MEU AMIGO SECRETO É: @assholc01
Jackie nunca tinha achado o banheiro do trailer tão pequeno. Claro, em dias normais ele era diminuto o suficiente para que ela batesse os cotovelos nas paredes enquanto lavava o cabelo mas nunca havia sido claustrofóbico. Podia-se imaginar que o lugar havia encolhido de tamanho, mas a realidade é que o pequeno objeto de plástico em cima da pia ocupava toda atenção da morena. Por um lado ela queria correr dele e por outro não podia continuar ignorando a dúvida que lhe corroia por dentro. Ela queria andar de um lado para o outro para aliviar o estresse, mas ― de novo ― o banheiro era muito pequeno, então ela apenas revezava entre se sentar no vaso sanitário e ficar em pé, encarando o teste de gravidez que havia roubado da farmácia como se ele lhe desafiasse a encará-lo de volta.
― Jackie! Sai logo desse banheiro, vai se atrasar!
― Eu estou indo! ― O papel ainda estava branco quando os olhos castanhos da Daniels se prenderam no objeto que selaria seu destino. Ela urrou de raiva, chutando a lixeira com força, quando sua mãe reagiu atrás da porta. --- Jacqueline? Está tudo bem ai dentro?
--- Okay, eu só…--- Mas a frase perdeu a força na metade já que o marcador mostrava o positivo em um símbolo matemático que fez Jackie querer gritar. --- God, Damn it! --- Ela soltou, se encolhendo ainda mais no vaso para que as lágrimas não viessem. Ela estava grávida aos dezoito anos… “Tal mãe, tal filha”. Ela já podia até ouvir o que o povo da cidade diria ao seu respeito. Não que ela se incomodasse com que outros pensassem dela, tinha crescido como “a escória da cidade” e apesar dos pesares aquilo tinha feito ela ser quem era, apenas não queria aquilo para mais ninguém. Foi o pensamento reconfortante de que ela tinha Chuck, que diferente de seu pai que sumiu do mapa assim que soube das boas notícias, e que Chuck nunca a abandonaria que fez com que o pânico lentamente se esvaísse de suas veias. Além disso eles tinham conseguido despistar Bob Ray e tudo parecia melhorar, então talvez, só talvez… as coisas pudessem dar certo.
--- Jacqueline?? --- Dessa vez o nome foi seguido de várias batidas na porta de lata, fazendo todo o cômodo vibrar, o que tirou qualquer pensamento da cabeça da morena. Bem, pelo menos por alguns segundos.
--- Jesus Cristo, mãe! --- Ela reclamou, contrariada, abrindo a porta por fim. De todos os dias que sua mãe havia decidido estar sóbria aquele tinha sido o pior. Seria mais fácil lidar com aquilo sozinha, sem ter ninguém para lhe encarar ou apressar seu processo de aceitação, mas ali estava Jeanine, sóbria e com os olhos estranhamente vivos enquanto esperava a filha sair do banheiro em sua roupa de baile. O baile de formatura era um evento clichê que ela havia jurado que nunca iria participar, mas de alguma forma, Peach e Thomas estavam animados para ir e até Chuck havia cedido a ideia, de modo que não tinha como dizer não… O vestido de renda preta não era novo e sequer um vestido. O cropped combinava com a saia preta e ela completou com uma jaqueta jeans e botas que usava quase todos os dias, mas quando se tem 18 anos, não é necessário muita coisa pra ficar linda. O cabelo não tinha volume, o vestido não tinha mangas bufantes, mas não seria Jacqueline se tivesse. --- Satisfeita?
--- Ow, Jackie! Olhe para você! --- Sua mãe instantaneamente se tornou aquelas mães que esperam no final da escada e olham para seus filhos como se assistissem filhotes de poodle usando meias dos filmes. Aquela Janine, sóbria, de cabelos loiros e olhos azuis delicados, segurando uma polaroid era a mãe que Jackie sempre sonhou em ter. Talvez se ela tivesse aparecido mais vezes ela não estivesse metida naquela situação, mas quando o flash estourou em seu rosto, fazendo-a piscar e revelando uma miniatura de sua versão jovem, atraente e marrenta para a posteridade, Jackie percebeu que não era justo com sua mãe pensar aquilo. Ela era uma mulher doente e se dias bons era tudo o que ela poderia ter então ela iria aproveitar.
