Gostaria de possuir um diário. Um diário onde eu pudesse reler todos os meus pensamentos, os detalhes dos meus dias. Não é engraçado pensar que não nos lembramos da maior parte dos dias? Os únicos dias que nos lembramos vividamente são aqueles que foram capazes de despertar algo forte em nós. É quase como se alguns não importassem, fossem só pra preencher tempo e vazio.
Se eu possuísse um diário, escreveria nele todas as minhas angústias, todos os meus medos, até naturalmente, serem esquecidos da minha mente.
Não possuo um diário não só porque não me dou bem em possuir coisas, mas porque apesar de amar escrever, não consigo escrever, pelo menos não manualmente. É irônico como é fácil para mim transcrever meus pensamentos mas é difícil escrever cada voltinha de uma letra. O meu diário não teria como ser lido. Ele seria um segredo. Mas acredito que um diário em algum momento deva ser compartilhado. Bom, é por isso que escrevo cartas para mim mesma. Gostaria de também poder trocar cartas com meu namorado, pois elas existiriam para sempre, mas ele não parece entender. Em breve completarei 17 anos e me encontro num completo caos. Sinto que vivo numa constante baderna, mas sem as partes alegres, como o sabor do álcool que começa a ficar bom depois da quarta dose ou o barulho da música quando ela parece tocar bem longe dos ouvidos. Eu vivo numa baderna, como uma casa bagunçada e suja, que de vez em quando recebe convidados para uma festa. Tenho me sentido cada vez mais solitária, com muita pouca habilidade e com muito sono. Sinto tanto sono que não consigo levantar. Quando levanto, sinto uma angústia insistente e meu coração acelera, me torturando enquanto lavo pratos do jantar da noite passada. Minha aparência já me agradou mais antes, mas aprecio alguns traços. Como o formato dos meus olhos e o formato de minha boca, que imita um coração, eles até parecem harmoniosos no espelho. Mas sinto falta de harmonia. As vezes, fantasio sobre encontrar uma chave, com um formato emoldurado que imita flores. Essa chave seria capaz de abrir um espaço onde eu reviveria bons momentos. Mas não seriam como lembranças. Seriam chaves para lugares com os momentos bons, do jeito que eles são. E aí eu poderia dormir todos os dias agarrada com aquele que amo, vivenciar noites de conversas que multiplicavam minha admiração e amor ou sentir um cheiro específico. Sei que nada disso é possível, mas gosto de imaginar. Tenho pensado sobre tatuagens e como gosto da ideia de termos a opção de levarmos uma arte conosco pelo resto da eternidade até virarmos pó. Acho que tatuaria uma dama da noite, talvez a única flor que eu gostaria de ter desenhada em mim. Também tatuaria uma fada, já que desde pequena sinto uma conexão grande com seres capazes de voar, e fadas podem ser encantadoras e cruéis, dependendo do seu ponto de vista. Gostaria de me sentir mais como eu, faz um tempo que sinto que deletaram do universo tudo que pertencia a mim, e pareço não conhecer as pequenas coisas que me tornam eu. Espero ter esse reencontro num futuro próximo. Bom, é assim que me sinto no auge dos meus 16 anos. Não me sinto feliz já que ouvi recentemente que possuo “repertório de vida pobre”. Queria poder congelar o tempo. Talvez viver mais.