentimento. Daí que as pessoas no final estivessem tão agradadas com o que foi o trabalho durante a semana e a representação”, explica.
Numa das cenas mais memoráveis do espetáculo, esta comunidade reúne-se à volta de uma grande toalha pousada sobre as tábuas do palco. Como num pic-nic. Há o sotaque carregado deste lugar, vinho partilhado e, mais uma vez, essa ideia de comunidade, que se reforça. Num momento solene, uma das participantes senta-se a ler um trecho de “Um reino maravilhoso”, a declaração de amor que Miguel Torga escreveu às terras do Alvão e do Marão. É o instante definidor da narrativa do espetáculo.
Mas esta é sobretudo uma cena bonita, pela forma elegante como a luz faz brilhar aquelas pessoas e aquele momento de partilha e depois se reduz gradualmente para acentuar a solenidade da leitura daquele texto. Aliás, ao longo de “Do outro lado dos Montes” há vários momentos belos em termos visuais, construídos de forma simples, através de adereços comuns e um jogo de luz bem pensado. Por exemplo, a toalha em que este grupo de transmontanos se sentou a comer, beber e escutar, foi em seguida transformada numa tenda, iluminada desde o seu interior. Depois agitada de forma ondulada, como se fosse a acção do vento sobre as águas. Processos simples, imagens marcantes.
No final de “Do Outro lado dos Montes”, Cândida Martins, a presidente do Coral Brigantino, era uma das pessoas mais emocionadas entre o grupo de participantes. “Deu-me um gozo tremendo fazer este espetáculo. Tive a oportunidade de fazer aquilo que eu, cá no fundo, bem no fundo, gostava de ter sido”, confessa. Hoje está aposentada, mas trabalhou durante décadas nos serviços do Ministério das Finanças em Bragança: “Se tivesse nascido noutro sítio, se calhar teria sido artista”.
As Crónicas Fervença são publicadas mensalmente nos jornais “Mensageiro de Bragança” e “Nordeste”, assinadas por Samuel Silva.
(orquestra fervença)
Projecto de criação colaborativa dirigido por António Serginho e Sara Yasmine, envolvendo as comunidades do Rancho Folclórico de Mãe d’Água e o BriChoir. O resultado deste trabalho será apresentado no dia 26 de Novembro, em pleno Bairro da Mãe d’Água de Bragança, no Centro Social Santo Condestável, pelas 17h00.
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Aquecia-se o lugar em Quintanilha.
Um grupo viaja até ao topo da montanha para ver o que se passa do outro lado. O todo é maior do que a simples soma das suas partes. Como fazer sobressair as historias individuais dentro de um todo? Como é que muitas partes podem soar ao todo ? E ser um corpo só, feito de tantos membros?
Fervença continua a convidar artistas a cruzar e debater ideias, originando nova criação a partir da cidade e da sua identidade. Esta será uma performance totalmente original, criada ao longo de uma semana de residência artística intensa. A não perder, no próximo domingo.
SPOF II
Quando em 2015 Agostinho nos falou da ideia que tinha para a Orquestra Fervença, de replicar o som dos carros de bois, ninguém nos preparara para isto. Um ano depois, chegou com o SPOF aos ensaios e o som geral mudou instantaneamente. O Samuel Silva já disse tanto acerca disto. Aqui fica 1 minuto de SPOF.
Crónica Fervença #6
Vamos para dentro?
Juntámo-nos todos no largo de Camões no dia 17 de Agosto. Era Verão e apetecia estar na rua. O calor chamava-nos para sair de casa e o ambiente de festa que preencheu uma das principais praças de Bragança era motivo mais do que ajustado para o encontro. E agora que o Inverno se aproxima, o que faremos? Talvez o melhor seja irmos para dentro. Nos últimos meses deste ano é essa a proposta da Orquestra Fervença: chamar as pessoas para o interior das casas e dos edifícios públicos.
O objectivo central da Orquestra Fervença continua a ser o mesmo: que todas as propostas da sua programação sejam um motivo de encontros. Todavia, o tempo mais frio será a justificação para privilegiar algum recolhimento, tornando os momentos de reunião mais confortáveis, íntimos e também mais propícios à introspeção e ao pensamento.
