Crónica Fervença #7
Viagem. Com gente dentro
Não teria sido necessário estar nos bastidores do Teatro Municipal de Bragança para perceber que aquele tinha sido um momento especial. Minutos depois de “Do Outro lado dos Montes” terminar, viram-se abraços, reacções emocionadas e uma alegria partilhada. Não se conseguia ficar indiferente. Esses momentos tocantes eram, porém, apenas o corolário de um espetáculo em que esta energia especial entre os participantes tinha perpassado pela sala brigantina. Foi no dia 6 de Novembro, na terceira residência artística do projecto da Orquestra Fervença neste ano.
Durante uma semana, um grupo de cantores do Coral Brigantino trabalhou com as irmãs Teresa e Inês Campos. A primeira é cantora e compositora, a segunda é bailarina. Juntas formam Castor e Pólux. Apesar da ligação familiar e da colaboração conjunta anterior noutros projectos, trabalharam em Bragança pela primeira neste formato de dupla criativa. Também por isso, esta foi uma criação especial.
A proposta de “Do Outro lado dos Montes” é a de uma viagem. Como uma viagem, o espetáculo foi sendo dividido por etapas: primeiro há debates e combinações sobre os planos a fazer, depois vêm as despedidas. Há encontros, desencontros. E sempre um forte sentido colectivo, quer na forma como são exploradas as vozes do grupo, quer nos movimentos em palco. A dramaturgia tem uma aparência simples, mas esta é a sua ideia mais forte: este é um trabalho sobre um colectivo, uma comunidade.
E de quem fala esta criação? De Trás-os-Montes e dos transmontanos. O seu título deixa-o antever, mas é no palco que isso se torna totalmente evidente. Muitos dos adereços já quase só se usam nesta região ou são produtos do artesanato local. Depois, além da ideia forte da comunidade, aquilo que dá unidade a este espetáculo é a música. O que ouvimos em palco no Teatro Municipal de Bragança são canções populares transmontanas, facilmente reconhecíveis por todos. É algo em comum entre estas pessoas. E o público.
“O facto de ser uma viagem associada à paisagem local, à montanha, acho que mexeu um bocadinho mais connosco”, reconhece o mastro do Coral Brigantino, Armindo Rodrigues. “Puxou um bocadinho mais ao sentimento. Daí que as pessoas no final estivessem tão agradadas com o que foi o trabalho durante a semana e a representação”, explica.
Numa das cenas mais memoráveis do espetáculo, esta comunidade reúne-se à volta de uma grande toalha pousada sobre as tábuas do palco. Como num pic-nic. Há o sotaque carregado deste lugar, vinho partilhado e, mais uma vez, essa ideia de comunidade, que se reforça. Num momento solene, uma das participantes senta-se a ler um trecho de “Um reino maravilhoso”, a declaração de amor que Miguel Torga escreveu às terras do Alvão e do Marão. É o instante definidor da narrativa do espetáculo.
Mas esta é sobretudo uma cena bonita, pela forma elegante como a luz faz brilhar aquelas pessoas e aquele momento de partilha e depois se reduz gradualmente para acentuar a solenidade da leitura daquele texto. Aliás, ao longo de “Do outro lado dos Montes” há vários momentos belos em termos visuais, construídos de forma simples, através de adereços comuns e um jogo de luz bem pensado. Por exemplo, a toalha em que este grupo de transmontanos se sentou a comer, beber e escutar, foi em seguida transformada numa tenda, iluminada desde o seu interior. Depois agitada de forma ondulada, como se fosse a acção do vento sobre as águas. Processos simples, imagens marcantes.
No final de “Do Outro lado dos Montes”, Cândida Martins, a presidente do Coral Brigantino, era uma das pessoas mais emocionadas entre o grupo de participantes. “Deu-me um gozo tremendo fazer este espetáculo. Tive a oportunidade de fazer aquilo que eu, cá no fundo, bem no fundo, gostava de ter sido”, confessa. Hoje está aposentada, mas trabalhou durante décadas nos serviços do Ministério das Finanças em Bragança: “Se tivesse nascido noutro sítio, se calhar teria sido artista”.
As Crónicas Fervença são publicadas mensalmente nos jornais “Mensageiro de Bragança” e “Nordeste”, assinadas por Samuel Silva.












