31 anos, desleixada e deprimida.
Dizem que é a partir dos 30 que começamos a gostar de quem realmente somos. Dizem que é a idade em que começamos a aceitar as nossas imperfeições, ou que pelo menos ficamos mais tolerantes a elas. Não sei se quem disse isso falou com o coração, mas de certeza que essa setença não se aplica à minha pessoa.
Continuo a ser a mesma rapariga timida, com falta de auto-estima e amor próprio e com uma certa tendência para o descontrolo. Sou aquela a quem já lhe poderiam ter diagnosticado a bipolaidade, tendo em conta as oscilações de humor que sofro num dia. Sou aquela que ainda recorre muito ao escudo para se proteger de uma sociedade com a qual não se identifica minimamente. Sou aquela que podia viver do simples e do cliché para ser feliz. Sou aquela que não quer que a sociedade influencie a sua maneira de ser e de estar, mas que se deixa influenciar de uma maneira quase imperceptível.
As pessoas que me tocam contam-se pelos dedos. Vivo com o meu namorado que adoro, tenho 2 ou 3 amigas que vivem por perto, mas na realidade é como se vivessemos longe. Tenho 3 ou 4 colegas de trabalho com quem partilho grande parte do meu tempo e tenho 2 amigos queridos que devido à distancia só os vejo 2 a 3 vezes no ano. E claro, a minha grande e dispersa familia, com a qual nao me relaciono muito, tirando as 2 mulheres mais importantes da minha vida.
Resumidamente sou uma pessoa muito solitária, procuro sempre escape para a minha solidão, quer seja a empatar tempo a ver séries na televisão, a cozinhar, a comer e sempre através da música (a minha eterna companheira), mas quando chega ao momento em que tenho de interagir com pessoas, escolho sempre o silêncio e a minha própria companhia, que nem sempre é a escolha mais acertada tendo em conta a mente poluída que tenho vindo a desenvolver desde o momento em que me formei como embrião na barriga da minha mãe.
A minha mãe desde que a conheço como tal, sempre foi uma mulher super nervosa, medrosa e mal amada e isso levou a pessoa com o coração mais puro que conheço a desenvolver uma grande falta de auto-estima e auto-confiança, tudo culpa do homem com quem casou, que por sinal é meu pai. Desta forma desde o meu nascimento, que tenho tido acesso ao desenrrolar do relacionamento mais tóxico que tenho conhecimento, que por sinal é o dos meus pais. Um relacionamento baseado em mentiras, traições e agressões essencialmente verbais. Onde a minha mãe interpreta o papel de vítima e o meu pai o de vilão. É assim que se relacionam à 31 anos, que eu tenha conhecimento, pois pelo que a minha mãe me conta, até à data do meu nascimento ele tinha outro tipo de comportamento, apesar de "já fazer das suas". Desta forma, questiono-me sempre sobre a razão de ter sido gerada por duas pessoas tão diferentes, tão odiosas mutuamente, e onde parece que nunca existiu amor (talvez tivesse existido ilusoriamente na mente da minha mãe). Fui gerada para absorver tudo o que de pior se pode absorver num relacionamento entre dois seres humanos, o ódio, a mentira, a traição e a falta de respeito. Foi no meio destas frequências energéticas que eu cresci e me tornei adulta.
Hoje com 31 anos, sou uma mulher adulta igual à minha mãe, não só fisicamente como também emocionalmente. E para além disso, ainda desenvolvi em mim um sentimento de revolta tão grande que me transforna neste furacão que da boca para fora mata tudo e todos com palavras agressivas, das quais se arrepende logo após o período de erupção. Sou ainda pouco dada a elogios, pois por mais carícias no ego que eles me façam, à segunda análise, penso sempre que não podem ser verdade, tendo em conta que são remetidos a mim, e concluo logo que não passam de mentiras que as pessoas deitam cá para fora só para serem simpáticas.
Apesar de tudo, nunca foi de todo o meu objectivo, desenvolver o papel de coitadinha como a minha mãe. Sempre aspirei ao papel de rebelde e justiceira, onde consigo ser forte e independente dos outros, optando por não criar demasiados laços com as pessoas que me rodeiam. No entanto, ao que parece o universo não consentiu que a minha jornada aqui fosse assim tão fácil e por isso decidiu dar-me a sensibilidade como presente, para que assim possa absorver de tudo ao mais alto nível, quer seja o que é mau, quer seja o que é bom e o que é bom um dia será mau e vice-versa. Portanto para além de todas as más características que me foram genéticamente passadas, ainda me foi atribuída a sensibilidade, enquando era tão mais facil ser fria, ausente e distante.
