flashs of the past: I know you, I walked with you once upon a dream; aine & astrid.
( ‘ @ravxnhearted )
“ Quando Astrid despertou e mirou as duas axinites para o alto, tudo o que conseguia enxergar estava envolto de uma espessa névoa que, ela julgava, não deveria estar ali. Aos poucos as formas finalmente foram se definindo através da névoa, e a morena também imaginou que não deveria, ela mesma, estar ali. Galhos de árvores e cheiro de terra era tudo o que Astrid pensou que não veria ou sentiria por alguns longos dias, afinal, tendo tomado um navio como transporte para Valenwood, aquilo era tudo muito estranho. Por Mara, como havia parado ali?
“ O corpo foi erguido e rapidamente limpo. O vestido estava com manchas de terra e algumas folhas presas ao tecido, mas nada que incomodasse Astrid como a situação em si. O que, afinal, tinha acontecido? Na noite seguinte deitara-se numa cama improvisada, em meio a algumas outras pessoas que conseguiram pagar pelo transporte assim como ela, e não conseguia se lembrar de como parara no meio de uma floresta. Procurou em sua mente, mas era como se não houvesse nada além da lembrança do adormecer passado.
“ Sem pestanejar, ergueu um pouco do vestido ainda chamuscado e deixou os pés pisarem firmes no solo, analisando o local, vendo se era mesmo real. Pouco depois, estava rumando numa trilha entre as árvores e, quando finalmente chegou ao fim desta, pôde observar um pequeno vilarejo. A confusão em seu rosto era visível, mas ainda assim, optou por esperar e observar antes de se comunicar com alguém naquele meio. Todos pareciam tão ocupados que nem a notavam, mas um brilho diferente lhe chamou a atenção e ao olhar na direção de tal ‘brilho’, não viu nada que reluzia, mas sim outra mulher, mais ou menos da sua idade e estranhamente diferente de qualquer outro naquele lugar…
“ Decidiu se aproximar parecendo despretensiosa, apenas seguindo seus instintos e, ao chegar bem próximo de Aine, uma outra movimentação estranha chamou sua atenção: uma nuvem roxeada surgira no centro do vilarejo, assustando todos os comerciantes e aldeões que ali se encontravam. Da nuvem, uma mulher aparentando cerca de 35 anos surgiu com um brilho raivoso nos olhos e ao mesmo tempo um brilho que demonstrava orgulho em ter causado as reações que causou. Astrid ficou perplexa, olhando de longe e sentindo borboletas em seu estômago. A mulher era tão familiar e ao mesmo tempo não conseguia saber de onde poderia conhecê-la, tão estranha era a sensação que mal percebera que havia prendido a respiração e, ao lhe faltar o ar, acabou por cambalear para mais perto da loira a qual tentava se aproximar antes, esbarrando acidentalmente nela. ‘ — Perdão, eu…
Quando despertou, percebeu que estava em uma cama; não na pilha de panos que lhe serviria de leito na embarcação tomada no dia anterior, mas numa cama de verdade. Infiltrando-se em suas narinas, aromas os quais faziam ferver, se em tênue chama, nostalgia em seu âmago. Abriu os olhos, a cabeça volteando lentamente para mirar ao redor. Estava, de fato, em um quarto, pacato, sem decorações ostensivas. No criado-mudo ao seu lado, dois livros empilhados, um copo d’água coberto por um pedaço de tecido e, descansando contra a parede, uma boneca de pano. Conhecia aquele quarto. Crescera nele.
Como? A questão impulsionou-a para cima, fazendo-a se sentar. Foi quando ouviu uma batida vinda de algum ponto distante. Uma porta se fechando. Só então notou o formigar em sua bochecha e testa, como se antes houvesse recebido beijos. Seus pais. Que dia era aquele?
Em novo ímpeto, levantou-se e deixou o cômodo. As orbes azuladas inspecionavam inquietamente o entorno; todos os móveis estavam como se lembrava de tê-los visto pela última vez. Até o aroma era o mesmo, almíscar em meio às ervas medicinais e incensos de sua mãe. Deteve-se por um momento, examinando os materiais que a mulher deixava dispostos sobre uma mesa na sala. Uma gaveta lhe chamou a atenção. Cerrada, sem nada fora do usual. Por que lhe intrigava tanto agora?
