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[5] Névoa
Os pensamentos vão se esvaindo da minha cabeça a medida que meus sentidos começam a prevalecer. Aquele calor confortável começa a desaparecer lentamente enquanto continuo a descida, que se prova cada vez mais difícil a medida que o desfiladeiro se mostra cada vez mais íngreme. A névoa que eu havia avistado de cima da colina passa a ser mais visível e mais densa a medida que continuo a descida. O calor some por um todo, sinto frio, enxergo pouco no horizonte. A névoa encoberta muito bem o que há por baixo de qualquer viajante passando de avião ou outra forma aérea. Só foi possível notar as lindas cerejeiras de cima da colina. Minha visão passa a ser mais nítida a partir de certo ponto da descida. Me aproximando do chão, consigo ver sakuras enfileiradas de maneira desuniforme, imperfeita. O frio fica mais intenso, o que seria um problema, não fosse o agasalho que trazia comigo, dentre outras várias coisas que estavam na mochila. O chão é revestido com pedras semi-retangulares, como se colocadas ali por alguém...
"Um momento..."
Elas foram definitivamente colocadas por alguém. Tanto as sakuras quanto as pedras no solo. Mas quem? Talvez haja alguém vivendo aqui em baixo? Improvável, o acesso as áreas mais altas é dificultado pelo desfiladeiro.
- É um ótimo esconderijo, sejamos sinceros....tecnicamente isolado de tudo e todos....exatamente como eu quero...
Seja lá que civilização que vive ou viveu aqui, acho melhor explorar mais essa área. Talvez ache alguém aqui em baixo, com o mesmo propósito que o meu....
"Se realmente houver alguém aqui, espero que ele seja amigável...."
[4] Calor da Alma
Continuando em descida, o leve brilho do sol nascente substitui então o rio e a floresta em minha jornada. É uma sensação confortável, que me deixa esquecer levemente o que antes chegava a ser completamente aterrorizante: O sentimento de solidão. Para alguns, estar sozinho é algo bom, o que os deixa com paz na sua mente para pensar em tudo o que quiser. Para outros é assustador estar sozinho, somente com seus pensamentos que assombram uma alma aflita.
Essa combinação de sentimentos, medo e conforto, é algo incrível. É como se isso me tornasse uma bomba relógio de sentimentos e que ao mesmo tempo estivesse vazio de todas as formas possíveis. Vagamente debatendo comigo mesmo sobre a razão de viver. Todos temos uma proposta na vida, não é mesmo? A grande jornada é encontrar essa proposta. Alguns acham cedo, outros acham em seu leito de morte e alguns fingem muito bem que encontraram, quando na verdade estão assim como uma parte de mim, vazios e sem respostas.
O desfiladeiro me desafia, desconfiando da minha vontade de conseguir aquilo que quero. Não acho uma descida apropriada para chegar ao bosque abaixo. Ainda é possível ver a paisagem que eu supostamente havia deixado para trás. Progresso não é exatamente a palavra que define esse breve momento. Me deixei levar muito pelos pensamentos e perdi o foco. Quase passa despercebido que há um filete de terra curvado em descida do desfiladeiro, como uma escada deixada ali para facilitar o caminho. É como se todos esses elementos estivessem me guiando pra onde eles acham que eu deveria estar...
- Bem prático isso. Parece até que foi feito por outra pessoa que seguia caminho até aqui. - Pensei em voz alta.
Considero a descida, que de início parece arriscada, mas as rochas, firmes onde estão, promovem a segurança necessária. Passo a descer lentamente, tanto por medo quanto por calma.
"Já passei uma noite inteira caminhando e não senti a minima vontade de me apressar."
É como se minha mente apreciasse cada momento do caminho até o momento. A descida é curiosamente simétrica em alguns pontos, mas pela profundidade do desfiladeiro é muito provável que ninguém nunca tenha chegado a esse local. Talvez até tenham avistado a névoa, mas não haveria nenhum motivo para se explorar essa terra. Pacientemente deixo meus pensamentos de lado e foco em descer esse desfiladeiro com segurança
[3] Manhã Rosada
A floresta passa a ficar menos densa, enquanto a luz do dia passa por minha retina. O sol aparece, cheio de si, aquecendo meu corpo frio da noite passada em busca de Nezaxiis...
"Porque Nezaxiis? Essa foi a composição de letras mais estranha que chegou a minha cabeça....Mas ainda sim é um bom nome."
Nem todas as coisas boas precisam de sentido, não é? O nome do meu paraíso não precisa de sentido, uma vez que eu esteja lá. Quando chegar lá, nada mais importa.
O rio que me guiava durante a noite chega a seu fim, onde posso avistar uma pequena colina a sua direita, com grama verde e uma subida não tão íngreme. A floresta agora está atrás do rio, que fecha-se em um breve angulo de 90º para a esquerda, deixando uma noite de pensamentos e sonhos para trás...
"...Mal começo minha jornada e já vou me impressionando com o ambiente...É intrigante pensar que um lugar assim poderia existir."