--- Para com isso! --- Ela se virou para beber água, mesmo sem estar com sede, mas o sorrisinho que ficou em seu rosto indicava que não era uma repreensão séria e a posição a colocou de frente para a janela o que lhe permitiu ter a visão de Charles Foster entrando no terreno poeirento do estacionamento de trailers em toda sua glória. --- Hm, Charles chegou. --- Murmurou ela já pegando sua bolsa e já dois passos da porta. As vezes morar em um trailer tinha suas vantagens. Mas seu caminho foi frustrado quando sua mãe segurou seu pulso e lhe entregou uma caixinha que Jackie estremeceu só de olhar. --- Mãe, eu…. --- A morena negou algumas vezes com a cabeça, preparando o terreno para recusar rapidamente. A pulseira de flores era brega e ela definitivamente não usaria…
--- Por favor? --- Ela voltou com o tom usado com filhotes e Jackie suspirou, fazendo com que a mecha do seu cabelo fino fosse soprada agressivamente. --- Foi o que eu usei no meu baile. Significaria muito…
--- Fine.. --- Jackie pegou a caixinha e beijou o topo da cabeça de Janine antes de sair pela porta. Antes que ela tivesse outra ideia genial como..
--- Jackie, você acha que Chuck se importaria de tirar uma foto com você antes de ir? Eu peguei essa câmera emprestada com a Susie, você sabe que ela adora fotos e eu comprei seis poses então seria um desperdício não usar.
Um silêncio constrangedor permaneceu entre ela, a mãe por alguns segundos. A língua de Jackie estalou e ela pensou em como diria não para aquela mulher franzina que na maioria dos dias mal conseguia ir até o banheiro para vomitar mas se organizou para comprar um rolo de filme e pedir a amiga uma câmera e, bravamente, não a vendeu para comprar mais drogas.
--- Espera aqui. --- Ela pediu, os braços cruzados enquanto ela cruzava o caminho conhecido até a moto. Chuck estava lá, com seu cabelo claro e macio, fumando um cigarro,como num comercial de shampoo ou da Malboro, perfeitamente confortável entre o sexy e o perigoso e quando Jackie se aproximou, foi impossível não abrir um suspirar com a beleza dele. ---- Então... --- Ela não se inclinou para beijá-lo, como fazia nos últimos tempos e isso se dava pelo fato de que a mãe dela continuava perto da porta, observando se a filha iria sair correndo na moto do bad boy da cidade ou se faria o que ela havia pedido. Com Jackie as duas opções eram igualmente possíveis. --- Minha mãe quer saber se você tiraria uma foto comigo, nossa… ela até pegou emprestada uma câmera e as merdas todas então… É importante pra ela. --- Ela estava estranhamente constrangida em pedir aquilo, as mãos procurando os próprios bolsos na jaqueta jeans, vendo o sorriso implicante de Chuck crescer quando juntava todas as peças. A caixa na mão dela, a foto..
--- Olhe só para você. Parece até uma princesinha. Isso é uma pulseira de flores?
Não precisou muito mais para que ele ganhasse um soco no ombro direito e ela voltasse a olhar para a mãe no trailer. --- Ele está indo! --- Ela não precisou se virar para ver o rosto contorcido de desgosto do loiro e focou na presença pequena da mãe comemorando na soleira.
Quando se aproximaram, Chuck já estava todo diferente. Era a postura que ele usava perto do pai e da mãe, o filho do delegado da cidade e estrela do time de futebol da Riverside High School. A postura mais ereta, o sorriso não era esnobe e ele parecia estar se apresentando a um quartel e não a mãe viciada de Jacqueline, mas ela gostava. --- Sra. Daniels… --- Ele cumprimentou e ela logo o repreendeu por não chamá-la de Janine. Ela não perdeu tempo com amenidades e os posicionou de frente para o trailer enquanto ela ficava do lado de fora, de frente para eles… Não era nem de longe a pose tradicional, mas ninguém ali parecia se importar.