Desta forma a minha sensibilidade afecta imenso os meus relacionamentos interpessoais e na maior parte das vezes não de uma forma possitiva, pois quase sempre dou por mim, inconscientemente a testar a pessoa que está a meu lado, comparando o seu nível de sensibilidade e a sua capacidade de amar com a minha. O que acontece, é que grande parte das vezes as pessoas não foram preparadas para esta carga emocional e sentimental e por isso, no fim de contas, sinto-me sempre mal correspondida, mal amada e mal entedida num relacionamento, enquanto a outra pessoa se sente sempre inútil .
Para além de todo este historial de emoções em que me encontro envolvida, tenho sempre comigo a estranha sensação de não pertencer ao período de tempo em que vivo, não consigo compreender o comportamento humano da minha geração. Não consigo perceber a superficialidade, o excesso de materialismo, a constante boa disposição e a tão invejável perfeição que todos parecem ter nos tempos em que vivemos. Parece que vivo num mundo perfeito, saído de um clip da Katy Perry, feito de algodão doce e unicórnios, em que tudo é colorido e glamoroso. As vidas vêem-se perfeitas, as pessoas vêem-se perfeitas, exibindo os seus corpos "malhados" nas redes sociais, a indumentária está sempre de acordo com o que está mais "in" no momento, e todos parecem ter estudado para estilistas e "influencers", o que acabou por se tornar na profissão mais ambicionada e mais bem paga da minha geração, onde apenas os perfeitos encaixam, dedicando-se arduamente à partilha do que é inalcançável aos meus olhos e inatingível a todos os níveis.
Vivo numa geração que estimula e incentiva ao supérfulo e à perfeição, e apesar de se saber que tudo isto não passa de mais uma fase, de uma moda, de uma cegueira global, as pessoas não desligam do seu foco em tentar alcançar a perfeição, deixando de parte o essencial da vida, que são as relações interpessoais, a familia, os verdadeiros amigos, a natureza, o cultivo da paz interior e exterior e o simples facto de existir-mos e ter-mos uma vida, cómoda ao lado de quem gostamos.
Sinto-me cada vez mais sufocada e sem voz numa sociedade de clones ignorantes e ocos. Sinto-me sufocada e invisível por não estar de acordo com os padrões aceites pela minha geração. Sinto-me sufocada por não ter um corpo igual ao da Kim Kardahian, por estar acima do peso, por ter o cabelo encaracolado e curto ("oh meu deus!!! O que foste fazer ao cabelo?, tinhas um cabelo tao bonito") , por usar óculos e não gostar de olhar para mim carregada de maquilhagem. Sinto-me "out" por não seguir a moda, por preferir estar em casa em vez de numa discoteca a socializar com desconhecidos, por preferir visitar a natureza aos centros comerciais e por comer a fatia de bolo em vez do batido de proteína.
Esta sou eu, uma mulher de 31 anos, demasiado sensível para a sua geração, que prefere uma noite de mantas e abraços a uma noite de copos e selfies, perdida numa sociedade formatada a existir apenas para ser apreciada e desejada. Irreal. Onde ficou a essência que nos caracteriza a todos nós individualmente? Deve ter-se perdido num planeta chamado Instagram...
Para ti, meu amor posso não ser a mulher com quem sonhaste, aliás vocês homens, sonham todos com a mesma mulher: a típica gaja boa, preferencialmente de longos cabelos loiros, trabalhadora, dona de casa, mãe dos teus filhos, e tua serva sexual. Para ti posso não ser a mais gira do Instagram, a que todos seguem e almeijam ter/ser, aquela que tem mais de 1 milhão de seguidores e que nem precisa dizer nada para receber uma avalanche de gostos, pois a sua imagem fala por si. Pois meu amor, eu nunca serei essa mulher, mas não é por isso que não mereço tamanho respeito e dedicação, como o que dedicas às influencers, a quem alimentas o ego e os bolsos com o teu coração virtual.
Para ti, eu serei sempre aquela com quem podes contar, para o bem e para o mal, aquela que te fará o jantar todos os dias e que tratará de ti quando estiveres doente, para ti serei sempre a cavalona que te cavalga como gostas, mas que não exibe o corpo das influencers que tu gostavas de cavalgar. Para ti, serei sempre aquela que perdoa e que vai atrás, como a minha mãe sempre foi para o meu pai.
Lamento informar, meu amor, mas eu sou mais do que a tua realidade, sou mais do que a realidade dos meus pais, sou mais do que a irrealidade virtual, sou uma mulher de 31 anos independente, sonhadora e perseverante, capaz de acalmar o mundo com todo o amor que tenho dentro de mim, capaz de amar incondicionalmente, incapaz de odiar quem quer que seja, mas acima de tudo incapaz de abandonar os seus sonhos. Essa sou eu meu amor, a menina que continua à procura do que é real, do que é sentido, do que é verdadeiro. Se me aceitares como sou, prometo nunca desistir do nosso amor, mesmo quando a vida nos fizer repensar, mas se nunca me aceitares como sou também te prometo que nunca vou desistir de mim própria.