Girou na cama e suspirou insone. Ao lado, de bruços, Loki dormia profundamente após um dia tedioso e estendeu-se para beijar o ombro descoberto. Ele acordaria facilmente se não estivesse tão cansado do dia anterior. O outro sequer moveu-se.
Aproximou-se mais, tirando o cabelo das bochechas esguias e colocou a mão sob ele, na nuca. Era fria. Mais fria que qualquer um em Wakanda, todavia não naquele mundo. Ainda que para T’Challa fosse refrescante Loki moveu-se incomodado.
— Está cansado? — sussurrou ainda que fosse o que parecesse.
— Insônia? — perguntou Loki sem abrir os olhos. — Quer ajuda? — sugeriu sem o olhar, de sobrancelhas arqueadas.
— Não — sorriu com a preocupação e quão patético seria se fosse o caso. — Quero te convidar para explorar por aí.
— Por aí? — questionou virando-se para o teto escuro de braço sobre os olhos ao bocejar.
— Temos algum tempo até o nascer do sol e começar a ficar quente demais, pra você, lá fora.
Loki sentou-se com o braço no joelho dobrado, pensativo sobre aquilo. Bocejou. Se realmente estivesse cansado teria todo o dia para dormir ao ser trocado por política. T’Challa segurou seu ombro despido do corpo agora à mostra até os quadris.
— Não será cansativo — garantiu. — Eu juro — afirmou em incentivo.
Levou-o rapidamente pelos corredores, espiando momento ou outro sabendo que eram monitorados através das câmeras — ao menos dentro do palácio. Antes de saírem, com a escolha de trajes da pouca bagagem de um Loki que recusou-se a fazer uma nova estando tão sonolento, T’Challa programou uma mensagem para daí a algumas horas, quando o sol nascesse.
Era um risco adorável de superar.
❈
Caminharam um pouco além do que prentediam. A ideia de sua majestade era de estarem deitados sob o firmamento juntos, consumirem-se sob testemunho das estrelas, sexos pela brisa — apenas quando estivessem cansados. No entanto Loki não tinha nada em mente, ao menos até despertar o suficiente para ter ideias a cada passo — um adestrador de feras, diriam as estrelas.
Guiou o próprio caminho antes que T'Challa notasse, sendo seguido ao embrenhar-se mais e mais entre as árvores. Depois poderia descobrir o caminho sozinho após alguns minutos de caminhada, ou apenas flutuando acima das árvores — antes de se tornar um alvo —, mas tinha um guia melhor do que o próprio senso de direção.
T’Challa beijou-o como se um instante antes não tivesse feito o mesmo, surpreendido pelo movimento incomodado quando Loki preferiu afastar-se. Viu-o erguer os braços para o largo galho mais próximo antes de pendurar-se com as pernas cruzadas e olhá-lo de ponta cabeça em convite: — Vamos? — convidou.
Sorriu e seguiu-o. Galho a galho cada vez mais alto, e na ponta dos pés, sem que T’Challa algum dia pudesse alcançar, Loki entregou-se ao vento que privilegiava as copas das árvores, e como elas nada viu.
Encontrou o rei recostado ao tronco quando desceu, alguns centímetros, para o galho inferior onde abaixou de joelhos altos, quase sentado. O parceiro não demorou a notar a mudança de roupas, uma perigosa arte para os desatentos, preocupou-se: — Uma coberta? — questionou. — Está com frio?
Com a graciosidade permitidas apenas aos deuses Loki manteve os pés firmes ao se levantar e soltar a gola larga demais do estranho traje que escorregou dos ombros para desaparecer nos galhos metros abaixo.
Outros seres apenas tomavam ou não aquilo que queriam, com todas as suas forças para conseguir ou recusar a investida hostil. Mas os humanos… eram complexos e diferentes. Seduzir e cortejar era algo da sua natureza. E adorava reduzir-se àquela.
Suspirou para a lua alta quando o peito foi tomado por lábios tão urgentes, e manteve a cabeça do — seu — rei ali, lhe alimentando o desejo ao tempo que o seu era saciado. Parte da boca ocupada para algum diálogo e ambas em seguida, alimentando-se mutuamente, famintas, e Loki pressionou os músculos das nádegas mais de uma vez, com desejos tão conflituosos quando se limitava por aquele humano.
