Quero sexo na escada, sabe? Não qualquer escada, mas aquelas da Igreja do Passo, que te desafiam a cada degrau, como se o céu estivesse ao alcance das mãos, mas só depois de perder o fôlego umas dez vezes. Quero que as pedras sejam testemunhas, que a cidade inteira prenda a respiração enquanto a gente se entrega sem cerimônia.
Quero marcas no corpo, hematomas com a assinatura de quem ousou me amar. Não só um amor bonito – quero um amor com pressa, com suor, com o calor de quem sabe que o amanhã pode ser tarde demais. Quero que as pedras frias do Pelourinho conspirem com a gente, transformando a ousadia num espetáculo que ninguém ensaiou, mas que todo mundo sente.
Depois disso? Depois, quero a paz de uma cama que seja nosso mundo, um santuário que aceite lençóis amassados como obras de arte. Quero uma cama que conte histórias nos vincos, que cheire a dendê e a nossa pele. Nada daquela perfeição de revista – quero bagunça, quero caos.
Quero que cada pedaço de tecido grite que ali aconteceu algo tão poderoso quanto as ondas do Porto da Barra em dia de ressaca. Quero que o mundo lá fora perca o sentido enquanto nossos corpos recriam mapas entre lençóis e travesseiros, descobrindo continentes escondidos na pele um do outro.
Quero o sobrenome dele. Não porque eu precise – eu sei que sobrevivo só, e ele sabe. Mas eu quero o peso disso, sabe? : um pedaço de identidade compartilhada, um "nós". Como quem entra na fila do acarajé da Dinha querendo comprar o melhor acarajé e já sabe que vale cada segundo de espera. Quero algo que dure mais do que as cinzas da quarta-feira de Carnaval, algo que seja tão salgado quanto o vento da Baía e tão doce quanto o sorriso que ele dá sem perceber.
Quero uma alma que tenha profundidade – não aquelas águas rasas de quem vive pela metade. A alma dele… Ah, essa alma funda, viu? – tão funda que até a Igreja do Rosário dos Pretos ficaria com inveja de tanta história num abismo tão rico que dormem nas pedras. Quero que ele me mostre um pedaço de si que ninguém nunca viu e que tenha coragem de mergulhar nos meus próprios segredos.
Quero que ele me ame com força, mas não aquela força óbvia. Quero a força de quem encara a vida com coragem, mas sabe quando dar uma pausa pra rir de si mesmo. Quero um amor sólido, tipo o Farol da Barra, mas que ainda me surpreenda como o trânsito da Avenida Sete em dia de procissão. Quero que ele me estude com o olhar, como quem decifra um poema em iorubá, e que me enfrente com a ousadia de quem sabe que o jogo é bom porque é imprevisível.
E, sim, quero que ele seja meu abará. Quero intensidade, quero o calor que só o dendê sabe dar, mas também quero aquele sabor que fica na boca e te faz lembrar por dias. Quero que ele entenda minhas tempestades internas, mas que saiba rir nos dias de calmaria. Quero que ele segure minha mão nos dias em que eu tropeçar nas minhas próprias confusões e que me puxe de volta à superfície quando eu estiver prestes a afundar.
Ah, e pelo amor de Oxum, que ele saiba dançar. Não precisa ser mestre de samba-reggae, mas que ele tenha ginga, que me leve pela cintura com a firmeza de quem sabe o que está fazendo. Quero que ele transforme nossa cama em palco e que me ensine a improvisar melhor do que qualquer DR que eu tente evitar.
Quero que ele seja lindo, mas não aquele lindo previsível. Quero uma beleza que me pegue de surpresa, como o pôr do sol que pinta o Pelô com cores que nem existiam na minha paleta emocional.
Eu quero um sawvador em forma de gente. Feito um amor que me desmonte e me reconstrua, que seja intenso, que me desafie e me arraste para um bloco de rua sem roteiro, que me faça perder o medo de pimenta e da vida.
E eterno como as ladeiras que contam as histórias de quem passou. Quero um amor que seja caos e carnaval, que me consuma e ainda me devolva inteiro, mas diferente – como quem volta do mar e carrega na pele o sal e o sol. Quero que ele seja meu axé, minha revolução, minha bagunça em forma de gente: quente, vivo, caótico, impossível de ignorar.
– sawmeron


















