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Já pensou qual a relação de resistência do Teatro Oficina Uzona Uzyna com a mobilidade urbana? No próximo episódio de Mobilis, o diretor Zé
Serpentário Carrossel
É matemático supor incalculáveis níveis de realidade longe da maioria das percepções. Invisíveis, mas ativos na vida comum, criando algumas maravilhas e outras armadilhas, por onde se perde no encantamento quem passa longe do que importa e não vê quando encontra o que merece crédito. As coisas inéditas podem ser imperceptíveis quando envolvem fatos que não se questiona, o dia, a noite ou a lei da gravidade. Ou o grande filtro da percepção, a linha que tece a eternidade, o elemento mais enigmático da estrutura atômica, o tempo, uma inexistência que pode ser tocada por mãos infinitamente pequenas, e alterada, como uma estrada gigante em espiral múltipla. E diversa como a fechadura de um cofre infinito. O tempo é inconstante, acelera e desacelera com a velocidade de quem vê, totalmente relativo e variável, só estável suficiente para garantir a coesão da nossa percepção da realidade em três partes separadas: passado, presente e futuro. Sendo a única parte concreta o presente, as outras nunca existem de fato, estão sempre chegando e partindo, numa ciranda eterna. O tamanho do círculo se define na percepção de quem mede, único responsável pela extensão de sua eternidade. O ciclo inexorável feito de espirais múltiplas, serpentes entrelaçadas como sinapses em infinitos ciclos e combinações de trajeto ao longo da curva. Bilhões de anos separam todas as vezes em que você passa por este momento, mas cada uma delas você está numa das infinitas espirais que percorrem o círculo, e tudo será diferente. É um carrossel multidimensional em que os cavalinhos soltos pulam entre as dimensões ao longo da grande volta, tantas vezes percorrida, em tantas versões desenhadas pelo câmbio entre espirais. Num ciclo não linear regido pelo choque do livre arbítrio com a matemática do caos. Uma realidade circular multidimensional espiralada, o serpentário carrossel da eternidade. Olhando o futuro, vejo meu passado mais antigo, mas em outra espiral do tempo, outra combinação de pulos dimensionais, por isso uma parte do presente e do futuro é sempre familiar, e outras são novidade. Quanto maior a percepção coletiva dessa realidade, mais o futuro é tão conhecido quanto o passado, e esse conhecimento se torna orgânico e independente da tecnologia, facilitando a percepção de cada um como parte de uma unidade, que se auto concebe na força do pensamento coletivo. Essa consciência acorda para a urgência de se aplicar o amor e o cuidado como recursos que transcendem as leis naturais. O futuro que pode ser tratado pelo pensamento por ser tão presente quanto o passado abre um acesso à eternidade. Por onde se navega confiando no fluxo e nas curas como um lápis traçando um mapa imaginário, fertilizando a realidade com as soluções do inconsciente. A flor do pântano dessa percepção nasce da atenção ao fluxo e à cumplicidade do tempo. A intenção define o destino, o coração sabe os caminhos. O labirinto some quando a imagem do desejo entra no trilho de um tempo que já se conhece. Definir o desejo cria o futuro. Cresce a percepção da realidade, hoje a eternidade é maior que ontem.
UM COPO DE SANGUE
Roteiro de curta metragem
adaptação de conto de Rubem Fonseca
por Pedro Vicente
INT - COZINHA DE APARTAMENTO - NOITE
Beatriz, 40 anos, maquiada demais, à mesa de uma cozinha simples, anos 80, termina uma carta, lê o que escreveu e chora. Ao lado, uma taça de vinho tinto.
VOZ DE BEATRIZ (off) - Você não pode me tratar como um objeto que se usa e joga fora. Você não me compra! Não quero apartamento nenhum! Não é assim que acaba uma relação como a nossa! Estou muito nervosa, sou capaz de tudo! Me liga!
Beatriz esconde as lágrimas e deixa a cabeça cair sobre os braços, que desequilibram a taça.
Lentamente, a taça de cristal rodopia sobre a base, se inclina e cai fora da mesa, rodando no ar e jogando vinho para os lados - até se espatifar no ladrilho da cozinha.
No momento do choque, ouve-se um tiro, e a imagem se enche de sangue.