--- Chuck, poderia por a pulseira na Jacqueline? Para a foto. --- Ele emendou rapidamente, mas não o suficiente para disfarçar a satisfação de ver o namorado da filha realizando aquele rito de passagem.
--- Jacqueline, huh? --- Ele provocou enquanto amarrava a fita no pulso fino da morena, e apenas a sensação dele tocando a pele de seu pulso fez o corpo inteiro da morena despertar, e ela teve que reprimir a risada e mandá-lo calar a boca, seria terrível se ele soubesse o tipo de reação que causava nela. Ainda que ela suspeitasse que fosse tarde demais para isso. Ele puxou a cintura dela para mais perto, nada de braços entrelaçados e sorrisos para a câmera… Por um momento, Jackie apenas se deixou aproveitar a sensação de estar nos braços do mais velho, ele tocando a mecha de sua franja enquanto ela se derretia ao mergulhar nos olhos azuis do quarterback… Se Janine não estivesse bem ali, ela o teria beijado. Ainda que o ritmo acelerado de seu coração e a respiração ofegante quase pudesse dizer que ela o tinha feito.
--- Prontinho. --- Janine falou, perto demais dos dois o que deixou Jacqueline confusa. Mas a mãe soprando o papel branco, indicava que o que quer que ela tinha capturado ali, estava mais que o suficiente. A morena passou a puxar o namorado para longe da mãe, guiando-o de volta para a moto a passos largos. --- Divirtam-se!
Foi a última coisa que ouviu antes do escapamento da moto ecoar por toda a rodovia. O sentimento de culpa deixar a mãe quando ela estava tão bem cruzou sua mente por um instante. Jackie sempre se sentia culpada de deixá-la, quando ela estava mal demais para ser deixada sozinha ou bem demais para ser deixada sozinha. Sempre a mesma sensação e que ela deveria cuidar da mãe mas ela logo apertou Chuck por cima da jaqueta de couro e em instantes eles estavam longe demais de Janinne Daniels e prestes a enfrentar algo bem mais assustador: O baile de formatura.
Talvez Jackie precisasse estar analisando formas de contar a notícia que descobrira aquela tarde, ele era o pai e ela precisava dele para enfrentar o que viria pela frente… Mas se fosse ser sincera, nem ela mesma tinha aceitado muito bem a notícia ainda. Ela iria contar, só não naquele momento. Não no baile… E foi com uma sensação de que, pelo menos por uma noite, tudo estava bem, que ela desceu da moto no estacionamento do colégio, vendo vestidos bufantes, coloridos e de tecidos brilhantes encher a entrada principal. --- Tem certeza que quer fazer isso? --- Ele perguntou enquanto desciam da moto e ela não tinha muita certeza da resposta quando a voz aguda encheu os ouvidos dos dois.
--- É melhor você calar a boca se não tiver certeza que quer morrer, babaca --- bastou um olhar para trás para que pudessem identificar a figura de Peach se aproximando. Jackie sorriu para a amiga, que estava envolta no mais brilhante e vermelho tecido, mas notou que a reação de Charles fora bem diferente. --- Eu e o Thomas estamos esperando há séculos, de jeito nenhum que vou deixar vocês vazarem. --- Como forma de se certificar que aquilo não aconteceria, a tailandesa não perdeu tempo e enroscou rapidamente o braço com o da Daniels, obrigando-a a seguir seus passos. --- Vamos logo, esses vestidos não foram feitos para ficarmos desfilando no frio. --- disse em voz alta, aproveitando o domínio que tinha sobre Jackie para cutuca-lá. ---- Espertinha, trouxe logo uma jaqueta, huh? Mas saiba que vai ter que se livrar dela lá dentro, de jeito nenhum que esse corpinho será escondido. --- E assim, de braços dados e rindo, as garotas entraram no salão com seus fiéis guarda-costas as seguindo. Que visão formavam.
