A Igreja é, como já foi refletida por inúmeros teólogos em nossas gerações, uma realidade que pode ser muito mais vivida que examinada. Ela faz parte do plano eterno de Deus [1] – sendo uma das três Institutis Dei [2] (instituições de Deus), sendo as demais a família [3] e o estado [4] – ouso dizer que ela (a Igreja) é essencial e imprescindível nesse plano [5]. Ela é o foco do amor de Jesus Cristo, nosso salvador eterno, e o campo de ação do Espírito Santo. Ela está intimamente relacionada com a Trindade Eterna – sendo Família de Deus [6], Corpo de Cristo [7] e Templo do Espírito Santo [8].
As realidades visível e invisível da Igreja
A Igreja manifesta-se em duas realidades, uma invisível aos olhos humanos, mas contemplada pelo Deus Eterno como sendo composta somente daqueles que, no passado, no presente e no futuro, bem como, em todas as terras e culturas, verdadeiramente creem em Jesus, retamente adoram a Deus e bondosamente foram salvos por Sua Graça através da fé, e outra visível aos olhos humanos, composta daqueles fiéis que afirmam crer em Jesus, bem como seus filhos, essa pode, e de fato sempre contem, aqueles que não foram verdadeiramente regenerados [9].
Agostinho foi o primeiro a pensar nessa distinção, Sproul pensando na distinção feita por Agostinho conclui:
Algumas vezes, a igreja invisível é erroneamente tomada como algo antitético à igreja visível, algo que está fora ou apartado dela. Agostinho não pensou nessas categorias. Agostinho disse que a igreja invisível é encontrada substancialmente dentro da igreja visível. Imagine dois círculos. No primeiro círculo está escrito “a igreja visível”. Essa é a igreja exterior, humanamente percebida, a instituição como a conhecemos. A igreja invisível, como outro círculo, existe substancialmente dentro do círculo da igreja visível. Pode haver algumas poucas pessoas na igreja invisível que não são membros da igreja visível, mas elas são poucas e distantes entre si [10].
Essas não são duas Igrejas, mas duas realidades de uma única Igreja, a Comunhão do Povo de Deus em Cristo.
A igreja forma uma unidade espiritual da qual Cristo é o Chefe divino. É animada por um Espírito, o Espírito de Cristo; professa uma fé, comparte uma esperança e serve a um só Rei. É a cidadela da verdade e a agência de Deus para comunicar aos crentes todas as bênçãos espirituais. Como corpo de Cristo, está destinada a refletir a glória de Deus como esta se vê manifestada na obra de redenção. A igreja, em seu sentido ideal, a igreja como Deus quer que ela seja e como um dia virá a ser, é mais objeto de fé que de conhecimento. Daí a confissão: “Creio na santa igreja católica” [11]
Ser comunhão é ser uma rede de relacionamentos, portanto, Igreja é antes de tudo comunhão de santos e fiéis, afinal, a natureza do próprio Deus é relacional, Ele é uma comunhão de três pessoas tão intimamente unidas que não são três deuses, mas um único Deus Vivo e Verdadeiro. Sendo a Igreja família, corpo e templo de um Deus comunional é intimada a ser também comunional, isso faz parte da sua própria natureza, está intrínseco na essência do ser Igreja.
“Communio remete, em primeiro lugar, à raiz Mun, que significa fortificação e Moenia, muralha. Ou seja, remete a pessoas que se encontram em comunhão e estão juntas por trás de uma fortificação comum, estão unidas pelo mesmo espaço vital. Esse espaço é demarcado e une as vidas dessas pessoas em comum de forma que uma depende da outra. Em segundo lugar (com)munio faz referência à raiz mun que é refletida na palavra latina múnus, que significa tarefa, serviço ou também graça, dom, recompensa. O que está em comunhão está obrigado a um serviço mútuo, mas de tal forma que este serviço é precedido de um dom de antemão, que se recebe para passá-lo a outro. Desta maneira o conceito de communio está implicado ao de doação. Por isso communio não é um conceito estático, mas dinâmico. Comunhão é o processo de realização da vida” [12].
Podemos destacar então como elementos da comunhão da Igreja, segundo o autor supracitado: o espaço vital que une as pessoas – as corporações da Igreja – a missão da Igreja, e a organização dessa missão em serviços. Cappelli (2015) destaca que “não se pode fazer parte da comunidade cristã sem que se participe ativamente de sua atividade, construção e missão” [13]
A Igreja ao longo das eras
A Igreja está em execução desde Adão, manifestou-se em Abel e foi avançando a medida em que Deus foi constituindo um povo para Si e com eles começa a caminhar [14]. Contudo, esses atos de Deus e essas alianças com o Seu povo, são prefiguração de uma aliança futura e definitiva [15], que seria constituída, como de fato o foi, através de Seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, a partir do derramamento de Seu sangue na cruz [16].
Através de Jesus, Deus Pai reúne, não mais por raça, mas pelo Espírito Santo, judeus e gentios, em um único povo, que pelo batismo é constituído “povo escolhido, reino de sacerdotes, nação santa, propriedade exclusiva de Deus”, aqueles que antes “não tinham identidade como povo, agora são povo de Deus” – 1Pedro 2.9-10.
Cristo é efetivamente o fundador da Igreja e exerce seu múnus fundacional em relação a Igreja durante sua vida terrena (poder constituinte originário [17]), conferindo a Igreja da época os poderes das chaves [18], dando ênfase e dupla comissão a Pedro, o ancião dos apóstolos, neste ministério [19] – o qual representava todos ministros que ganham uma dupla comissão para o exercício do Poder da Igreja – outro momento importante foi o da última ceia, aonde institui a eucaristia, sacramento do Evangelho.