Sobre a tela vermelha, o crédito : UM COPO DE SANGUE
INT - APARTAMENTO DE MOTTA - DIA
MANDRAKE, 33, traços fortes, ar cínico;
MOTTA, 50, elegante, magro, olhar fundo intenso.
Motta joga sobre a mesa um jornal dobrado com a foto de Beatriz e uma manchete sobre seu assassinato.
MOTTA - Essa moça era minha amante. Mas ninguém sabia da nossa relação. Antes que eu soubesse do crime, me ligou um tal de Neto, dizendo ter provas do nosso envolvimento. Ir à polícia seria inútil. Não sei de nada e tenho muitos inimigos políticos … Tenho um encontro com o sujeito em meia hora num café no centro. Quero que você defenda meus interesses. Pago o que for necessário.
EXTERIOR - RUA - NOITE
À porta de um café na cidade, Mandrake espera.
Vê o motoqueiro chegando. Mas antes que estacione, uma menina pálida o interpela.
Ele reage insolente - os dois discutem.
De repente, a moça monta na garupa e a moto arranca e some na esquina.
INTERIOR - APARTAMENTO DE MOTTA - DIA
Mandrake de um lado para o outro pelo hall do elevador.
A porta do apartamento se abre e uma jovem loira e muito bonita o atende.
CLARA - Pois não?
MANDRAKE - O senador Motta me aguarda.
Clara dá passagem à Mandrake - consumido pelos seus olhos azuis.
Na sala, Motta aparece, elegante.
MOTTA - Boa noite.
MANDRAKE - Você não me contou tudo. Li que Beatriz era sua empregada. Está certo?
MOTTA - Era minha secretária.
Toca a campainha.
Ponto de Vista de Motta: Neto espera no hall do elevador.
Motta abre a porta, Neto entra, arrogante.
Surpresa com a entrada do rapaz, Clara se adianta, nervosa.
CLARA - O que você está fazendo aqui? Ninguém mais é seu cliente nessa família.
NETO - Seu pai está me esperando.
Motta consente com a cabeça.
NETO - A conversa é entre nós dois.
Neto olha para Mandrake, com desprezo desafiador.
MANDRAKE - Eu espero.
Motta e Neto desaparecem em direção à um gabinete.
Clara tira da bolsa um espelhinho de maquiagem e retoca o batom.
Bestificado com sua beleza, Mandrake se aproxima.
MANDRAKE - Este chantagista diz ter documentos que incriminam seu pai num assassinato.
Clara sorri com desprezo.
CLARA - Meu pai tem defeitos, mas não é um assassino.
MANDRAKE - De onde você conhece o Neto?
CLARA - Eu não sei que é essa pessoa.
Mandrake olha bem o rosto inocente dela.
MANDRAKE - Você é muito bonita.
CLARA - Você é feio, desagradável, e ridículo.
Clara sai em direção à porta, sob olhar fascinado de Mandrake.
No Hall da porta da frente, Clara encontra ANA, a mesma menina pálida que Mandrake viu saindo de moto com Neto no Café do centro.
Clara abre a porta e volta um olhar frio para Mandrake.
As duas saem juntas, fechando a porta atrás de si.
Depois de um tempo, a porta do gabinete se abre e Neto passa reto.
Sai e bate a porta.
Motta surge à porta do gabinete:
MOTTA - Quanto lhe devo?
MANDRAKE - Quem é a moça do cabelo preto?
MOTTA - Eu me entendi com este rapaz. Isto não lhe interessa mais. Quanto lhe devo?
MANDRAKE - Você não me deve nada.
INTERIOR - SALÃO DE BARBEIRO - DIA
Mandrake lê o jornal enquanto o barbeiro trabalha, concentrado.
MANDRAKE - É um absurdo! … Está tudo errado, o hino nacional com essa letra idiota! a bandeira positivista sem a cor vermelha! toda bandeira tem que ter a cor vermelha! De que vale o verde de nossas matas e o amarelo do nosso ouro sem o sangue de nossas veias?
BARBEIRO - É tudo uma pouca vergonha! O senhor viu o caso da moça morta na Barra?!
Mandrake tem um sobressalto na cadeira, e exclama:
MANDRAKE - Puta que o pariu !!!