Até Dezembro, a orquestra vai, portanto, voltar-se para dentro. Vai para dentro do concelho de Bragança, em direcção às aldeias da raia, onde se querem ouvir contos populares e narrativas que pertençam à memória colectiva de cada comunidade; vai para dentro das casas das pessoas na procura por essas histórias; e vai igualmente para dentro do Teatro Municipal onde, um bocadinho antes do Natal, acontecerá o segundo grande concerto deste ano.
Antes disso, até ao final do ano, a programação incluirá ainda um workshop com a equipa da Digitópia, um projecto de criação musical a partir de plataformas tecnológicas da Casa da Música, que se estreia em Bragança, seguindo-se duas novas declinações da Orquestra Fervença. A primeira destas será o projecto de criação colaborativa Castor e Pólux, dirigido pela cantora e compositora Teresa Campos e pela bailarina Inês Campos. As duas criadoras vão trabalhar com uma turma de dança do Conservatório de Bragança e com os elementos do Coral Brigantino e apresentar os resultados no início de Novembro; a segunda declinação volta a trazer à cidade um velho conhecido, António Serginho, que fez parte da equipa que preparou o primeiro grande concerto da Orquestra Fervença no ano passado. Desta feita, o músico e compositor será acompanhado por Sara Yasmine, num trabalho com o Rancho da Mãe d'Água e com coros do Conservatório de Bragança, que será apresentado no final de Novembro.
Contudo, a temporada de Inverno da Orquestra Fervença ficará sobretudo marcada pela viragem para os espaços fechados, algo que ficará mais sublinhado em dois momentos programados para Novembro e Dezembro.
A primeira novidade é a estreia de uma nova linha da programação do projecto. Chama-se Fervença conta… Histórias da Raia. A Orquestra Fervença vai até às aldeias de Quintanilha, S. Julião, Milhão, Rio de Onor e Babe para ouvir e contar histórias antigas, do tempo das fronteiras, ao calor das lareiras, inspirando-se assim numa prática ancestral. As sessões nas aldeias da raia vão coincidir com o início dos rituais da festa dos rapazes, bem como com a apanha das castanhas e os respectivos magustos. Por isso, estes serão momentos de celebração e encontro, mas em espaços mais íntimos, incluindo casas particulares, numa comemoração comunitária direccionada em particular para as populações das aldeias onde se realizam.
Para o final do ano ficará reservado um novo grande momento de festejo colectivo de grande escala. É a cereja no topo do bolo de um 2016 muito preenchido. A 22 Dezembro, haverá um novo concerto da Orquestra Fervença que, como não podia deixar de ser, volta a ser comandada pelo maestro Tim Steiner. Os brigantinos voltam a ser as figuras principais deste projecto que contará com uma equipa artística renovada. A nova criação da orquestra com Bragança trará ainda outras novidades. Desde logo, o lugar: em vez de acontecer numa praça, terá lugar na sala principal do Teatro Municipal de Bragança. Além disso, este será um espectáculo diferente daqueles a que a cidade assistiu no Verão deste ano e do ano passado, sendo integradas sobretudo referências aos rituais de Inverno da região, numa performance de maior recolhimento e reflexão.
As Crónicas Fervença saem mensalmente nos jornais “Mensageiro de Bragança” e “Nordeste”, assinadas por Samuel Silva.
Formulário de inscrição no III Grande Concerto Orquestra Fervença, espectáculo dirigido por Tim Steiner, dia 22 de Dezembro de 2016, no Teatro Municipal de Bragança.
Inscrevam-se!!
Ser Bragança
Sou jornalista. Aprendi algumas coisas antes de entrar na profissão. Desde logo que nunca se escreve na primeira pessoa do singular. Também que devemos evitar perpassar qualquer tipo de envolvimento emocional com aquilo sobre o que estamos a escrever. Dito isto, pego nestas regras e escondo-as debaixo da mesa enquanto escrevo esta crónica. Este é um texto que quebra esses limites. Não podia ser de outra forma, depois de ter estado tão dentro da preparação do concerto da Orquestra Fervença do dia 17 de Agosto.
