queria ser artista. isso quando criança, uns 10-11 anos. acreditava que viveria assim: das minhas palavras, que atravessariam as pessoas, que atravessariam meus medos, que atravessariam todas as portas que se fecharam pra mim.
na época, pra mim, quando isso acontecesse eu teria muita coisa. eu teria mais internet, uma casa pra minha família, liberdade para beijar meninas...
e a possibilidade de estudar muito, só porque é divertido.
não porque eu preciso ganhar dinheiro para me martirizar enquanto gasto todos os meus centavos com terapia, remédios, aluguel, comida e escolho usar o mesmo tênis mais um dia, ao som de um colega entusiasmado com um apartamento novo.
muito legal, de coração, o seu apartamento. eu sonhei bem bonito com um pra mim também. uma casa de artista.
mas um dia eu sonhei tão bonito com tantas outras coisas que eu já tenho, também. não dá pra ter tudo, eu tento me convencer.
me repreendo antes de digitar qualquer letra. tenho vergonha das palavras.
será que essa é a materialização do meu sonho mais bonito?
eu já quis muito do que vivo.
com tanta coisa que tô vivendo. estudar em uma faculdade muito legal. trabalhar com uma coisa que eu gostasse de verdade e fosse fácil de fazer. de certa forma, com as minhas amadas palavras.
só que só ficou mais difícil. desde que tudo perdeu o brilho dos sonhos bonitos, fica tão pesado tentar embelezar sozinha. queria que alguém me desse um impulso pro alto. sinto estar perdendo tanto tempo, tanta coisa, tanta gente, tanta vida.
queria abraçar o mundo. queria ter mais amigos.
queria saber escrever de novo.
queria conseguir fugir da angústia que me atropela como um camelo adentrando o buraco de uma agulha.
sigo agradecendo pela vida que tenho. mas dói tanto não ter tanta coisa. queria conseguir dormir pelo menos sete horas por noite.
queria que as pessoas colaborassem comigo, e não que sobrasse sempre pra mim.
a isa faz, a isa faz, a isa faz.
queria fazer exames que nunca dá tempo de fazer.
às vezes eu queria cinco minutos pra olhar o céu...
mas quando tenho tempo para prestar atenção nele, já mal dá para ver uma estrela.
eu me repreendo antes de sentar para escrever qualquer coisa sobre o que sinto.
acho que vai ser como meu atestado de fracasso, com falha reconhecida em cartório.
queria ter sido artista e sonhado um pouco mais bonito.