BARBEIRO - Te cortei?!
Mandrake levanta num pulo e limpa a espuma da cara com um pano.
MANDRAKE - Quero que todos se fodam, o senador canalha, a filha invernizada, a sobrinha branca, a secretária morta, o motoqueiro, pra mim chega!
Mandrake deixa o pagamento e sai, deixando barbeiro assustado.
INT - APARTAMENTO DE NETO - NOITE
Neto em casa, ouve rock alto, sentado numa poltrona, chapado em frente à uma televisão.
Ponto de vista de alguém avançando pelo corredor mostra detalhes da casa do garotão traficante.
Na sala, Neto demora a olhar.
Quando vira, com desprezo embriagado, se assusta, mas não tem tempo de reagir.
Um tiro na testa espirra o sangue na poltrona, e ele tomba, com o olhar estatelado.
Em off, ouvimos assassino revirando a casa, jogando tudo no chão, procurando algo.
INTERIOR - APARTAMENTO DE MOTTA - DIA
Mandrake na casa de Motta.
MANDRAKE - A polícia tem a carta. O assassino revirou o quarto, mas esqueceu de procurar no bolso da vítima … O envelope não foi achado mas eles tem certeza que é dirigida à você.
MOTTA - Eu não matei Beatriz.
MANDRAKE - O tal do Neto tinha a carta, fez a chantagem, e você teve que matar de novo.
MOTTA - Você não pode me acusar sem provas! Sabe onde eu estava na hora do crime? Jantando com o governador! Porque você odeia quem venceu na vida e não fica mofando em porta de xadrez!?
MANDRAKE - Não odeio ninguém. Só desprezo canalhas como você.
MOTTA - E veio fazer o que aqui? Atrás de dinheiro?
MANDRAKE - Não, atrás da sua filha.
Motta, chocado, se contém, olhando com ódio.
De repente entra Clara, seguida pela menina pálida. As duas encaram Mandrake.
CLARA - Não foi meu pai.
Os dois se olham fixamente.
MANDRAKE - Quem é esta menina?
MOTTA - Minha sobrinha.
MANDRAKE - De onde você o conhece o Neto?
CLARA - Ele vendia pó para minha prima.
MANDRAKE - Essa menina era amiga do Neto.
CLARA - Ela é filha do irmão do meu pai, que foi assassinado pela mãe dela.
MOTTA - Isso não é da conta deste homem!
MANDRAKE - Como você sabe que seu pai não matou a Beatriz e o Neto?
ANA - Ele não seria capaz.
CLARA - Tem algum inimigo político querendo acabar com a reputação dele!
MANDRAKE - A reputação do seu pai já era! O delegado vai denunciar na televisão e não quer nem saber.
CLARA - Salva meu pai!
Clara se aproxima de Mandrake e os dois se encaram por um longo segundo.
De repente, se atracam num beijo selvagem.
MOTTA - Mas o que é isso?!! Minha filha?!!
Motta se precipita e empurra Mandrake para longe da filha, ela impede o pai de agredi-lo mais.
De repente, a menina pálida se aproxima, nervosa.
ANA - Fui eu! Fui em quem matou os dois!
MOTTA - Ana! Não minta! Fui eu! Fui eu quem matou Beatriz! E o rapaz também!
CLARA - Papai!
Ana sai abruptamente.
Motta corta o silêncio e se dirige à Mandrake.
MOTTA - Diga à polícia que pode me prender. Agora fora da minha casa!
Clara perdida. Mandrake sai.
EXTERIOR - RUA - NOITE
Mandrake dá partida no carro. De repente, Ana aparece, abre a porta e entra.
Mandrake sai com o carro. No banco do passageiro, o corpo de Ana treme.
A luz de um poste revela seu rosto molhado de lágrimas. Ela fala baixo.
ANA - Eu amo minha tia, como se fosse minha mãe. Ela é doente, pode morrer qualquer hora. Mas eu descobri … que também amo meu tio. Ele me mostrou a carta. Aquela mulher era louca. Meu tio é muito bom, não merece isso …
Ana parece uma estátua fluorescente na luz negra.
EXT - ESTRADA NA BEIRA DA PRAIA - DIA
Dia frio, muito vento. Ana, nervosa, de roupa preta, parece um fantasma na praia.