Um passo após o outro, vou subindo a colina. "Talvez possa ver algo lá de cima". A pequena subida perde seu brilho ao chegar no seu cume. Não era uma colina e sim um desfiladeiro. Abaixo é possível ver ainda mais vegetação, mas com uma característica diferente, um choque de espécies de arvores. Atrás, uma floresta densa, com arvores grandes e fechadas. Abaixo, vejo sakuras japonesas rosadas, em pares com bambu, encobertos por uma névoa, preenchendo o lugar com solidão e mistério.
O brilho do sol, ficando cada vez mais forte e quente, aquecendo um corpo que passou a noite no frio, iluminando a densa floresta escura, refletindo na água de um riacho de esperança. Daqui de cima, a floresta parece muito menor, mas ainda mal consigo ver o ponto por onde cheguei. Volto a observar a paisagem abaixo.
"Quem de alguma forma imaginaria que haveriam sakuras bem aqui? no meio do nada?"
É até estranho de se pensar. Chego até a questionar onde realmente estou..."Perfeito, deixei tudo para trás e agora não sei nem onde estou e muito menos como voltar".
Não tenho nada a perder, porque me preocupar? Continue a jornada! Mova-se, vamos lá! Ou será que aquele discurso todo de 'Não desistir' não vale mais nada? Que essa noite passada nessa floresta sozinho não importa mais? Em frente!
- Só tem um pequeno problema....
"E qual seria?"
- Não tem nenhuma forma de descer por este lado.
"Encontre outro lugar então e continue descendo até chegar lá."
Deixo então aquela floresta, andando por cima do desfiladeiro, em busca de uma maneira de descer...
"Foi divertido passar a noite andando sozinho....esse é o tipo de coisa que realmente te faz pensar na vida...Se bem que é isso que eu tenho feito desde então..."
[2] Céu Estrelado
A floresta fica cada vez mais intensa e profunda a medida que caminho adiante. Cada vez mais me distanciando da estrada que aqui me trouxe, seguindo nada além das estrelas e meu coração. Estrelas? Pouco vejo do céu, por meio da vegetação fria e escura que me cerca, envolvendo me em um tom de solidão.
O sentimento negativo se esvai de minha mente, enquanto caminho em busca daquele riacho, que poderia me levar a alguma passagem... O que ando procurando mesmo? Um lago? Uma colina? ....
"Uma cachoeira!"
O som da água caindo, junto do canto dos pássaros, enquanto a brisa refrescante bate na vegetação, proporcionando um sentimento de liberdade. Aquelas breves memórias já vem a cabeça, de dias confinados raciocinando a verdadeira faceta por trás da existência. Memórias essas que ainda não vivi, memórias de um tempo não tão distante, sem preocupações...
Com uma ideia de o que procurar, sigo a diante, em baixo da luz da lua e das estrelas, ambas cobertas pelas arvores altas e espessas. Pode não se ver, mas elas ainda estão lá, observando tudo de sua posição....
"Elas não estão lá.... Isso é apenas o brilho de corpos celestiais que já morreram, que perderam seu brilho e...."
...E isso realmente importa? O que importa é que o brilho delas continua lá, incessante, me observando postumamente. Se elas não desistiram, eu não vou! Vou procurar por esse paraíso de memórias distantes até a ultima estrela dessa noite cessar seu brilho, até a ultima gota de água passar por esse riacho. A brisa da floresta calou-se. A luz da lua perdeu sua influência. Eu controlo meu destino. Eu liberto minha mente...
"Apenas um jovem sonhador? Vamos concretizar esse sonho impossível"
Movendo adiante, com nada além de esperança...
[1] Acordado
É noite e a luz da lua ilumina meu caminho. Ansioso e confiante sobre tudo que virá, adentro a floresta, no meio do nada, com a mente em paz e reflexão..."Talvez eu encontre hoje, talvez amanhã, isso não importa" - penso, em busca daquilo que ainda mal sei o que é, mas que será meu escapismo da realidade. As estrelas brilham em conjunto, como se estivessem dizendo "Nada é tão belo quando não há com quem compartilhar". Começo a ouvir o primeiro riacho, de muitos que encontraria pelo caminho enquanto reflito: "Esse paraíso não será só meu...", enquanto me iludo com esperanças..."Talvez um dia ache alguém para compartilhar esse 'paraíso'". A lua, a tranquilidade da floresta, e a brisa fria que percorre por meu corpo dizem que ainda não é hora, acusando me apenas um jovem sonhador, em busca de seu futuro, que talvez não vá encontrar...Ainda sim, um jovem sonhador, em busca de seu futuro, que não vai desistir. Eu tenho todo o tempo do mundo, porque não procurar passá-lo onde eu seria feliz?...
"...Não será só meu...."
Minha praia plástica, meu paraíso dos heróis, minha utopia de um lugar onde encontrarei paz, aonde passarei o resto dos meus dias, após realizar todos meus sonhos, até o dia de partir para o verdadeiro paraíso...uma prévia daquilo que espero encontrar, onde poderia refletir as escolhas que fiz, descansar de todos os esforços que ainda faria...
".....Apenas um jovem sonhador"