Por que eu simplesmente não sei responder? Porque sinto que quando me faço essa pergunta, tenho a sensação de que quero esquece-la e fingir que não me questionei. A verdade é que, eu mesma não sei. Eu vivo fugindo de mim, me colocando em terceira pessoa, até mesmo nos meus textos pessoais, eu sempre sou a coadjuvante. Cadê eu? Por que preciso me por de lado para certas situações? É como se existisse várias de mim, e eu não sei lidar com todas elas de uma vez, e preciso separar em compartimentos. Escrevendo isso sinto um peso enorme, sinto estar me expondo ao ponto de pessoas acharem eu tão estranha e complicada e irem embora, esse medo sempre reinou em mim, mas sempre me fiz de durona e selvagem, sempre quando alguém ia embora, eu fingia para todos que não me importava, e em casa, eu desabava em lágrimas, perguntando para alguma das Letícia’s, o que ela fez para a pessoa ir embora? Talvez, essa mudança repetina de humor, essas “Letícia’s”, pela qual eu criei, apenas seja eu mesma, a composição de todas elas. Chega de “talvez”, é uma certeza. Eu ser complicada assim, veio dos meus pais, que desde a minha gestação nada foi fácil, e quando pequena via minha mãe apanhar como uma qualquer por um homem bêbado que se dizia meu pai. Cresci aprendendo a engolir o choro e não demonstrar sentimentos, a esconder tudo e ser independente o quanto antes. Com apenas 9 anos, sofri traumas que ardem o meu peito até hoje; minha irmã me maltratava, me afogava na piscina, me fazia de escrava, me batia por nada.. Controlava a minha vida. Aos 11 anos dei meu primeiro beijo, com o meu cunhado e minha irmã... Aos 14 anos comecei a namorar e para uma garotinha de 14 anos eu tinha mais “maturidade” que muitas mulheres, mas não porque eu quis ser ou passar por tudo o que passei para ser o que sou hoje. Eu tive que ser, fui obrigada a ser, eu não tive escolha. Não me arrependo, a culpa não foi minha, eu era apenas uma garotinha. Hoje, eu ainda sou a mesma garotinha, só que com cicatrizes, e toda vez que as olho eu lembro de cada “Letícia” que teve que passar por cada problema, cada situação constrangedora, tão nova e tão perturbada. A papais, eu não os culpo, vocês fizeram o melhor que acharam que estavam fazendo e tá tudo bem, eu tive muitos motivos pelos quais eu poderia ter me matado, mas eu escolhi continuar e me manter aonde estou, me manter firme e confiante em mim e em Deus, Ele que nunca desistiu de mim e me deu forças, mesmo eu não o conhecendo, não por minha culpa... Eu era uma garotinha, ninguém me apresentou a Você. Hoje, mais velha e pensando sobre minha vida, eu vejo o quanto o Senhor fez falta. Para finalizar.. Não mais “Letícia’s” e sim, eu... Eu ainda permaneço com a mesma essência, aquela simples garotinha que é apaixonada pela vida e que não desiste fácil das coisas, cabeça dura, teimosa, autêntica, ciumenta, criançona... Mesmo perdendo a infância tão cedo, eu ainda tenho a mesma criança dentro de mim. Enfim, algumas coisas permanecem e outras se vão, eu permaneci e hoje vejo que minhas experiências, por mais dolorosas que sejam, me fez ser quem sou, e tá tudo bem, eu me perdoo.