Quero seguir sozinha, por enquanto, até (re)construir uma identidade da qual me orgulhe. Preciso me fortalecer cuidando de mim e esquecendo de vez o que foi você, perdoando a nós pelo caos que minha vida (interna) se tornou. Olho-me no espelho e penso “O que está acontecendo? Quando isso vai passar?”. É lamentável observar essa pessoa estrangeira que me encara: olhos tristes, vazios, pequenos e sem brilho. Não há sorrisos sinceros, apenas uma feição séria e preocupada. Vejo meu corpo, meu cabelo, minha pele e todo detalhe que só eu sei: eu mudei. Acabou a música, as danças, a energia de querer celebrar, nem mesmo o simples gesto de por uma roupa só por vaidade. Tudo me cansa, é um imenso desânimo. Em meu peito a mágoa divide espaço com a esperança, busco ter paciência e aceitar a sensação de fracasso por não saber cuidar de mim mesma. Por isso, hoje, de verdade, quero solidão - e não estou blefando. É o melhor que posso fazer por mim. Sei que apenas aqui, longe do olhos, das cobranças, das expectativas e da hostilidade do mundo eu fico em paz e com tempo suficiente para investir nessa regeneração. Comigo mesma posso desenvolver a generosidade e o amor que me faltam. A vida ainda tem muito sentido, vejo que a felicidade está me esperando na esquina mas não sou capaz de receber agora, não estou pronta para vê-la antes de cuidar desse rombo no meu coração. Todo amor que chega de fora é uma violência, como uma faca que espeta e espulga o pus de uma ferida mal resolvida. Além disso, depois de todo esse tempo sei que a felicidade habitualmente puxa a gente pra fora e eu quero ficar pra dentro, tentando encontrar a beleza que foi perdida em algum lugar desse porão.