A que facção você pertence?
Aqui na prisão, não é que o cara chega dizendo que é do Comando Vermelho e mostra a carteirinha de sócio, com foto, nome completo, CPF e o boleto da última mensalidade paga. Esse negócio de "pertencer" a uma facção ou organização criminosa nos presídios brasileiros é mais um termo de fé, de aproximação, de proteção. É um ato de sobrevivência.
Mesmo aqui dentro, essas organizações são desarticuladas. Se organizam para sobreviver. Não são associações por laços de sangue, como a Máfia Siciliana; ou por raça, como a Irmandade Ariana; ou por lutar karatê, como a Yakusa; ou mesmo para querer acabar com os Estados Unidos, com o Estado Islâmico. O que atrai às facções o jovem, normalmente de baixa renda e sem estudos, é a proteção dentro do bairro onde nasceu, que nunca teve a presença do Poder Público e sempre foi dominado por alguma gangue; e que se estende depois à prisão. Aqui, acaba encontrando a mesma situação de seu bairro: a ausência do Poder Público e o controle total por um grupo de criminosos que se reúne em torno de uma "facção".
O que essas facções mais têm é nome, prestígio, legenda, principalmente entre os presos, a polícia, a imprensa e as autoridades públicas. Teve meio de comunicação que chegou a listar 83 facções dentro de presídios brasileiros. Outros, fazem mapas e "infográficos" mostrando onde estão, como agem etc. O único que ninguém diz é que essas facções só existem porque o Poder Público praticamente as criou, as mantêm e eu diria que até as estimula.
Hoje em dia, quando um novo preso chega ao "sistema", e são mais de 200 mil por ano, o primeiro que perguntam a ele é a que facção pertence. A resposta vai definir o destino do infeliz. Quase todas as prisões do país já estão divididas e separadas entre facções autoproclamadas. Existem presídios do CV - Comando Vermelho -, presídios do PCC - Primeiro Comando da Capital -, presídios do CRBC - Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade - etc, etc etc...
Então, se você chega em Pinheiros III, São Paulo, por exemplo, e o cara da Polícia Penitenciária que faz a sua ficha lhe pergunta a que facção você pertence, e se você diz que a nenhuma, pode entrar. Se você diz que é membro do CRBC, pode entrar também. Mas se você diz que pertence a outra facção, CV, PCC, qualquer outra, você já conseguiu uma transferência. Pode levar alguns dias, colocam você em uma cela separada, em alguma ala de castigo, mas ali você não fica. "Veio prá cá errado". Os presos que estão lá não o receberiam. Se o recebessem seria para matá-lo, e as autoridades sabem disso e estimulam essa prática.
Nos presídios brasileiros, hoje, são os presos quem dizem quem tem que estar onde, quem pode e quem não pode estar em determinado lugar. Não é o juiz, a Secretaria de Justiça e nem a Administração Penitenciária quem define onde o preso vai ficar, seja esperando um julgamento ou já cumprindo a sua pena.
Quem chega, é distribuído para um setor, de acordo com a facção que ele informa pertencer. No setor, é entrevistado pelo "Piloto", o líder dos presos e, com base nesta conversa, é distribuído para uma cela. Também é nessa entrevista que se determina seu status em função de algumas informações básicas: gênero (se é gay), religioso, primário ou reincidente, profissão e artigo penal da acusação ou da condenação.
As grandes facções dentro dos presídios brasileiros são as que todo mundo conhece e sabe soletrar as siglas. Depois há outras, algumas dissidências, que sempre acontecem, outras criadas para se opor a estas grandes, outras ainda que aparecem e desaparecem em função de alguma meta específica a ser atingida. Mas há também as inventadas por presos e agentes penitenciários, normalmente em busca de status, prestígio ou atenção. Sim, agente penitenciário também tem facção. A mais conhecida delas foi a "Serpentes Negras", inventada para enfrentar uma onda democratizando dos presídios no Governo Franco Montoro, em São Paulo.
O que elas têm em comum: todas surgem ou surgiram dentro de presídios e daí extrapolaram para fora. Mais uma vez, o sistema penitenciário atuando como grande exportador de know how, de grande escola do Crime, do maternal ao doutorado.
Dentro da prisão todo mundo "sabe", e gosta de repetir, como surgiu a primeira facção no Brasil. Segundo os "irmãos", nasceu no já desativado presídio da Ilha Grande, nos anos 70, quando algum "inteligente" do sistema carcerário brasileiro resolveu juntar em um mesmo lugar presos comuns com "terroristas", os presos políticos do regime militar.
Além das aulas de como assaltar bancos e realizar sequestros, alguns presos políticos começaram a doutrinar: as condições inumanas dentro da prisão, nada de saneamento, além da necessidade de ter notoriedade, se fazer ouvir pela sociedade. As ideias teriam movido os presos comuns que, mesmo sem entender muito bem tudo aquilo, criaram um movimento. Nascia assim o Comando Vermelho.
A Penitenciária de Tremembé é conhecida por aqui como a "Ilha de Caras" do Sistema Penitenciário Brasileiro. É para lá que vão os autores dos chamados "crimes mediáticos", aqueles que atraem a atenção dos meios de comunicação, que normalmente envolvem gente famosa. Lá, estão hoje Roger Abdelmassih, o jornalista Pimenta Neves, Alexandre Nardoni, Ana Carolina Jatobá e Suzane Louise von Richthofen, entre outros.
E foi lá que, em 1993, com muito medo de uma repetição do que havia acontecido no Carandirú, um ano antes, alguns presos notórios de então se organizaram e começaram a reivindicar melhoras nas condições, tratamento mais humano e mais possibilidades de ressocialização. E foi assim que nasceu o PCC - o Primeiro Comando da Capital.
Hoje, com cerca de 13 mil "membros declarados", ocupa penitenciárias em todo o país. Com a metade de "irmãos" dentro e a outra metade fora da prisão, é o PCC que mantém a ordem ou a desordem nos presídios hoje em dia, controla o tráfico de drogas nas fronteiras, em quase todas as capitais brasileiras, e ordena as badernas nas ruas, quebra-quebras, incêndios em ônibus, entre outras coisas.
Não tem uma só voz, mais parece um corpo cheio de membros desarticulados, que não se comunicam muito entre si, não dividem ou combinam o que fazer, mas que sabem instintivamente como agir quando necessário. É só seguir a onda do que a televisão vai mostrando, e vai embora, cidade por cidade, e vamos expandindo o negócio.
O poder público brasileiro deveria olhar com mais atenção as ações dessas facções dentro dos presídios. Com certeza iriam aprender muito. E ter boas ideias de como melhorar as coisas por aqui sem gastar muito.
�














