Ela pegou um par de cigarros no fundo de uma bolsa de couro que eu havia deixado no banco de trás do carro. Botou um sorriso de fora a fora, com tal alegria, que eu até esqueci que tinha começado a detestar ter começado a fumar, e por isso me enganava que tinha largado. Ela sorriu dizendo que era o preferido dela, que o pai dela que ensinou fumar. Deu até vontade de "voltar" a fumar, só que sem culpa. Com a leveza dela. A leveza de quem rasga sorriso de fora a fora, se canto a canto do rosto, fazendo covinhas e brilhando o carmesim do batom. Não que eu tenha covinha nem use batom. Mas eu até que queria usar um short jeans e montar os dois pés no painel do carro e aumentar o som do carro em língua estrangeira sem saber o que cantam. Deu até vontade de esquecer o espanhol e balbuciar um nananá feito ela. Camtar que abri la porta em vez de la perto de tu coración em vez de tu corazón. E nananá e mais que isso, esvaziar os olhos numa paisagem sem nome, mas memória, sem moldura, mas com o contorno daquela janela de carro velho. Deu vontade de me entregar a um estranho (ou estanha) que conheci pela primeira vez, na leveza se reposar os pés sobre o painel, arribar os pés sem vergonha de estarem sujos, de haverem pisado o chão bruto dancando uma música que não lembra casa, mas que ensina entrega. Eu estou falando demais, mas me deu vontade de não me envergonhar do fumo, de não levar isso pra nenhuma terapia; apenas achar uma memória olfativa, um esqueiro no bolso dos jeans, um cigarro esquecido no banco de trás, um cheiro de papai... Estou com vontade de esmaecer os olhos na moldura da vida, de colher a flor da beira da estrada, de enfeitar os meus cabelos. Mas lembrei-me também de que não sou assim tão homem, tão orgânico, nem tão feminino. Lembrei-me, porém, de que posso sê-la, de que ela me emprestaria, fácil, seus olhos esmaecidos de um branco grande, por vez melancólico, esmaecendo em mim. Assim me acharia em seus olhos, gostando tanto da suavidade de seus joelhos, toque fortuito. Gostaria de achar no toque dos dedos e de seus olhos o cabelo espesso dos meus braços. Então achei o batom vermelho que me faltava em seus lábio, e ela achou em mim o contorno perfeito daquela música aleatória de rádio. Eu gostei de ser belo, de ser triste e leve em seus olhos grandes. Eu gostei de ser jovem de novo, sem contar os meus anos.