Bem me tinham avisado que, com o maestro Tim Steiner, não se pode estar na sala de ensaios sem participar. No entanto, isso não tinha ainda acontecido comigo. O trabalho a que me proponho na Orquestra Fervença é o acompanhamento e registo de todo o processo de preparação dos vários momentos do programa para 2016. Estive nos workshops e nas declinações que decorreram ao longo dos primeiros meses do ano, mas, se me encontrassem, estaria a um canto da sala, a tomar notas. Tal como tinha planeado.
Também tinha sido assim nos dois primeiros fins-de-semana de ensaio para o espetáculo do Verão. Todavia, no primeiro ensaio da semana final de preparação para o grande concerto, alguma coisa mudou. E não sei explicar ainda o porquê. Assim que começou o aquecimento, larguei imediatamente o que estava a fazer a juntei-me ao grupo. Nada daquilo estava previsto. Foi um impulso. Fiz os primeiros exercícios, ultrapassando uma retracção pessoal que sabia bem que existia. E não precisei de muito tempo para perceber que já não ia sair dali.
Parte da magia da Orquestra Fervença está nesta capacidade de construir a partir do impulso e do improviso. De criar um momento que todos fixaremos na memória sobre um acaso. Se estive no palco no dia 17 – lá atrás, na última fila do coro, a sentir-me como um brigantino naquela noite – não foi porque o tivesse previsto ou desejado. Aconteceu. Mas fez todo o sentido.
Estive em quase todos os ensaios. Aprendi coisas que desconhecia sobre a minha voz e o meu corpo. Mas, mais importante do que isso, percebi por dentro como funciona o processo de trabalho da orquestra. Descobri que os exercícios que, a uma primeira vista, podem não ter grande sentido prático, serão mais adiante úteis para agarrarmos determinada peça do concerto. E isso abre-nos a mente e mantém-nos despertos, porque tudo o que ali acontece pode, num instante, passar a ser a coisa mais importante do mundo.
Descobri, por exemplo, que nem tudo vai completamente ensaiado para o concerto. Além de criar e afinar o material que é apresentado no espetáculo, o que se trabalha naqueles dias de preparação é sobretudo a comunicação – com o maestro e com os líderes de naipe. Essa dimensão torna a experiência ainda mais intensa e entusiasmante, uma vez que sabemos que a qualquer momento pode acontecer uma surpresa.
Surpresa é talvez a melhor palavra para qualificar o estado a que estamos permanentemente sujeitos uma vez dentro da Orquestra Fervença. Estive com o maestro Tim Steiner e os três outros elementos da equipa – Ricardo Baptista, Joana Araújo e Duarte Cardoso – praticamente todo o tempo durante aquela semana de Agosto. Dormíamos no mesmo sítio, fazíamos as refeições juntos, às vezes até participava nas reuniões de trabalho deles. E, ainda assim, chegando ao palco do Teatro Municipal de Bragança onde ensaiávamos, conseguiram sempre espantar-me, com uma solução para determinada peça ou um improviso que acabava por resultar.
Estando ali entre os participantes – sendo mais um de entre eles – também pude ver de perto como é a reacção das pessoas em cada momento do processo. As inquietações sobre determinada peça, as angústias anteriores às alturas de maior exposição, e também a forma como cada um se prepara para o concerto. Impressionou-me que houvesse pessoas a tirar notas ou a gravar as canções para depois continuar a preparação em casa. Não que isso fosse exigido por alguém, mas porque havia esse brio das pessoas. É raro encontrar esse nível de compromisso, que se manteve até ao final.
E depois os sorrisos. De todos – e também o meu.