Distraiu-se um instante com cinto e botões, próximo o suficiente para sussurrar:
— Como as panteras fazem? — questionou devasso.
Queria-o, naquele instante e lugar, para a lua e o sol que chegaria, e passou por trás de Loki para sussurrar: — Cercam-se. Observando. — Rodeou o tronco a cada momento agitando as folhas de um galho ao também se despir, então estendeu a mão em convite. — Esperam a outra aproximar-se — sussurrou depois de o puxar pelos dedos, e rodeou-o com os próprios braços, abraçando-o de costas antes de apoiar a mão em seu quadril. — Elas arranham para saber que as garras são afiadas. — Deslizou as unhas até o umbigo até que a mão fosse pressionada por Loki, e continuou até raspar a pele.
Deslizou as unhas da outra mão um pouco mais, pelos ombros e pelas coxas longes da sua vista, antes da virilha, provocativo ao mordiscar as omoplatas — onde a boca alcançava. Beliscou com os dentes até Loki torcer-se e tentar escapar, então suspirou e o arrepiou ao deixar sentir sua respiração morna quando continuou: — O mordeira sem ferir, e o cobriria assim — explicou fazendo-o acompanhar seu movimento para baixo, até estarem sobre joelhos e mãos, como animais — para que não escapasse quando o penetrasse.
O fez, sem avisos maiores do que o toque entre a carne, repentinamente. Abraçado ao seu peito esperou-o recuperar-se, e beijou os ombros diversas vezes até que os batimentos fossem de expectativa invés de apreensão.
— Você está bem? — perguntou.
— Sim, minha pantera… — respondeu com um sorriso lascivo.
Confirmou lhe dando liberdade para mover-se como um animal faria. Estava apoiado em mais de um galho, no território encontrado por quem o cobria, e não importava que não fosse a melhor vista quando manteve os olhos fechados para a escuridão. T’Challa equilibrava-se, atrás, com ambos os pés em um mesmo galho enquanto os dentes ainda continham-se contra seu pescoço, e seu cabelo deliciosamente puxado que o forçava a receber ar em seu rosto.
Firme, sem que Loki tivesse as mãos livres, os suspiros mesclavam-se às folhagens sacudidas, mais audível quando T’Challa pressionou onde queria ser tocado, tendo ambas mãos livres e mantendo uma na coluna do parceiro quando afastou o peito dos ombros do outro ao continuar.
— Eu… amo a sua força — sussurrou. — Amo que esteja disposto a essas loucuras, porque você é tão… — falou esquecendo-se as palavras — ...maravilhoso.
Loki não respondeu, limitando-se a pender a cabeça um instante. Tentou levantar uma das mãos pra mudar de posição e voltou a apoiar-se no mesmo lugar de imediato antes de T’Challa tornar a debruçar-se, lhe sustentando a mão para que estivesse de joelhos ainda que protestasse divertido: — Pensei que seria outra pantera — falou com algum esforço. — Minha pantera — especificou.
— Sua pantera — jurou em suspiro, com a mão coberta sobre o próprio quadril, movendo-se em conjunto. — A única da qual precisa. A única… — calou-se, guardando as palavras para assim que se acostumasse com a sensação da nova posição, cada uma delas sem nome. — Iss… Destarte, destar… — Os músculos das costas manifestavam-se, cansados, e tampouco gostaria de terminar naquele momento. Segurou-se aos pulsos de T’Challa. — Você é… de muito agrado…
— Agrado? — queixou-se com uma investida repentina que o fez soltar uma das suas mãos. — Vou te fazer lançar nas raízes, meu amor. Gosta quando me movo assim?
— Gosta quando me movo assim? — repetiu provocando-o com o deslocar dos quadris, e soltou as mãos para os galhos quando T’Challa moveu-se subitamente outra vez.
— Eu amo qualquer coisa que faça. Eu amo… eu amo… — Beijou-o no ombro esquerdo. — Qualquer coisa que tenha pra mim. — Beijou-o no outro ombro e gemeu quando o quadril moveu-se contra o seu em círculo novamente.
