A gente camufla a dor, esconde os defeitos. Engole o choro, bebe as próprias lágrimas, só pra ninguém notar, só pra não cair, pra não demonstrar fraqueza. Mas toda válvula de escape tem um preço a se pagar.
Helena Ferreira (via umpoemaparahelenafan)
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A gente camufla a dor, esconde os defeitos. Engole o choro, bebe as próprias lágrimas, só pra ninguém notar, só pra não cair, pra não demonstrar fraqueza. Mas toda válvula de escape tem um preço a se pagar.
Helena Ferreira (via umpoemaparahelenafan)
meu coração é como soleira de porta
muitos põem os pés para entrar, mas querem ser apenas visitas ou vendedores de dores ambulantes.
Sinto falta de algumas coisas do meu passado, que muitos diriam que é bobeira ou sem importância alguma, mas sinto. Da bagunça que fazia com os meus irmãos no quintal da minha antiga casa, e de ouvir a minha mãe brigar ao ver e mandando a gente limpar tudo. Sinto falta de todos os meus animais de estimação que já se foram. Sinto falta de sentir pela primeira vez a famosa paixão, eu era criança, devia ter uns 5 anos, e ainda hoje, lembro do garoto da escolinha. Sinto falta de um vizinho que quando era criança, ele roubava os brinquedos da irmã mais velha, só para me mostrar o quanto eu era especial para ele, uma vez, ele pegou uma pedrinha, linda e laranja, e falou que aquilo era para mim, que era para guardar porque um dia ele iria me dar um anel para colocar com a pedrinha. No outro dia a irmã dele comentou que tinha sumido uma pedra do colar dela e quando ela viu a pedra comigo correu para bater nele. Sinto falta de viver com eles, e de uma outra vizinha que acabou virando minha melhor amiga, mas hoje é apenas uma mera conhecida. Sinto falta da sensação de alívio que senti quando escrevi no muro que uma vizinha minha era puta, mas só não sinto falta do esporro que levei da minha mãe e nem do tempo que gastei tendo que limpar a parede do terreno abandonado. Mas sinto falta de apostar corrida de bicicleta com as minhas primas nas férias. Da época que virei professora de uns amigos da rua onde morava. Do dia em que fiz planos para quando fizesse 18 anos, 20, 25 e 30. Planos que nunca realizei. Sinto falta de quando conhecia outras pessoas da minha idade e não via maldade nos seus olhos. Sinto falta da minha inocência e da inocência de algumas pessoas.
Uma vez li que sentir falta é sentir de algo que você sabe que não vai poder ter mais. (via velhocaos)
o coração é um
corpo estranho preso dentro
do nosso peito.
j.
Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
Clarice Lispector
, último bilhete escrito no hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, em 7.12.1977
(via ceciliando)
Engoli as palavras. Talvez seja o grau máximo de egoísmo que eu possa me permitir. Engoli as palavras porque elas só cabem em minhas pálpebras angustiadas. Os olhos do mundo são vis e cruéis, capazes de transformar esperança em melancolia, deforma as coisas bonitas até que elas se tornem demônios. O mundo rasteja na miséria e escarra em quem ousa sonhar. O mundo sou eu, é você. São os olhares cínicos que as pessoas dão quando pensam que ninguém nota. O mundo que você renega é a verdade da essência, ocultada propositalmente enquanto a peça teatral criada para se fazer de belo começa. Há beleza nos detalhes, há desprezo no minimalismo. Há contradição em cada célula do teu corpo e você finge não enxergar. As palavras são códigos para que leia as entrelinhas. Carrego entre esperas o ceticismo que impregnaram enquanto rasgavam meus afetos. A dor escorre para todos os lados porque sentir é se doer em exclamação, é pedir socorro ao mesmo tempo em que se afasta quem tenta te salvar do abismo. Sentir é incoerência e minha sanidade já se atirou do alto de um prédio. O vazio que me abraça é o mesmo que dilacera quando a noite cai. Não existe salvação na angústia que nós mesmos procuramos. A tristeza é um estado ditatorial que se impõe ao menor lamento. Eu não presto, my dear. Sou uma desgraçada covarde e doída que se afeta com ausências e foge. O caos, por si só, me acovarda, e busco por ele como quem busca aventura. Procuro calmaria mas a tormenta me fascina. Ela corre para meus braços e aceito o abraço. Sou carente e aceito qualquer forma de afeto que me lembre sua insanidade poética. Sou mesquinha e não divido minha psicose. Os homens são vis e cruéis, não em essência, mas em traumas que a vida presenteia numa pilhéria de péssimo gosto. E eu, my dear, sou cheia de cicatrizes.