Samuel Silva
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Crónica Fervença #4
Crónica Fervença 4
Um carro de vacas no meio da orquestra
Se havia som que Agostinho Diz associava à sua infância na aldeia de Parâmio era o do chiar dos carros de vacas. O ruído só lhe resistia na memória porque há muito que tractores e alfaias mecânicas substituíram a força da tracção animal nos campos. Quando o maestro Tim Steiner perguntou, num dos primeiros ensaios da Orquestra Fervença, no ano passado, qual o som que cada um dos participantes associava a Bragança, foi desse que Agostinho se lembrou. “Era algo que me acompanha desde criança”, conta, mas, “não dava para levar um carro de vacas para cima do palco”, acrescenta entre sorrisos.
Ficou a pensar naquilo. E lembrou-se então de criar um artefacto que pudesse replicar aquele ruído dos carros de vacas de modo a poder mostrá-lo ao maestro. Tentou fazê-lo a tempo do primeiro concerto da Orquestra Fervença, em Agosto do ano passado, mas magoou-se enquanto trabalhava no instrumento. Acabou por deixar a ideia a repousar. Mas, quando soube que a orquestra continuaria a existir, voltou a colocar mãos à obra. No primeiro ensaio para o grande concerto deste ano, em Junho, Agostinho entrou no teatro municipal de Bragança com o novo instrumento, ainda numa primeira versão.
Foi uma revelação. Na cara de todos aqueles que ali estavam – maestro, animadores, participantes – um espanto que ia contagiando. Ricardo Baptista e Joana Araújo, dois dos monitores da orquestra, entusiasmaram-se ao imaginar que aquele ruído pudesse funcionar em repetição, como um “loop”, durante o concerto. Tim Steiner também não refreou o ânimo. No final do primeiro fim-de-semana de trabalho já antecipava que a máquina de som de Agostinho Diz teria que ter “um papel grande na apresentação final” da Orquestra Fervença, marcada para a próxima quarta-feira, 17 de Agosto, na praça Camões.
O que mais entusiasmou Steiner foi o facto de, apesar de aquele ser um instrumento “experimental e que provoca ruído” – e que, por esse motivo, podia causar repulsa às pessoas que o ouviam funcionar – este estava a ser recebido com entusiasmo. E isso acontece porque aquele som do carro de vacas ressoa nas memórias das pessoas, que conseguem associá-la a algo que reconhecem. “Porque tem um sentido, não têm nenhum problema com esta máquina estranha”, sublinha o maestro da Orquestra Fervença.
Também para Agostinho foi a memória (a sua e a dos outros) o melhor recurso para tornar este instrumento possível. É verdade que partiu de um modelo existente – um velho carro de vacas que está instalado na sua aldeia. Mas o resto do processo implicou muitas conversas com as pessoas mais antigas da sua comunidade, que ainda se lembravam como era o processo de fabrico das engrenagens dos carros usados antigamente. Depois foi necessário avançar por tentativa e erro, testando soluções, ouvindo os sons errados, até que encontrar aquele que procurava. “Foi uma felicidade”, recorda Agostinho, ainda com um sorriso estampado, quando explica como foi o momento em que ouviu, pela primeira vez, o artefacto soar tal como a sua memória recordava.
O resultado de quase um ano de trabalho foi uma miniatura da engrenagem dos carros de vacas feita com três tipos de madeira locais – freixo, carvalho e amieiro – e oleado com gordura animal. E como funciona o instrumento? “O peso em cima dos carros e a tracção dos animais criava uma fricção entre os diferentes tipos de madeira que compõem aquele eixo e é isso que faz o som”, explica. Na versão em miniatura que fez é uma manivela que é movimentada por si que replica a força dos animais.
Agostinho Diz é técnico agrícola e agricultor em part-time. “Caiu” na Orquestra Fervença “por causa do garoto”, o filho Daniel, o mais novo elemento do colectivo: “Fui cativado pela equipa e pela genialidade do Tim Steiner”. Ao fim de um ensaio estava a passar da plateia para o centro do palco e, em menos tempo ainda, estava lançada a semente para o que viria a ser o estranho instrumento que agora trouxe até ao meio da orquestra.
As Crónicas Fervença saem mensalmente nos jornais “Mensageiro de Bragança” e “Nordeste”, assinadas por Samuel Silva.