— Midgard… planeta dos amantes — disse para o céu entre a folhagem vendo o horizonte que clareava. — Encantador paraíso de enamorados e apaixonados...
Sua respiração era agressiva, apenas aguardando cumprir sua promessa para entregar-se, vencido. Acompanhou o peito arquejante de Loki e os dedos deslizaram mais quando espirrou e gotejou para metros abaixo, ouvindo a voz enérgica dizer: — Isso, árvore. Alimente-se de mim! — ordenou de vaidade arrogante.
Apenas então comprimiu seu quadril contra o do outro, em um gesto ainda viciado. Tentou apoiar-se e puxar o parceiro para mais perto do tronco, para o ter entre os braços ao descansarem. Porém não era um deus.
Foi seguro a tempo, e agarrou-se ao pulso de Loki como esse o havia impedido de cair. Erguido com delicadeza até que estivessem de pé e o radicado Asgardiano verificasse, nos seus olhos escuros, se não havia passado de um susto e estava bem. Então foi beijado e suas coxas largas erguidas para enroscarem-se nos quadris de quem podia caminhar de olhos fechados até a segurança.
Loki abraçou-o à sua frente quando acomodaram-se de frente para o sol que nascia, antes de T’Challa erguer uma das mãos para tirar uma folha e envolver o preservativo antes de guardar no bolso da roupa estendida ao lado.
— Como pode ferir essa magnífica planta? — censurou-o Loki.
— Uma folha, apenas, perto de tantas… — inclinou a cabeça um pouco para trás, para um beijo na têmpora. — É uma das nossas árvores mais resistentes.
— Então ser rei o permite vandalizar vegetais — concluiu.
— Você viu quantas derrubamos à pouco? — contestou-o.
— Caíram por um motivo mais nobre — retrucou para risadas de T’Challa que encontrou as pupilas quase douradas, voltadas para o sol. — É das árvores mais fortes, não das mais espertas.
— Prometo não retirar mais para isso — atendeu-o, envolvendo-se mais nos braços delgados. — Não ‘vandalizarei’ seu reino.
Não tinha um reino, e não o diria. Talvez um dia encontrasse amigos ali, mais do que vigias ou colegas. No entanto nunca exigiria uma parte daquele território ou daquele mundo — ou de qualquer outro além do que foi negado de Asgard —, mesmo que houvessem filhos envolvidos…
❈
Ainda que soubesse seu paradeiro, as Dora Milaje não gostaram de ver o rei chegar após o amanhecer, sem qualquer escolta, para descobrir que não era realmente T’Challa quando outro, acompanhado de Loki, aproximava-se em maior desalinho. Loki manteve a mesma capa longa sem abertura para mangas, protegendo-se precariamente do sol que o deixaria vermelho se não fosse por aquele veludo mais claro ou escuro conforme as ondulações do tecido verde.
— Espero que não tenha esquecido os compromissos do dia — Okoye lembrou-lhe de mau-humor.
— Não, jamais — afirmou. — Dê-me alguns minutos para aprontar-me — pediu, amparando as costas de Loki para que fosse à frente.
— E não brinquem de sósias à vista dos outros — exigiu.
— Sim — concordou T’Challa voltando-se brevemente —, não acontecerá outra vez.
Lavaram-se rapidamente, no chuveiro em cascata em outro ambiente do mesmo banheiro.
— Descanse — pediu sob a água —, e espere-me. Tentarei voltar antes do jantar.
— Como se eu fosse a algum lugar.
— Poderemos explorar novamente mais tarde — sugeriu.
— Serei acusado de o desviar.
— Não será acusado de coisa alguma — afirmou. — Cresci aqui, com a guarda real e muitos dos súditos. Eles podem atestar minha natureza… Apaixonada.
Tomou-lhe o rosto para um longo beijo antes de apressar-se para sair, e antes de fechar a porta observou Loki deitado apenas com a toalha — tentador — sabendo que não se daria ao trabalho de vestir-se ou criar um traje para o dia que passaria na cama, solitário. Sugeriria alguma companhia se não soubesse que dormiria o que não pudera à noite.