Eu não presto, e nem você.
G.
A ânsia que nunca adormece, um desejo crescente e agonizante que se entranhou nos confins da alma muito antes de qualquer indício de guerra. Não nomeio como tristeza, é demasiado libertador para carregar o peso das lágrimas. Tampouco parece feliz. É dessas coisas inexplicáveis que por serem inexplicáveis tentamos encontrar qualquer signo capaz de nos orientar até alguma resposta coerente. Aprendi à la boemia que nem tudo tem resposta, e coerência não aquece o peito, todos os momentos que me tiraram o fôlego se fizeram simplesmente por detalhes que se entrelaçaram até formar uma banalidade daquelas tão belas aos olhos que despertou taquicardia e, possivelmente, um sorriso ou lágrima - o corpo trai mais do que blasfêmias. Um alguém coerente não estaria agora em busca de explicação entre linhas desconexas quando afirmou nessas mesmas linhas que não há. Mas continuo, porque não há o que fazer, realmente não existe nada senão uma faísca no peito que tenta constantemente incendiar tudo o que houver do lado de dentro. E existe essa ânsia que nunca adormece, esse desejo crescente e curioso de descobrir o que acontece depois do ponto final, o que o fogo levará e o que continuará após. Penso muito no amanhã, apesar de fugir de retóricas futurísticas. O futuro me parece uma música antiga, por mais contraditório que soe, uma música que escutamos anos atrás e já esquecemos a letra, e então ela volta numa festa qualquer, num rádio qualquer, um domingo qualquer, até recordarmos cada tom. Tenho medo não ter do que lembrar até o refrão.
G.
(Anotação)
Tenho escrito desesperadamente, como se fosse morrer antes do próximo parágrafo. As palavras se atropelam, perco frases inteiras no espaço de um milésimo de segundo. São tantos os pensamentos que descarto, logo desabo. A vontade de chorar como se a vida fosse um punhado de remendos e caminhos que levam ao abismo não passa sequer nos momentos mais doces. Tenho fugido dos sentimentos bons porque tê-los em demasia me faria crer em coisas belas e eu sei, apenas sei que a vida me fez tão só quanto podia, e qualquer tentativa de fugir seria vã. Perdoa, hoje não estou dada a pensamentos acalentadores, senão no fato de que a noite terá fim, ainda que ele não esteja próximo. Vezenquando sou capaz de me ver no fim, partindo ao amanhecer, quem sabe não virarei uma estrela n’algum lugar inóspito. Insisto em ter meia dúzia de pensamentos bonitos, admito.
É triste admitir que absolutamente ninguém é capaz de me libertar. Me vejo cada vez mais distante de tudo o que quero próximo. O tempo se esvai e me sinto escorrer entre os dedos do mundo, junto dele.
G.
Como é ser só?
É olhar para os lados e não ver ninguém, ver todos os tipos de relações humanas e sentir que não há espaço para isso dentro de você. É ter amigos e se sentir sozinho, é ter uma vida cheia de compromissos e se sentir sozinho. É se sentir desamparado, o tempo todo, pelos motivos mais banais porque além de ser só você também pode ser extremo sentimentalmente falando.É claro que essa é a minha visão das coisas.
Isso eu disse pra te convencer, que eu nem ligava em te perder.
doarei-me. (via doarei-me)
Esta língua não é minha, qualquer um percebe. Quem sabe maldigo mentiras, vai ver que só minto verdades. Assim me falo, eu, mínima, quem sabe, eu sinto, mal sabe. Esta não é minha língua. A língua que eu falo trava, uma canção longínqua, a voz, além, nem palavra. O dialeto que se usa à margem esquerda da frase, eis a fala que me lusa, eu, meio, eu dentro, eu, quase.
Paulo Leminski. (via doarei-me)
Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as porcentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a sí mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos
Charles Bukowski (via fantasi4s)