Insignificância
Quando meu avô morreu, eu estava sentada à mesa da sala de estar, traduzindo um manual de compliance para um banco internacional. Ele partiu às 21h e não houve aviso. Não senti um calafrio, tampouco uma onda de emoção; o vento não mudou de direção, a Terra não parou, não aconteceu nenhuma tempestade indicando que algo tremendamente pavoroso tinha acontecido. Era só mais uma noite comum. Aparentemente, nada estava fora do lugar.
Só recebi a notícia duas horas depois, à 00h, depois de terminar a tradução e fechar o notebook. Meu pai estava ao telefone, no sofá, com o olhar de alguém que carrega notícias dolorosas. Ele olhou em minha direção e eu soube que a pessoa mais cheia de energia, o centro de minha família materna, o sol em torno do qual a família girava, tinha partido para nunca mais voltar. Foi a notícia mais triste que recebi até então; passamos a madrugada entre lágrimas, lembranças, inconformismo e tristeza.
Nada fazia sentido. O canto dos pássaros e o dia de céu aberto, sem nuvens, com o sol todo poderoso a fustigar qualquer sinal de escuridão, pareciam zombar de minha tristeza. A quantidade de lágrimas derramadas em seu velório não mudou sua imobilidade, tampouco alterou a força da Morte. A Terra continuou seu curso ao redor do sol, as pessoas seguiam com seus afazeres diários sem consciência da desgraça ocorrida; foi como se nada tivesse acontecido.
- J.A.