Ratzinger (1974) sintetiza:
Cristo instituiu uma Igreja, isto é, uma nova e visível comunidade de salvação. Ele a quer como um novo Israel e como um novo povo de Deus, que considera a celebração da ceia como o seu ponto mais alto. Em outras palavras: o novo povo de Deus é efetivamente um povo, em virtude do corpo de Cristo[20].
Cristo ainda exerce seu múnus fundacional sobre a Igreja a medida que que suscita, através do Espírito Santo, movimentos de reavivamento, restauração e reforma (poder constituinte derivado [21]), caracterizados por um impulso cada vez maior de retorno as fontes. Stott, define reavivamento como:
uma visitação inteiramente sobrenatural do Espírito soberano de Deus, pela qual uma comunidade inteira toma consciência de Sua santa presença e é surpreendida por ela. Os inconversos se convencem do pecado, arrependem-se e clamam a Deus por misericórdia, geralmente em números enormes e sem qualquer intervenção humana. Os desviados são restaurados. Os indecisos são revigorados. E todo o povo de Deus, inundado de um profundo senso de majestade divina, manifesta em suas vidas o multifacetado fruto do Espírito, dedicando-se às boas obras[22].
Esses movimentos não reformam efetivamente a Igreja como um todo, mas apenas corporações da Igreja e estruturam a Igreja em múltiplas corporações que são cada uma delas e compõe todas elas a Igreja de Deus em Cristo, mas espiritualmente esses movimentos atingem e influenciam todo o corpo de Cristo.
[2] Segundo CLOUGH: “O termo “instituição divina” foi usado durante séculos pelos cristãos, particularmente nos círculos reformados, para descrever as formas sociais básicas fixas” (CLOUGH, Charles A. LAYING THE FOUNDATION [Colocando o Fundamento], revisado. Lubbock: Lubbock Bible Church, 1977, p. 36. In.: ICE, Thomas. AS INSTITUIÇÕES DIVINAS. <http://www.chamada.com.br/mensagens/instituicoes_divinas.html>. Acessado em 04.04.18 as 08:55).
[3] Gênesis 1.26-28; Efésios 5.22-6.4
[4] Gênesis 9.5-6; Atos 17.26; Romanos 13.1-7. Romanos 13.2: “Portanto, que se rebela contra a autoridade se rebela contra o Deus que a instituiu e será punido”.
[5] RIDDERBOS concorda quando afirma: “Do ponto de vista histórico-redentor, a Igreja possui um lugar determinado nessa obra. Ela não aparece em primeiro lugar como um ajuntamento de crentes individuais que passaram a participar do dom de Cristo e do Espírito Santo. Na verdade, tem um significado a priori, isto é, de povo que Deus colocou ao seu lado em sua atividade salvadora e que ele pretende usar como exemplo de sua graça e redenção” (RIDDERBOS, Herman. A TEOLOGIA DO APÓSTOLO PAULO. A obra definitiva sobre o apóstolo aos gentios. Cultura Crista. São Paulo, 2004).
[9] Conferir a explanação de BERKHOF, Louis. TEOLOGIA SISTEMÁTICA. Cultura Cristã, 2001.
[10] SPROUL, R. C. A IGREJA VISÍVEL E A INVISÍVEL. 2014. In.: <http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/744/A_Igreja_Visivel_e_a_Invisivel>. Acesso em 16.04.2018 as 10:40.
[11] BERKHOF, Louis. TEOLOGIA SISTEMÁTICA. Cultura Cristã, 2001.
[12] Cf. GRESHAKE, G. EL DIOS UNO Y TRINO: uma teologia de La trinidad. Barcelona. Herder, 2001. p. 220-221. In.: CAPPELLI, Marcio. POR UMA “ECCLESIA COMMUNIO”. Contribuições da Eclesiologia Barthiana para uma Igreja Comunional e Participativa. Revista Pós-Escrito, nº 07, Rio de Janeiro, 2015.
[13] CAPPELLI, Marcio. POR UMA “ECCLESIA COMMUNIO”. Contribuições da Eclesiologia Barthiana para uma Igreja Comunional e Participativa. Revista Pós-Escrito, nº 07, Rio de Janeiro, 2015.
[17] É o poder inicial, incondicional e ilimitado para a constituição da Igreja. Da mesma forma que na teoria do Estado um outro poder constituinte originário implica na refundação do Estado, de igual forma, na Igreja não há outro poder constituinte originário, de modo que, não é possível a constituição da Igreja em outro fundamento que não seja Cristo.
[20] RATZINGER, Joseph. O NOVO POVO DE DEUS. 1974.
[21] Ao contrário do poder constituinte originário, exercido diretamente por Cristo, o poder derivado é revisor, condicionado ao estabelecido pelo poder originário e completamente limitado por ele. Assim, na Igreja as reformas, reavivamentos e restaurações trazem a Igreja de volta a um estado de primeiro vigor, não tendo poder para alterar o que foi estabelecido pelo Senhor, através das Sagradas Escrituras.
[22] STOTT, John. A VERDADE DO EVANGELHO. In.: PEREIRA JUNIOR, Antonio. AVIVAMENTO OU AVILTAMENTO? <http://www.napec.org/heresias-igreja/avivamento-ou-aviltamento/>. Acesso em 16.04.2018 as 10:50.