Foi como em um daqueles filmes quais Kino nunca gostou. Os mocinhos, um hospital e uma cadeira de rodas corrrendo pelos corredores e ganhando olhares, além de reclamações. Não podiam fazer aquilo, obviamente, mas ou o esprítiro do (ainda) Natal e Ano Novo corriam pelos ares ou as pessoas estavam cansadas demais para fazerem algo à respeito. Não foram pegos; Kino não foi convidade a sair do hospital que funcionava como qualquer outro dia do ano.
Não teria imaginado, nunca, que passaria a virada no ano de tal forma. Não teria imaginado, nunca, que sequer chegaria a ser parte de uma cena como esta. Ele poderia culpar o vinho que bebeu antes de baterem à porta do quarto de Jinhwan, junto com o cheiro gosto de comida chinesa que levou junto ao primo para os outros que também veriam os fogos da janela de um hospital. A quantidade de álcool havia sido o suficiente para desmanchar um pouco da dureza e distância que Kino mantém normalmente. O suficiente para que tivesse feito o que fez com o ruivo e terminado onde haviam terminado.
Mas mais importante: lembrado do que lembrou.
“Não.” ele simplesmente respondeu, sem olhar para o par de olhos que já o miravam. Kino apressou a correria e só parou no fim do corredor vazio, frente à janela gigante. Era o corredor com quartos para pacientes quais, felizmente, não estavam ocupados. Por isso, poucos - se não ninguém - passava por ali. Ao menos não faltando tão pouco para a contagem de virada. Kino soltou a cadeira de roda e saiu de trás da mesma, parando ao lado. Ele olhou pela janela por um segundo antes de virar o rosto para o ruivo.
“Você precisa de sorte.” falou. Não que ele entendesse sobre aquilo, achava não ter e não era alguém para julgar a sorte de outrem. Por isso, foi mais especifico. “Quero dizer… Fazem quanto tempo desde que colocou esse gesso? Agora está passando o Ano Novo aqui.” puxou o ar por entre os dentes e o cenho franziu como se fosse essa uma realidade dura. Porque era do tipo direto, Kino deixou a enrolação de lado e sorriu. Um sorriso sincero; seu. Colocou as mãos nos bolsos da roupa preta (como sempre, festas no o tiravam de sua cor) e se moveu para que pudesse apoiar as mãos nos braços da cadeira e se inclinar para frente, um sussurro ao pé do ouvido do mais velho; um segredo. “É durante a virada ou após?”
tinha uma expressão quase infantil que se tornou um bico nos lábios junto ao cenho franzido quando ouviu a resposta negativa. “não” assim, tão seco e sem a mínima atenção para os olhos gatunos que brilhavam logo abaixo. jinhwan até mesmo pensou e estava prestes à reclamar com o outro naquela sua manha mais do que conhecida por kino mas o acelerar da cadeira fez com que sua atenção voltasse a apenas se concentrar para era levado naquela velocidade. por um instante sorriu com a própria imaginação. sua sorte estava tão “boa” que pensou na possibilidade de desequilibrar e acabar caindo pela janela grande quando a viu no final do corredor. preso na imagem e com um sorriso bobo aparecendo, ele observou aquela silhueta ao seu lado: quando havia sentido coisas ruins ao lado do mais novo? o moreno tinha a capacidade (ou parecia ter) de acolher e trazer uma segurança que parecia algo transcendental, o destino ou até mesmo coisa de alma.
refletiu sobre o assunto, a mente trabalhando rápido dentro dos breves segundos que teve entre a distração de outrem com a visão lá fora e o retorno para o seu semblante. sim, kino sempre fora um ponto de paz, antes mesmo de saber que também era com ele, no entanto, em posse do nome clyde, que compartilhava certas intimidades quase que religiosamente todos os dias. no fim, aquele rapaz sempre esteve lá e continuava ali com o melhor dos desejos para ele.
sorte. kino era a própria sorte para ele, ao menos foi o que pensou enquanto encarava a feição que falava. um sorriso brilhou dentro dos olhos antes de se fazer no mostrar de dentes, como a realização de algo. “sorte... mais sorte do que ter você?” comentou, no entanto, as próprias palavras o colocaram em uma encruzilhada. não era como se quisesse tomá-lo para si, como se o mais novo fosse dele de alguma forma e ao mesmo tempo era exatamente isso porque jinhwan sentia que o tinha junto. “quer dizer... ‘pra mim já é muita sorte ter a sua companhia aqui pelo tanto que significa estar contigo, pela pessoa que só tu significa. já me sinto muito sortudo só por isso mas até que um pouco de sorte para eu passar longe do hospital no ano que vem seria bom também.” sorriu, se ajeitando quando a postura se curvou à sua frente.
kino se aproximar daquele jeito tão repentinamente fez os pelos de jinhwan se arrepiarem todos de uma só vez, uma onda avassaladora que não apagou o sorriso de seu rosto. levou a destra para o lado do rosto mais jovem, acariciando levemente ali e aproximando-se para selar brevemente. no hospital, os funcionários começaram a contar bem alto os últimos segundos restantes. “agora você é oficialmente meu último beijo do ano...” o disse baixo, segredando contra os lábios. logo, apoiou na cadeira, usando das mãos para ficar o mais rápido possível de pé, faltavam apenas cinco para a virada e não queria começar em lugar nenhum que não fosse os braços do mais alto. o abraçou pelos ombros e sem deixar sumir seus olhos cheios de felicidade até o último segundo, quando os fechou para voltar à beijá-lo, dando a resposta para a questão.