Heaven is a Place on Earth - Belinda Carlisle
As luzes em neon refletidas pelos globos de Luz fazia a quadra de basket um lugar quase interessante. A banda tocava em um palco improvisado próximo a parede e a decoração devia ser a mesma desde que os avós de Jackie foram a escola. A música era algum tipo de pop que animava lideres de torcida já que metade delas cantava a música a plenos pulmões, com coreografias ensaiadas e risadas altas demais para ser algo apenas improvisado. --- Eu vou pegar uma bebida. --- Chuck informou, e Jackie concordou com a cabeça, afinal, passar por aquilo sóbrio seria difícil, para dizer o mínimo. --- Quer alguma coisa? --- Ele perguntou e ela quase respondeu que sim, mas assim que abriu a boca ela se arrependeu, mudando a resposta no último segundo. --- Água. --- E deu um sorriso confiante. Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos, afinal seu rosto estava retorcido naquela expressão “você está falando sério?” e ela fez sua maior cara de pôquer antes de voltar a assistir as lideres de torcida. --- Vai ser uma noite muito, muito longa. --- Murmurou para si mesma antes de adentrar por fim o salão, Peach ao seu lado.
No final da primeira música Jackie já não achava tudo tão ruim, na verdade estava estranhamente animada com o ritmo energizante da música e acabou sendo arrastada pela tailandesa até a pista de dança. Elas estavam se formando! Quem podia imaginar? Talvez elas nunca mais se falassem…. Mas não seria assim, não com ela e Peach. Eles sempre estariam juntos, ela sabia disso. E, mesmo sem o auxílio de algo mais forte em sua bebida, Jackie acabou decorando o suficiente do refrão da música para dançar com a amiga, os braços se cruzando enquanto dançavam em uma versão bem menos elaborada e desengonçada de uma coreografia. Chuck se juntou a elas depois, junto com Tom e eles dançaram juntos quando a música se tornou algo mais rápido e agressivo. O rock não agradava todo mundo, mas quando todos já estavam animados o suficiente com os ponches batizados, não importava de verdade que música ecoava pelos auto falantes e Tom se surpreendeu quando as primeiras notas de AC/DC ecoaram da guitarra. --- Holy Shit! Está tocando música boa! --- Ele exclamou e todos se animaram ao mesmo tempo.
Apesar do que estava imaginando, ela realmente estava se divertindo. A adrenalina da dança saltava em seu sistema deixando uma sensação gostosa ao fundo de sua mente e em seus músculos. Podia ser os hormônios mas ela estava verdadeiramente feliz de estar ali com os amigos, teria sido uma pena se não tivessem ido e por mais piegas que soasse, o baile de formatura não era tão ruim quanto ela pensava. Teria continuado pulando com os amigos se algo em sua bexiga não tivesse protestado violentamente. --- Eu preciso ir ao banheiro! --- Anunciou ela a amiga e então saiu do meio da multidão que cercava o palco, procurando as paredes e desviando de alguns bêbados até chegar ao corredor que dava ao banheiro esportivo. O lugar estava escuro, alguns segundo anistas aproveitavam a privacidade para dar uns amassos na parede e Jackie teve que ignorar alguns gemidos quando aliviava suas necessidades. Os primeiros segundos foram suportáveis, mas depois de algum tempo no banheiro ela já sentia a necessidade de chutar algumas portas e saiu dalí antes que entrasse em alguma briga.
Os olhos castanhos procuraram os amigos assim que se viu de novo na quadra, porém o braço a puxando para mais perto a fez sorrir. --- Eu estava procurando voc--- Mas sua voz morreu ali. Não era sua pequena Peach, nem Tom ou Chuck. Trevor estava ali, em carne e osso e todo o sangue do rosto de Jacqueline desapareceu. --- cês… --- Ela terminou, tentando manter a calma. Até onde ela e Chuck sabiam ele tinha partido, depois de uma briga com Bob ele nunca mais tinha sido visto. Teria sido crucial a amizade de outro desgarrado da gangue quando eles enfrentaram Bob Ray e todo o resto dos traficantes da cidade, mas ele desapareceu justo quando ela mais precisava e agora ela não sabia se podia confiar nele.
--- Olá Jackie. Precisamos conversar. --- Ele não esperou ela responder para guiá-la até a pista de dança, uma música lenta começara a tocar, reunindo casais de volta a pista, tornando-a ainda mais lotada.
