Caminhada
Tenho feito minha caminhada por ruas comuns; linhas tortas. Observando atentamente o silêncio. Ouvindo os sons de uma mente inquieta. Nem sei ao certo quantos passos foram dados no decorrer desta vida. Perdi a conta no terceiro — Quanta ironia. Eu nem ao menos sabia contar na época. Quantos anos eu tinha? Uns dois ou três. Não lembro ou prefiro esquecer.
Eu vi meu próprio corpo na terceira pessoa. No momento em que caminhava; ou enquanto estive deitado com os olhos fechados. Eu tive a sensação de estar sendo vigiado por mim mesmo.
Corpo estranho. Um estranho no ninho. Do alto do abismo. Era um corpo amigo. Um ser imaterial, todavia, conhecido.
Nunca fui de enxergar com tanta clareza. Sei que os óculos me vieram com o tempo, mas, desde o princípio, a alma precisou de lentes.
Das vezes que caminhei, passeei por todos os lugares possíveis. Os dias atuais não me são estranhos. No último instante em que estive aqui, fugi. Busquei abrigo num outro território. Até hoje não sei se foi a melhor hora ou melhor opção. — Ah, moça dos olhos castanhos! Era tua culpa. Minha culpa. Mea-culpa, my child! Mea-culpa! Na terra de ninguém.
Hoje, deitado, perdido dentro de um corpo, voltei meus olhos a quem me observava. Era um sonho lúcido. Era um outro alguém além de mim. Tão jovem, ela apareceu de repente. Não pude tocar. Não pude abraçar. Havia um campo de força que não me permitia entrar. Era um novo campo minado; que vi sumir no ar, feito Ariel. A tempestade está de volta.
Acredito, após tudo o que me ocorrera, saber onde estou. Ou quase. Já estive no pior dos meus dias. É apenas confusão.
Ainda estou fora do meu corpo. Fora de cena encenando uma peça. Não me peça explicações. Eu me entendo. Algum dia eu me entendo.
Tenho feito minha caminhada por ruas comuns; linhas tortas. A cada traço no mapa compreendendo mais esta casca.
Sem saber quem sou. Mergulhado nas certezas do que não ser. Do que não sou. Se estou afundando. Se estou afogado nos olhos de uma outra mulher. Deixa estar! Que a onda me leve!