O telefone vibrou sob sua mala na longa mesa do televisor, e iniciou novamente após a ligação cair. Puxou na memória quando havia falado com o irmão pela última vez — com sexo todos os dias poderia ficar um pouco confusa —, e fez o aparelho flutuar até sua mão até ver a quantidade de notificações que haviam. Então atendeu.
— Loki! — exclamou aliviado. — Onde esteve? Te ligo desde a noite para…
— Estava em cima de uma árvore, vendo estrelas até o nascer do sol, com o vento em todo o meu corpo enquanto… — começou a relatar.
— Para — gritou. — Para! Foi uma pergunta retórica. Milano tinha...
— Ótimo… — respondeu distraído ao apoiar o tornozelo no joelho. Exposto para o vazio.
— Está tudo bem mesmo? — confirmou. — Depois do pronunciamento?
— Claro… Quem é Milano?
— Eu sabia… Loki, é o nome da espaçonave de Quill, o seu ex… Ela…
— Explodiu no espaço?
— Não! Ela deu entrada na Via-Láctea há algumas horas, está em Midgard nesse momento.
Loki sentou-se rapidamente antes de perguntar: — Está aqui?
— Não, não está aí. Ela planou um tempo aqui na base de operações. Está a caminho do Missouri, agora.
— O que esse idiota está fazendo? — resmungou.
— Eu não sei, mas… Achei que deveria fazer. Não cause um confronto.
— Pantera e ‘Das Galáxias? Como eu impediria um conflito entre eles sem causar um conflito. Obrigado por não impedir a entrada dele.
— O que queria que eu fizesse? A coletiva de imprensa ainda está sendo transmitida e retransmitida. E eu não poderia impedi-lo de voltar para cá, é um terráqueo. Somos mais intrusos do que ele.
— Que o impedisse como fosse, então — irritou-se antes de desligar.
Arremessou o aparelho fazendo partes se soltarem antes de apoiar a testa nas mãos, os braços sobre os joelhos. Respirou fundo e após a decisão tomada os trajes mudaram para algo liso e emborrachado, o habitual couro preto e verde. Então, com os planos, levantou-se e não se importou com a porta deixada aberta.
Em minutos depois, depois de retornar ao laboratório de Shuri, deixava Wakanda sob escolta, com sequer um veículo para maior comodidade. Cinco delas seguiram-no para além da fronteira e alguns passos além, determinadas a estarem próximas quando T’Challa perguntasse pelo amante.
Não demorou em nada para que a armadura estivesse ao seu lado, recebendo um olhar irritado de Loki ao pousar a caminhar próximo enquanto dava o alerta até que Tony assumisse o controle para questioná-lo: — Para onde está indo? Deixou corpos?
— Saia daqui, Tony — pediu paciente.
— Eu deixei essa armadura justamente para o caso de você fugir da cena do crime.
— Não direi novamente — ameaçou.
— Então está fugindo? Porque sei que T’Challa está em uma reunião sobre…
Parou de caminhar e pressionou os dedos contra a palma, amassando o metal da perna antes que a armadura passasse a se arrastar com emissão ainda em funcionamento: — Não pense que isso vai me impedir de…
A outra mão fez o trabalho de esmagar todo o metal, sem dar chances de ser seguido por aquele aparelho naquele momento, uma advertência à companhia que recuou um passo mais, ainda em alerta.
— O Rei T’Challa em breve estará aqui — disse uma delas —, por isso deve falar com ele antes que tome qualquer atitude.
Com um gesto da mão para trás riscou a areia com força o suficiente para erguer a poeira e as fazer recuar mais. Não precisava ser seguido, no entanto, se as ferisse, jamais seria perdoado. Um perdão que nunca precisaria ou exigiria, mas que ainda assim lhe faria falta no caso de algum passo em falso.
A voz entrecortada de Tony retornou, lhe advertindo a sair dali o mais rápido possível antes que fosse alcançado pelo cientista. O minúsculo aparelho ergueu-se do monte danificado que deixou, à altura de seus olhos antes de ser esmagado com faíscas.
Trançou a folha que derrubou de uma árvore — se o rei o fazia, por que seu amante seria menos atrevido? Apenas era uma folha maior… —, e com um passo estava sobre ela, erguendo-se da poeira para os céus. Uma longa viagem tão longa quanto pudesse.