--- Trevor --- Comprimentou ela, assentindo uma vez, não que sua aceitação tivesse qualquer importância ali, na verdade, diferente das outras vezes, aquele não era apenas um assunto desagradável. Bob Ray estava longe, não voltaria e a presença de qualquer um do seu antigo grupo ali não podia significar nada bom.
--- Não precisa ficar nervosa, eu não vou te machucar. Na verdade eu estou aqui para te ajudar!
---- Me ajudar? Eu precisei da sua ajuda antes agora que está tudo bem você aparece para me ajudar? Com o que exatamente? --- Ela foi capaz de soar ofendida ao mesmo tempo que não chamava a atenção demais para si mesma e Trevor apertou ainda mais o braço entre ela.
--- Tudo bem? Você acha que chantagear um traficante iria resolver o problema, Jackie? Bob Ray se foi, mas ele era apenas outro peixe pequeno dessa cidade. O cara de quem ele comprava as drogas quer o dinheiro dele e sabe o que você fez com o Bob. Eles pegaram sua mãe. Não teve nada que eu pudesse fazer mas eu posso te ajudar, Jackie! Eu posso te tirar daqui antes que seja tarde demais pra você.
--- Minha mãe? O que você está dizendo? --- Ela repetiu, a garganta imediatamente seca e os ouvidos tapados, como se ela estivesse embaixo de muita água.
--- Shh, se acalma. Eu não podia ir na sua casa, eles estão me procurando também… Mas eu consegui sair, Jackie. Eu posso levar você pra Califórnia, é só me encontrar na rodovia 57 à meia noite, não pr-
---- Se acha que eu vou deixar minha mãe aqui e fugir você está muito enganado, eu não vou a lugar nenhum com você! --- Foi o bastante para que ela puxasse o braço com força, se afastando do moreno a passos rápidos até se chocar com o corpo de alguém que ela estava prestes a mandar se foder quando a voz conhecida a fez relaxar.
--- Jackie?! Onde você tava? Eu estava te procurando! --- Ela abraçou o corpo do Foster, enterrando a cabeça no espaço do seu pescoço e seu ombro, como se ele fosse seu bote salva vidas ( e por incontáveis vezes ele fora ). Queria contar para ele o que Trevor disse, mas podia ser uma mentira, podia ser só uma forma de levá-la para outro traficante ou qualquer outro esquema que vivia essa gente, ela estava farta disso tudo! Estava prestes a contar quando a ideia lhe cruzou a cabeça: E se fosse verdade? Se ela envolvesse Chuck novamente talvez não tivesse volta. Talvez ela já tivesse perdido a mãe por sua causa, não suportaria machucar ele também.
Lord Huron - The Night We Met
--- Eu…. Me perdi. --- Ela assegurou, sentindo o ritmo da música embalar o corpo deles, e ela já estava abraçada com ele, não foi difícil apenas começar a se mexer como se estivessem dançando. --- Olhe só pra nós: Dançando no baile! --- Ela sorriu, tentando não pensar naquilo por apenas cinco minutos.
--- Pode ser só um sonho! --- Ele sugeriu, e ela sentiu o peito dele estremecer de modo que ela sabia que ele estava sorrindo de volta. O beijo quente no topo de sua cabeça fez o seu coração diminuir de tamanho, como se alguém apertasse com tanta força que coubesse na palma de uma mão.
--- No meu sonho não estaria tocando essa música. --- Ela riu baixinho, o bochecha colada no peito alheio enquanto se mexia. --- Chuck… Você se lembra quando disse que a gente podia fugir? --- Ela perguntou, os dedos tocando a nuca dele distraidamente antes de levantar os olhos até os azuis dele. --- Não seria engraçado se a gente ficasse? --- Ela riu. Houve um tempo que tudo que ela queria era sair de Riverside, ir para qualquer outro lugar que não fosse aquela cidade pequena, mas agora que ela sentia que teria que ir, ela sentia uma vontade de ficar que nunca conhecera. --- Sabe… Casas brancas com quintais na frente… Um cachorro. --- Ela riu, o tipo de vida que eles sempre desprezaram e por algum motivo aquilo parecia tão importante agora. --- Crianças até. --- A bochecha dela ficou avermelhada e ela riu, como se zombasse da ideia.