A porta, lembrou-se, colocando-se em marcha novamente. Suas pernas vacilaram ao alcançá-la. Era seu lar de infância. Deixá-lo para trás de novo… não, não tinha por que ficar. Seus pais.
Fê-lo. Deixou-o, deixou-se envolver pela penumbra antelucana. Mesmo com só a escassa iluminação das tochas do vilarejo e dos astros noturnos, conseguia ver notoriamente bem, o bastante para vislumbrar vultos a se distanciar com pressa de onde ela estava — um homem cuja altura acentuada contrastava com a pequenez da robusta mulher que o escoltava. Aine sentiu seu coração disparar em seu peito, corpo a se mover por si só, seguindo-os. Seu sangue se desfizera em águas de degelo, descendo velozmente as montanhas de suas veias. Nada via que não as duas figuras as quais tentava acompanhar, demasiado longe para que ela os alcançasse. Só deixou de caminhar, porém, quando elas adentraram a comoção que tomava conta do centro do vilarejo, fazendo todos os murmúrios cessarem. Não conseguia continuar, paralisada, reduzida à posição de mera espectadora da cena que se desenrolava, sem nada compreender. Por que estavam ali? Por que todos mostravam tamanho interesse em seus pais? Por que estes estavam ali, àquela hora? Não haviam saído para alguma curta viagem? Depois de muito se estenderem, as perguntas se silenciaram, caladas pela visão de uma mulher a emergir de uma nuvem arroxeada. Magia, magia de potência raramente avistada. Um calafrio ríspido chacoalhou seu corpo, deixando-a estonteada por um instante. Sentia seu estômago embrulhado, dobrado sobre si mesmo repetidas vezes. Queria fugir, mas não conseguia mover um músculo sequer. Quem era ela? Por que causava-lhe tanto temor? E por que seus pais iam a seu encontro, com uma tensão que ela, de alguma maneira, sentia em suas próprias vértebras?
Mais uma vez, suas indagações foram interrompidas, daquela vez pelo choque de algo contra seu corpo, o espanto decorrente arrancando todo o ar de seus pulmões. Só foi capaz de um tornar de cabeça na direção do que quer que a atingira, pânico silente nos lábios entreabertos, boca desértica. Deparou-se com outra mulher, cuja idade não aparentava distinguir-se muito da sua própria. Encarou-a por alguns instantes, tentando compreender seu rosto, do qual uma estranha luz parecia emanar. Também magia? Não, daquilo tinha certeza. Apenas destacava-se do restante, como que sinais sutis apontassem-lhe na direção dela. Mas por quê? Quem era ela? Estava firme de que jamais a havia encontrado antes; decerto não no vilarejo. Seria como ela, uma antiga moradora que agora, de alguma forma, retornava? Poderia dar-lhe alguma das respostas que buscava? Com um sacolejo de sua cabeça, tentou retirar-se de seu transe. Ela dissera…
— Não… não há problema — enfim Aine falou. Não percebera antes, mas se agarrara ao braço da morena, talvez em busca de equilíbrio; simplesmente não se recordava. Mesmo ciente de tal, não o soltou, apenas diminuiu o aperto, ainda a fitá-la, inquisitiva. — Perdão, mas… quem é você? O que faz aqui?
Um estalido metálico pontuou sua questão, ecoando em seus ouvidos, concomitantemente alto e longínquo. Voltou-se para seus pais em um gesto instintivo, desespero latente tornando a se acumular em seu ventre. Via, nas mãos de sua mãe, algo que se assemelhava a um medalhão, estendido em direção à feiticeira. “Aqui está. Trouxemos o que queria. O que é seu por direito” , ouviu-a dizer, uma dureza em sua voz da qual nunca tinha provado. No fundo, o tremular de uma expressão também inaudita para si. Medo? “Leve-o e partamos em paz, sim?”. Para que partissem em paz? O que se dera ali? Seus pais haviam... não; era algum mal-entendido? Sentia o poder que emanava do objeto, se também distante, uma brisa cálida a cercá-la sem nunca tocá-la. A força no braço da morena ao seu lado retornou. — O que está acontecendo? — o murmúrio escapou-lhe.