Em princípio seus vigias imaginariam ter colocado seu localizador em um avião, e depois Tony ou Carol encontrariam, ou esperariam que chegasse à Mansão dos Vingadores. Todavia, seu destino era outro, ainda que além mar, ainda que no mesmo país...
❈
Enquanto T’Challa era informado, em uma reunião global de colaboração no tratamento de recursos alienígenas para controle e armazenamento de materiais perigosos e outros desconhecidos, Loki chegava à cidade de Missouri decidido a caminhar um pouco.
Parou atrás da nave estacionada ao ouvir os passos apressados e atrapalhados na rampa de desembarque, e logo viu Quill tentando apagar a manga incendiada, no lado de fora para evitar que todo seu veículo fosse incendiado. Contemplou-o em silêncio até ser visto pelo humano que parecia dependente como uma criança, com sua natureza desastrada.
O capitão paralisou ao vê-lo ali. Não estava em seus planos, por isso decidiu ir para casa mesmo após ponderar em Nova Iorque por tanto tempo. E Wakanda estava fora de questão, um território hostil onde Loki havia escolhido se abrigar.
Tentou um aceno e um sorriso, porém não aproximou-se, e sem rodeios Loki o fez.
— Deveria vender essa nave para o ferro velho, e ter outra — sugeriu.
— Uma asgardiana? — respondeu.
— Uma que não o mate incendiado. Onde está o restante da sua trupe?
— Tripulação — corrigiu-o mesmo que soubesse ser uma provocação. — Quando finalmente aprenderá nosso idioma corretamente? — reclamou.
— Quando aprender o meu.
— O de Asgard ou de Jotunheim?
Loki suspirou, não era por aquilo que estava ali, e sim para colocar pontos finais uma vez que Quill o havia procurado, ainda que o capitão nunca tivesse o atrevimento de confessar. Aproximou-se mais e o contornou.
— De qualquer modo aqueles seres inconvenientes não parecem estar…
— Parceiros — suspirou. — Amigos — corrigiu-se com medo de sar mal interpretado.
— Se você diz…
De pés firmes Quill marchou pela rampa para continuar no reparo da fiação acima da cabeça, com um breve curto quando foi seguido, e com um gesto Loki interrompeu a eletricidade ali, mesmo que — interrompido da atividade — o outro houvesse desistido.
Loki conteve-se de sorrir, em respeito à sensibilidade humana e sua inclinação em trocar os pés pelas mãos. Quil resistia a olhá-lo.
— Veio para…
— Vim porque estava há tempo demais fora de casa — mentiu Quill.
— Entendo… quando não considera aqui como sua casa — sussurrou. — Imaginei que tivesse visto a coletiva.
— Não — interrompeu-se para pigarrear. — Não por isso — continuou a mentir. — Mas seria mais íntegro ter me avisado.
— Para qual das estrelas eu deveria gritar por todo o universo? — perguntou retoricamente. — Deveria ter me avisado que partiria, depois de conceder o tempo que os humanos gostam de adotar quando querem prolongar o rompimento de uma relação. Prefiro que seja breve, sem estender-se, e implorou por apenas um tempo para pensar em tudo o que eu já havia feito. — Cruzou os dedos à frente do peito e arqueou as sobrancelhas, sem o olhar se não queria ser olhado. — Então pergunto a questão que me fiz: porque, coincidentemente, você está aqui?
— Não vim atrapalhar seu novo relacionamento — afirmou com amargor. — Apenas não o deixe ‘dar um tempo’ como eu insisti tanto.
— Dois anos de tempo. — Formou aspas com os dedos.
— É. Se der um tempo ele não tem como viajar para o espaço para impedir um término.
— Diga o que quer voltando para casa, Quill — insistiu com um passo mais, para o pressionar contra a parede. — Não para esses reparos, de fora da Galáxia.
— Não, isso foi o Rocket Raccoon, que derramou a bebida quando chegamos.
— Quando pretende ir?
— Tem tanto medo assim que eu estrague seu relacionamento? — questionou com um sorriso.
— Não — afirmou. — Talvez ele te mate, talvez eu te mate… Em quaisquer das opções a culpa recairá sobre mim. — Sacudiu os ombros de modo ingênuo. — Como os humanos despedem-se? — questionou.
