Num lugar como o Pandora, ter privacidade era realmente um problema, sequer tinha um espaço pra chamar de "seu", não havia coisas como "meu quarto", às vezes, queria ter o poder de diminuir seu tamanho, apenas para entrar na caixa entalhada com seu nome e ficar ali, sem que ninguém a incomodasse. Às vezes, precisava de um pouquinho de quietude, paz. E onde encontrar? Estava perambulando pelo acampamento, o chalé que compartilhava com seus meio irmãos foi descartado de imediato, o estábulo infelizmente não estava apenas com os cavalos, as forjas eram tão barulhentas quanto o refeitório e já começava a se agoniar.
"Que se dane", pensou, assim que os passos a levaram até a floresta; não havia se afastado muito, porém o cheiro do mato e o cantarolar dos passarinhos a acalmaram de imediato. Passou seu arco pelo braço e a cabeça, para que ele ficasse preso como sua aljava; havia uma árvore não muito alta ali, seu tronco não era demasiadamente íngreme e um dos galhos parecia perfeito para que se acomodasse. Não foi complicado para subir e finalmente encontrara o que procurava e precisava naquela tarde: um lugar só seu.
A cabeça estava tão cheia de coisas que sequer conseguia indentificar, sentimentos que não era acostumada a sentir, bem como a insegurança que passou a afligir. Sempre teve Eunbyul ao seu lado, desde o momento em que se conheceram, foi ela quem a ajudou com a adaptação no acampamento; o laço que desenvolveram era bem maior do que amigas de acampamento, ela era sua melhor parte. Era estranho como de uns tempos pra cá o que sentia pela filha de Hermes passou a ficar confuso, e agora... Agora via-se sentindo algo tão primitivo e baixo como ciúmes. Por quê? Tantos "por ques" rondavam sua cabecinha que começara a doer por estar tão absurdamente cheia.
A proximidade de Eunbyul com uma de suas irmãs a incomodava tanto, tanto. Toda vez que pensamentos de perder mais uma pessoa que amava pra um de seus ditos irmãos trazia outro sentimento que abominava: ódio. Pode superar facilmente nas vezes passadas, mas com Eunbyul... A pessoa que mais prezava em todo aquele continente, seria impossível superar que fosse "trocada" por uma de suas irmãs. Não permitiria. "E se usasse meus poderes para tê-la só pra mim?" foi o que a acometeu, dessa vez o pensamento trouxe uma dor aguda em seu coração, como ousara em sequer cogitar aquele tipo de ideia? Odiava a si mesma; não seria como alguns de seus irmãos e manipularia os sentimentos alheios para benefício próprio, muito menos tratando-se de Eunbyul.
Sequer deu-se conta dos punhos cerrados que desferiam socos no tronco à sua frente, se não fosse o latejar dos nós das falanges e a umidade quente que sentia entre os dedos, continuaria ali, sem perceber até que acabasse por abrir um buraco naquela árvore que só faz a acolher. A dor que sentia nas mãos era nada, comparada à que se alojara em seu peito, dificultando até mesmo sua respiração; já não sabia o que estava sentindo, apenas queria que aquilo tudo acabasse.
Apesar de ter sido dispensado de algumas atividades depois do acidente no último treino, não seria aquilo que impediria o filho de Poseidon de descumprir a promessa feita para a garota de que iria ajudar a mais velha com combate. Aproveitou-se do tempo livre que tinham durante a tarde para convidar Sunmi ao campo de treinamento. E, para ser sincero, sequer sabia como faria para passar seus conhecimentos para a garota já que era a primeira vez que alguém lhe pedia ajuda daquela forma. Pensou em todos os ensinamentos recebidos até então e, mentalmente, montava seu próprio plano de aulas.
E, como não podia faltar, colocou sobre a mesa todas as armas que costumava usar, desde espada, lanças e alguns escudos. Mais importante que atacar, era se defender, e se um guerreiro não soubesse ambos, não era só a vida dele em perigo. Mandou uma mensagem para Sunmi, informando que já estava tudo pronto, mas não era como se estivesse com pressa. Animado, com certeza, já que ela seria sua primeira aluna e mal podia esperar para que, de alguma forma, pudesse ajudar a garota. E enquanto aguardava, aproveitou para brincar com uma das espadas, sua preferida. Na verdade, havia sido feita especialmente para si e carregava o símbolo de seu pai divino entalhado na lâmina muito bem cuidada.
Mas já parecia louco o suficiente por falar com os cavalos, acabou deixando aquilo de lado para não atrair mais atenção do que gostaria porque, infelizmente, aquilo ainda lhe deixava nervoso. Sentou-se no banco com o celular em mãos, respondendo algumas mensagens até finalmente se perder em meio a um joguinho recém instalado, com plantas e zumbis, aquela era sua distração quando não tinha vontade alguma de estudar ou dormir, e não importava o quanto Sunmi fosse levar para chegar, Jay dificilmente notaria quanto tempo teria passado porque se desligava totalmente do mundo quando se entretinha com o celular.
Seria surpreendente ver uma cria de Afrodite ser muito bom tratando-se das artes de combate, não? Porém, aquele não era o caso de Sunmi. Conseguia se garantir no arco e flecha, sua mira não era "certeira" como seu meio irmão divino Eros, mas era muito capaz de provocar grandes danos ao oponente desde que este se mantesse numa certa distância. Via seus colegas campistas num caminho promissor para se tornarem grandes heróis em batalha e aquilo despertava na garota o desejo de sempre ser uma melhor versão de si mesma; Jay era um ótimo guerreiro ao que ouvira de seus colegas, quando pediu para que ele a ajudasse não imaginou que ele o faria, portanto, não poderia decepcioná-lo. Faria o seu melhor.
Depois de suas obrigações como campista, foi até seu chalé para colocar uma roupa confortável para o treino que aconteceria, vestiu uma legging, top e uma regata térmica por cima, calçou seus tênis de corrida e prendeu os cabelos longos numa trança nórdica, e claro, passou nos lábios seu lipbalm de morango, que deixou-os levemente avermelhados. Numa ecobag colocou uma garrafa de água, algumas barrinhas de proteínas e o creme de mãos qual prometeu presentear o rapaz; o cheiro não era frutal ou floral, era algo mais discreto e com notas cítricas, então não atrapalharia o cheiro do perfume se ele viesse a usar um.
Deixou o chalé e partiu para o ponto de encontro, não demorando muito para avistar um Jaekyung bastante entretido com o que tinha em mãos; sorrateiramente se aproximou, olhando para a tela do celular por sobre os ombros alheios, tentando distinguir o que ele jogava. — Que jogo é esse, Jay?