dessa vez vou passar o natal em itapema pela primeira vez em muitos anos... último ano antes da casa de praia que meu vô construiu qdo a rua ainda era de terra batida ser demolida pra virar prédio..... prevejo mts sensações, ódio pela gentrificação e a balneariocamboriuzação que a cidade sofreu.
numa nota mais séria -
algumas das lembranças mais vivas da minha infância se desenharam lá... coisas boas, cheiro de férias, a maresia do verão, comer torta alemã até passar mal, brincar e me estranhar com os primos. poucas coisas ruins, mas as ruins foram mt ruins; uma parte da minha alma eu perdi nas paredes daquela casa cor-de-rosa e nunca mais a encontrei.
ainda assim eu volto. não sempre, mas aproximadamente a cada década eu volto. revisito o lugar que um dia foi meio sagrado pra mim e tb cenário da minha mais profunda incompreensão e confusão de menina. agora não vou ter mais pra onde voltar. essa dor de certa forma perde um lugar no mundo; perde certa materialidade, praticidade; locus; no mapa das dores ela agora passa a existir só em mim. não haverá mais as fitas amarelas (crime scene! do not cross!) isolando o perímetro do quintal onde meu eu tão moça foi acachapado por uma força que me tirou do eixo e, suspeito, nunca mais retornei à posição normal. não poderei mais tocar as paredes da casa como se ela fosse meio abrigo-meio gente. perco a possibilidade de perder/vaguear o olhar angustiado mirando a rede onde minha inocência foi quebrada; de andar feito fantasma inevitavelmente e às vezes até muito conscientemente tentando refazer os passos do passado. como se isso fosse dar mais algum sentido. como se fosse me curar. refaço os passos daquele dia. andei por aqui, passei pela cozinha, a geladeira - sempre cheia em meio às festas de fim de ano - fazia um barulho estático, devo ter parado pra pegar um copo de dentro dos armários azuis pra tomar uma coca. sigo pra o quintal. na mesa grande, de madeira, um laptop, anotações e o desejo mal engendrado. lembro da roupa que vestia; da roupa, eu nunca esqueci. o velho clichê. "o que vc estava vestindo?" uma blusa rosa de alças com estampa de coração, da Q Vizu, que na época era a loja de roupas mais descolada do mundo pra mim e uma minissaia jeans, no meu corpo de menina. chinelos, porque era verão. fazia calor.
daquela rede, nunca esqueci. a textura, o seu tom (creme), o peso da trama. muita coisa daquela tarde não esqueci, apesar de por tantas vezes ter tentado me convencer que inventei. não gritei, não fiz escândalo, me encolhi. corri, com as pernas moles que pareciam gelatina; fui buscar abrigo entre duas mulheres que tiravam sua siesta no quarto do térreo.
depois daquele dia, a casa deixou de ser santuário pra mim e passou a ser meio prisão. a alegria não deixou de existir, fabricada ali pelo cheiro de churrasco que os tios faziam, as latas de bavaria pelo chão, as músicas sertanejas saindo do som do carro. pela escadaria em que quase tropecei feio tantas vezes (mas me sentia vilã de novela mexicana descendo por ela). pela torneira que abríamos quando voltávamos da praia, pra tirar o excesso de areia dos pés. "quem vai tomar banho primeiro? eu, eu, EU, não, eu!!!". leva namorado pra casa de praia. faz stand up paddle na praia. passa ano novo com cachorros na praia. bebe na praia - lavando o que passou, olha, você não é mais aquela criança assustada e em perigo, você é dona de si e pode até beber! legalmente, inclusive. volta adulta pra praia. adulta. adulta. adulta. quero tatuar isso em mim, gravar essa frase repetidamente e ouvir em looping, pra ver se acredito. se acredito que sou adulta e não tenho medo de você, que posso te confrontar e me defender. muda de quarto na praia - aquele traz lembranças difíceis. descobre caminhos novos na praia - agora posso andar sozinha, afinal. mas sempre com medo, que medo todo é esse, mulher? nem parece que vive numa metrópole. "é que aqui eu sempre fico mais assustada". faz compras na praia. kaiake na praia. leva as tatuagens pra praia (adulta! adulta! adulta!). insiste em aproveitar a praia até chegar tempestade com raios e trovões, e não é metáfora. repara nas mudanças da praia; isso aqui era tão vazio, tá parecendo balneário camboriú do nada, bombou de repente. reclama da praia, que tá um formigueiro de turista, agora tudo ficou caro e cheio. o que quer que você faça ou pense sobre a praia, não volte pra aquela tarde de verão em que fui roubada na casa-santuário-veranil. se distrai na praia. brinca de correr de medo dos caranguejos que saem à noite na praia. cria novos momentos na praia. tudo pra ver se o retrogosto amargo quando olho por tempo demais pra área externa da casa se aquieta. pra ver se esqueço que sempre que volto pra lá me sinto meio criança - seja criança com fome de mundo e empolgação que desconcerta aqueles que não sabem rir de si mesmos, ou criança assustada, encolhida, que treme e se esconde do perigo.
a casa vai ser demolida. a criança-feliz e a criança-aterrorizada não vão ter lugar físico pra retornar a cada par de anos. vou fazer o que com elas dentro de mim, tentando me engolir? essa dor é minha, só minha, pelo visto vai ser pra sempre - ainda que não doa tanto o tempo todo; há vezes em que até esqueço. dói como cicatriz que lateja quando o tempo esfria - e agora ela tem um lugar a menos no mundo.