--- Jackie, o que está acontecendo? Sabe que pode me contar qualquer coisa, não é?
Bom, eu estou grávida, o traficante que tivemos muito trabalho para nos livrar aparentemente tem um chefe que é ainda pior e está atrás de mim e, além disso, minha mãe provavelmente está morta… --- Eu sei.
--- E? --- Ele forçou mais um pouco, os olhos azuis ansiosos pela resposta.
--- Eu te amo. --- Ela nunca tinha dito aquilo antes, e como ela queria ter dito outras vezes. Tantas outras. Quando eles dormiam juntos, quando eles acordavam, quando eles andavam de moto para lugar nenhum ou terminavam olhando o céu estrelado deitados estrada da rodovia, quando o via jogar em um uniforme arrumadinho e quando acendia o cigarro, quando mexia o cabelo e e quando ele a abraçava. Quando ele a beijava e ela conseguia sentir o gosto da nicotina na ponta da língua dele. Ela o amava e agora parecia tão fácil dizer... Como ela queria voltar e fazer tudo certo dessa vez. Como ela queria ter a chance de ter uma vida com ele sem ser sugada para a montanha de problemas que era sua vida.. --- Não esquece disso, tudo bem?
--- Jackie… --- Ele não parecia não amá-la de volta, na verdade os olhos azuis ficaram ainda mais preocupados, era preocupação ali e ela não precisava que ele dissesse, sabia, por tudo o que haviam passado juntos que ele a amava de volta. Ele havia provado seu amor por ela, sem precisar dizer coisa alguma. Ela então se inclinou, os lábios fartos da morena se encontrando com os dele de maneira tão urgente que mal deixava espaço para qualquer outra coisa. Ela sentia o gosto dele em sua boca, os dedos dele em sua cintura e seus cabelos e por mais que ela quisesse mais, tão mais, ela separou o beijo cedo demais.
--- Eu preciso pegar um ar, está bem? Você pega uma bebida pra mim? --- Ela pediu, já se afastando, deixando Chuck no meio da pista de dança enquanto ia em direção a porta.
Arranjar um Táxi não foi difícil e ela estava em casa mais rápido do que ela imaginava. Na verdade, todo o resto foi um borrão, ela estava ajoelhada na frente do corpo da mãe, ela se ouvia chorar e sentia o corpo estremecer diante da imagem que ela sabia que um dia encontraria. Pálida, ainda com a roupa que estava quando ela saiu. O grito de desespero devia acordar alguns vizinhos, mas eles não tinham nenhum. Ninguém que podia ajudar ou que se importava. Quem ligaria para a morte de uma viciada? Jackie era a única que podia cuidar dela e ela falhou. E iria falhar com Chuck… e com todos porque não adiantava sonhar, ela nunca seria a garota sortuda que casava com o jogador de futebol americano. Não em Riverside. Enquanto ela ficasse os problemas iriam afundá-la, cada vez mais forte e cada vez mais rápido até que não houvesse mais nada para destruir.
Faltava vinte minutos para meia noite, mas ela não tinha muita coisa. Encheu uma mochila e iria sair dali, sem olhar para trás quando notou a fotografia em cima do fogão. Chuck olhava para ela como se ela fosse todo o seu mundo e naquele instante, capturado por sua mãe, ela teve tudo até que não tinha mais nada. Enfiou a foto dentro da mochila e então caminhou até a rodovia 57, Trevor já estava ali e ele não disse nada quando ela entrou no carro, a roupa de baile, o rosto inchado e uma mochila nas costas. Foi tudo o que ela levou quando deixou de ver Riverside, Peach, Tom, sua mãe… Chuck. Quando eles passaram na frente do colégio, todos se despedindo, ela jurou ouvir o som alto do escapamento de uma moto ecoar pelas ruas da cidade e ela sabia que era ele. Como um chamado e essa foi a última vez que chegou a vê-lo