Beatriz chega, dirigindo um carro.
ANA - Você é Beatriz Moreira?
Beatriz abre a porta enquanto fala, histérica e arrogante.
BEATRIZ - Olha aqui, menina! Avise seu tio que quando a velha morrer, aquele canalha vai ter de casar comigo!
Friamente, Ana aponta a arma com as duas mãos para Beatriz.
ANA - Minha tia não vai morrer. E você não vai ficar velha.
O rombo de sangue explode na testa de Beatriz, que cai para frente.
Ana sai correndo, entra no seu carro e arranca.
INTERIOR - APARTAMENTO DE NETO - NOITE
Madrugada. Garrafas de cerveja pela sala, e um prato com restos de cocaína. Ana apagada no sofá.
VOZ DE ANA - Eu fiquei desesperada. Fui pra casa do Neto e fiquei cheirando a noite inteira. Eu tinha roubado a carta do meu tio. Não sei porque … Pra tirar o peso dele, acho … Uma hora eu apaguei, e o Neto deve ter roubado a carta da minha bolsa.
Neto revista a bolsa e acha a carta - seu olho brilha de maldade.
EXT - ESTRADA - NOITE
Ana e Mandrake na estrada. Ela continua.
VOZ DE ANA - Só que meu tio pagou e ele não devolveu a carta.
INTERIOR - APARTAMENTO DE NETO
Ana vasculha a sala com violência, quebra tudo, desesperada.
VOZ DE MANDRAKE - Você não achou a carta no bolso dele.
EXTERIOR - ESTRADA - NOITE
Mandrake para o carro.
ANA - Eu nunca ia encostar nele.
Ana segura a bolsa com as mãos trêmulas.
MANDRAKE - Me dá isso.
Ela segura a bolsa com força.
Mandrake arranca das mãos dela.
Dentro - a arma.
Os olhos de Ana são um abismo sem fundo.
Mandrake guarda a arma e devolve a bolsa vazia.
ANA - Me leva de volta pro meu tio.
MANDRAKE - Pega um táxi. E contrata logo um advogado.
EXTERIOR . PONTO DE TÁXI . NOITE
Mandrake estaciona ao lado de um ponto de táxi.
Ana desce e entra num dos carros estacionados. Mandrake parte.
INTERIOR . CASA DE MOTTA . NOITE
Ana entra pela porta da frente e caminha pela casa vazia.
Anda por um corredor com algumas portas, uma entreaberta.
Entra num quarto onde a tia dorme com a luz acesa e um livro sobre o peito.
Ana tira o livro, ajeita a coberta, apaga a luz e sai.
No corredor, se dirige à uma outra porta entreaberta, e entra.
No quarto de casal luxuoso, Motta e Clara estão na cama, em momento pós sexo. Os três se encaram melancolicamente enquanto Ana se despe depois se junta aos dois num abraço apaixonado.
FIM
INVASÃO 3OLHO
A imagem da realidade está em decomposição abrindo disputas por horizontes desconhecidos e sistemas de crenças que geram novos mercados e estruturas sociais. Um tempo de fluxos de informação violentos com vários efeitos colaterais. Um deles, um novo sentido que trinca a dualidade como o sorriso de um palhaço de três olhos: o Triolho, Vejalém ou Dharma Clown, uma forma primordial, fruto de um fluxo criativo improvisado na interdependência sensível entre tudo, sintetizando o prazer da consciência e da harmonia na ampliação das perspectivas. E lançando sementes meteoritos para germinar o resgate da função poética de ser humano.
A invasão toma três formas:
1
lambe-lambes com desenhos do fluxo criativo original do símbolo:
(fragmento)
2
variações pictóricas sobre o símbolo:
3 - INVASÃO
o símbolo e o registro do símbolo grafado em muros, postes, pontes, cabines e estações de trem e ônibus em algumas cidades do mundo.
4 - UTOPIA
abstrações que dissolvem a dualidade no entrelaçamento dos pólos.
5 - MURAL
O segundo nome do símbolo é um poema concreto:
Espalhar um símbolo pela urbanidade, em múltiplas linguagens, para dizer o que não pode ser verbalizado mas toca o inconsciente e instiga a consciência coletiva e individual.