— O quê?
— Como se reconciliam e terminam os relacionamentos definitivamente.
— Vão para longe, e nunca mais olham-se.
— O que você fez, ao partir — acusou.
Quill desviou o olhar, voltando à fiação agora sem corrente, obrigando-se a concentrar em outra coisa que não aquela conversa.
— Achei que não terminaria se eu estivesse longe — confessou.
— Então ainda estamos dando um tempo? — questionou com estranheza.
— Eu… gosto de você. E se, mesmo longe ainda fossemos um casal, estava bem para mim.
— Então viu a coletiva.
— Mais dolorosa do que terminarmos — afirmou. — É como se houvesse me traído.
— Ah… a complexidade humana para as relações…
— Sei que não me traiu — assegurou. — Ao menos a lógica sabe. — Inclinou rapidamente a cabeça. — Mas não muda o fato de que eu o queira na cama uma vez mais… ao meu lado… — divagou praguejando a própria estupidez.
— Entendo…
— Não precisa fingir entender.
— Porque não sou humano… e humanos tratam afeto como contrato… Um acordo.
— Não… não é isso… — Aproximou-se. — Não sente nada mais por mim? Realmente? — questionou instante antes de investir.
Uniu os lábios em quem não moveu-se, de olhos fechados por alguns segundos até afastar-se sentindo-se ridículo com aquele ato. Seria do que Loki o chamaria se não estivesse ocupado vasculhando o chão com a boca entreaberta em alguma surpresa.
— Lamento — desculpou-se —, talvez seja melhor você ir.
— Talvez imagine que eu tenha esquecido como éramos.
— Acredito que eu tenha sido apenas um passatempo… — desconcertou-se ainda mais.
— Preciso confessar que eram momentos divertidos, talvez únicos — confessou. — Nunca confundi seu nome, confundi? — questionou-se em um sussurro.
Orgulhoso Quill não deu-se ao trabalho de responder à afronta, indo ao armário sem notar o gesto e passos de Loki antes de o ouvir novamente.
— O que acontecerá quando você partir? — Loki questionou
— Como assim?
— Viverá sua vida, ou se matará? Dizem que a dor da paixão humana é a pior que existe.
— Gostaria de me ver morto?
— Eu seria culpado por todos, de qualquer modo… — suspirou. — Pobre Loki, sempre responsável por todas as tragédias… — falou sarcástico.
Quill beijou-o novamente, recebido por lábios entreabertos dessa vez. Apertou o comando para fechar a porta algumas vezes até que Loki entendesse que deveria restabelecer a energia para que fosse trancada.
Tomou-lhe os firmes e esguios quadris à frente ao saciar-se nos lábios que há tanto tempo era privado. Quando caiu no estofado Loki também arquejava acima, desequilibrado pela falta de apoio, e afastou os cabelos escuros do ombro para o puxar pela nuca — havia sonhado com aquilo tempo demais para conter os próprios dedos.
Não demorou a despir-se.
Ou a despí-lo.
Logo Loki falava às suas costas ao mover-se dentro do outro: — Era por isso que estava melancólico?
— Sim… — sussurrou de olhos fechados. — Sim, por favor… Como antes… Como… você gosta… A serpente...
Loki bocejou e serviu-se da misteriosa bebida naquela garrafa, silencioso e furtivo. Inclinado no sofá Quill alcançou-lhe uma das mãos que segurava seus ombros por baixo do braço, levando-a para entre as próprias pernas onde os pálidos dedos tornaram-se a boca da serpente, com a mesma voz entrecortada que havia implorado: — A serpente banguela… — gemeu abocanhado, sua postura preferida, e arriscaria dizer a de ambos.
Pendeu a cabeça. Queria-o há tempo demais para querer que se encerrasse tão rápido, e sentia-se urgente demais para esperar. E o outro aguardou, paciente, quanto finalmente se satisfaria e o deixaria ir para onde devesse estar.
Bebeu mais daquela bebida contrabandeada e manteve-se fazendo o que era esperado. Novamente em alguns minutos, imaginando quantas horas seriam necessárias antes de Quill precisar descansar aquele sorriso de alívio em reencontrarem-se.

















